Home África Denunciar a escravatura

Denunciar a escravatura

  1. No islamismo 

A escravatura acompanha os primórdios da história humana, pelo uso de mão de obra cativa e gratuita em todos os povos mas cresceu em quantidade e significado por voltas do século VII, com a expansão do islamismo  e no meio do choque de culturas e religiões o  resultado foi a escravização de milhões e milhões de pessoas ao longo do milênio seguinte. 

Mas ali pelo 740 d.C., perto de cem anos após a morte do profeta Maomé, em 632 d.C., uma série espetacular de conquistas muçulmanas levou a um extenso domínio intercontinental euro africano que se estendia, na geografia de hoje, do Paquistão até o Marrocos, incluindo o sul da França, boa parte das Espanhas  e do que seria Portugal, assim como todo o norte da África e o Médio Oriente. 

Nesse processo um enorme número  de cativos passaram a ser usados como servidores domésticos, trabalhadores na agricultura, soldados, funcionários burocráticos, eunucos guardiões de haréns, etc., podendo-se dizer que a escravatura  foi a base da expansão do islamismo. 

Vale referir que em 1960, ou seja, nove anos antes da chegada do homem à Lua, um relatório apresentado pelo lord Shackleton no Parlamento Britânico, em Londres, dizia que peregrinos muçulmanos da África vendiam escravos para pagar suas despesas de viagens ao chegar a Meca, na Arábia Saudita e os números do tráfico de escravos em território muçulmano em África são impressionantes pois perto de 12 milhões de negros africanos foram capturados e exportados através do Saara, do Mar Vermelho e do Oceano Índico entre os séculos VII e XIX basicamente o mesmo número de cativos embarcados para a América ao longo de 350 anos. Só no século XIX, o número de cativos transportados por essas rotas chegaria a 3,8 milhões. 

O Império Turco sozinho comprava entre 16 mil e 18 mil homens e mulheres todos os anos até o final do século XIX e a partir do século XVI, mercadores muçulmanos também venderam para a América outro milhão de cativos, capturados e embarcados nas regiões da Senegâmbia e da Alta Guiné. “A escravidão já era fundamental para a ordem social, econômica e política em toda a região norte da África, na Etiópia e na costa do Oceano Índico por muitos séculos antes da chegada estando incluídos no processo de escravatura portuguesa pois levavam os escravos aos portugueses.

Nas cidades de Argel, Cairo e Bagdá, entre outros procedimentos recomendava-se que, ao chegar aos locais de venda, os cativos fossem alimentados, tratados de eventuais doenças ou feridas e untados com óleo para ficarem lustrosos e com boa aparência  estando então prontos para serem comercializados e os compradores deveriam examinar-lhes a boca, para verificar se tinham boa dentição, sendo necessário fazê-los mexer os braços, curvar-se, correr e saltar. 

Este ritual de compra e venda de escravos, herdado dos muçulmanos, seria adotado quase na íntegra pelos capitães negreiros portugueses espanhóis ingleses holandeses etc., que fariam o tráfico de escravos entre a África e a América nos séculos seguintes.

Existem variados relatos do tráfico muçulmano de escravos em África, antes e depois da chegada dos europeus, um deles, publicado em 1507 por Valentim Fernandes, tipógrafo residente em Lisboa, que descreve a existência de sete minas de ouro abastecidas com mão de obra cativa pelos mercadores muçulmanos no chamado Sudão Ocidental, onde hoje estão os países de Gana, Mali, Costa do Marfim, Gâmbia e Senegal jazidas exploradas e administradas por sete diferentes soberanos onde cada um tinha a sua, a grande profundidade, onde trabalhavam milhares de escravos. 

Os reis providenciavam mulheres para que os escravos, todos eles homens, pudessem se reproduzir. As crianças ali nascidas eram rapidamente treinadas para o trabalho de mineração, que executariam durante o resto de suas vidas.

O cronista muçulmano Ibn Battuta cruzou o Saara na metade do século XIV com uma caravana que transportava seiscentos escravos na direção contrária, rumo ao Mediterrâneo e disse ele, a maioria dos cativos que seguia por essas rotas através do deserto era composta de eunucos e mulheres. 

Muitas delas seriam usadas como concubinas nos haréns. As demais, empregadas em serviços domésticos e agrícolas. Os eunucos, por sua vez, seriam designados para funções administrativas, vigiar os haréns e servir como soldados e escrivães.

Cerca de quatrocentos anos mais tarde, o explorador escocês Mungo Park, que andou pela África na segunda metade do século XVIII à procura das nascentes do rio Níger, relatou outra viagem que fez em companhia de mercadores de escravos pelo vale do rio Gâmbia, da região desértica de Bambara (atual Mali) até a costa, no Atlântico. 

O texto que escreveu descreve  a forma como os 35 cativos dessa caravana eram transportados e vigiados ao longo da viagem:

“Eles seguem amarrados, a perna esquerda de um presa à perna direita do outro pelo mesmo par de argolas; essas argolas são ligadas em fileiras entre si por cordas, de modo que eles podem andar, embora muito lentamente. Além das argolas nos pés, cada grupo de quatro escravos é também atado por uma longa corda presa ao pescoço. À noite, mais um par de argolas é amarrado aos seus pulsos e, às vezes, também uma pequena corrente de ferro é passada pelo pescoço.”

Essas filas de escravos eram comuns em toda a costa ocidental da África e na região da atual Angola e do Congo, era chamada de libambo. 

