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Um Brasil irrespirável

por Carolina Rodrigues

O pantanal está em chamas.

Nos fins de semana as praias ficam lotadas, mas, pior do que isso, durante a semana nos metrôs, BRTs e ônibus os trabalhadores de tantos que são, não cabem. E os inocentes do Leblon enchem os bares, à revelia de toda tragicidade. 

Vivemos a distopia dos trópicos, encabeçada pelo porta-voz dos idiotas. Bolsonaro personifica a barbárie e dá voz àqueles que pela força da lei foram coagidos a esconderem seu racismo, preconceito, misoginia, LGBTfobia. Bolsonaro legitima aqueles que, como ele, desconhecem o pacto civilizatório que nos humaniza. 

Estarrecidos uns poucos sujeitos lúcidos olham para todo descaso com a vida e com a natureza e se perguntam como chegamos a esse ponto. A palavra não dá conta de oferecer respostas, assim como não dá conta de simbolizar o desdém, a indiferença, a assepsia ante o horror. É o Real que nos atravessa. 

Diante de uma história de miséria, descaso e desumanização, a morte no Brasil perdeu seu efeito. Aqueles que se acostumaram ao fantasma da fome, já não se assustam com o espectro da morte. Anestesiados por suas rotinas fatigantes de humilhações por um parco salário, muitos estão dessensibilizados ante mais um entre tantos riscos que a vida os impõe. 

A doença e a fome são velhos conhecidos de boa parte dos brasileiros. A ponto de um auxílio miserável lhes convencer de que Bolsonaro é o novo “pai dos pobres”, haja vista o aumento da sua popularidade entre os beneficiados. Porque, ao fim e ao cabo, o vírus que se espalha não é mais assustador que a comida que falta. 

Há sim o brasileiro médio, “cidadão de bem”, que tem fetiche por hierarquia e autoritarismo e, portanto, goza com o bolsonarismo. Esses não entendem patavinas do sistema democrático, mas fazem pose de politizados só pra defenderem o direito de serem medíocres. Mas têm aqueles que não se importam com partidos políticos e militância inflamada. Esses sequer sabem do que se trata ideologia, porque pra eles a única coisa que importa saber é se seus filhos terão o que comer amanhã. 

O absurdo já é tendência no Brasil faz tempo. Mas sob Bolsonaro somos atravessados pelo inominável. A Amazônia, pulmão do mundo, pega fogo: metáfora de um momento irrespirável. Falta-nos ar sob a fumaça, sob as máscaras, sob o caos.

Por Carolina Rodrigues 

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