Nos séculos IX e X, um escravo custava, nos mercados do Magrebe, entre 30 e 60 dinares, quantia equivalente a 141 e 283 gramas de ouro, respectivamente. 

No Egito, uma jovem negra valia cerca de 40 dinares, e um eunuco, mais de 65.

Se na imaginação popular, teriam existido palácios repletos de mulheres lindíssimas e ansiosas para oferecer prazeres sexuais aos seus senhores não era bem assim a verdade e os historiadores Clarence-Smith e David Eltis desfazem o mito a respeito da vida sexual desses locais. Ao contrário do que supõe a fantasia ocidental, os haréns, segundo eles, não eram sinônimo de orgia funcionavam sim como um armazém  de escravas para o serviço doméstico, sem direito a vida familiar ou sexual própria e poucas eram as mulheres que compartilhavam a cama dos chefes muçulmanos

Os eunucos, por sua vez, eram homens privados da virilidade mediante a castração dos órgãos genitais ainda na adolescência. Devido à suposta falta de apetite sexual, geralmente eram designados para fazer a guarda dos haréns, embora também ocupassem funções-chave na estrutura dos impérios, como tesoureiros, ministros, conselheiros políticos e até comandantes militares. 

Eram na verdade uma forma extrema de escravidão, antiquíssima, praticada na China, na Índia, na Pérsia, nos territórios muçulmanos e citada repetidas vezes na Bíblia e em outros textos antigos como no livro de Jeremias, do Antigo Testamento, onde o etíope Ebede-Meleque, eunuco na corte do rei Zedequias, salva a vida do profeta, cujos inimigos haviam lançado numa cisterna para que definhasse até a morte e no livro dos Atos dos Apóstolos, o apóstolo Felipe converte e batiza um eunuco alto funcionário etíope, que retornava de uma peregrinação a Jerusalém.

Na China da dinastia Ming, o número de eunucos era calculado em mais de 100 mil, 70% dos quais serviam no palácio imperial e entre 1501 e 1623, sete grão-vizires do Império Turco eram eunucos. Al-Muqtadir, califa de Bagdá entre os anos 908 e 932 d.C., teria em seu palácio 11 mil eunucos, dos quais 7 mil seriam negros e os demais, brancos.

Abul- Misk Kafur, um eunuco negro, foi regente do Egito no século X d.C e segundo Orlando Patterson, confiavam-se aos eunucos altas funções do Estado devido a sua impossibilidade de se reproduzir e como nunca teriam herdeiros que pudessem reivindicar patrimônio ou status, eram uma forma conveniente de manter a ordem social em vigor. 

Havia duas maneiras de castrar um homem para transformá-lo em eunuco, ou a amputação total do pênis, rente ao abdómen, ou a extirpação apenas dos testículos e em várias regiões do Mediterrâneo e do Oriente Médio existiram  “centros de produção” especializados nesse tipo de cirurgia como no Egito e na Etiópia, onde a castração de adolescentes era uma das atividades dos mosteiros cristãos coptas. 

No mercado de escravos, os eunucos eram muito mais valiosos do que os cativos comuns, entre outras razões porque o índice de mortalidade durante e após o procedimento cirúrgico era altíssimo pois à volta de 90% dos adolescentes castrados morriam e eis porque em 1715, um édito do Império turco proibiu a castração de jovens no Egito mas estes “verdadeiros açougues”, segundo o texto não Impediu que testemunhos do começo do século XIX não mostrassem que a segurança da Kaaba, monumento sagrado do islã em Meca, era feita por quarenta eunucos vindos do Sudão.

Entre a Idade Média e o início da expansão portuguesa no século XIV, o cativeiro e o tráfico de cativos afetavam indistintamente muçulmanos e cristãos e no século IX, o califa de Córdoba, na atual Espanha, tinha um exército de aproximadamente 60 mil escravos capturados entre cristãos europeus e muçulmanos foram como escravos utilizados  na reconstrução da Catedral de Santiago de Compostela, também na Espanha, por volta de 1150, enquanto, na mesma época, cativos cristãos ajudavam a erguer a mesquita Cutubia, em Marrakech, no atual Marrocos.

Uma história exemplar desse período é a do advogado, viajante e cronista muçulmano Al-Hasan ibn Mohammed al-Wazzan al-Zaaiyati, conhecido como Leão, o Africano. Nascido em Granada, região da Andaluzia, quando o sul da Espanha ainda estava sob domínio dos mouros, mudou-se para Fez, no Marrocos, depois que a cidade foi reconquistada pelos cristãos, em 1492 onde estudou Direito e tornou-se embaixador do sultão marroquino. 

Como diplomata, viajou pelo Oriente Médio e pelas regiões da África situadas ao sul do deserto do Saara. Em 1519, no regresso de uma peregrinação a Meca, foi capturado como escravo por corsários cristãos no Mediterrâneo e enviado de presente ao papa Leão X. Em Roma, converteu-se ao cristianismo, adotou o nome Leão, o Africano, e começou a escrever as memórias de viagens tendo morrido  em Túnis, atual capital da Tunísia, reconvertido ao islã. 

Sua narrativa, redigida ainda no cativeiro, é um dos relatos mais detalhados que se tem da África nessa época. 

0 comentário
0

RECOMENDAMOS

Comente

* Ao utilizar este formulário, você concorda com o armazenamento e gestão de seus dados por este site.