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Versões sobre o 27 de maio de 1977 em Angola

por Joffre Justino

Retirado do site da Fundação Agostinho Neto o texto abaixo do jornalista Artur Queiróz segue a linha de um texto por ele publicado entre 28 e 31 de maio de 1977 no Diário Popular que merece reflexão tal como o artigo que divulgámos ontem de Fernando Heitor um economista de renome em Angola ex dirigente da UNITA e atualmente Independente e o Comunicado que segue abaixo da CASA-CE! 

O 27 de maio como em Angola o denominamos foi um drama doloroso e estranho, doloroso dadas as mortes havidas ( algo entre 20 mil e 70 mil) e centradas essencialmente entre militantes e simpatizantes do MPLA e de Norte a Sul, Leste a Oeste, estranho considerando os envolvidos como veremos.

A descrição de Artur Queiroz é bem factual no que concerne ao lado do MPLA / Agostinho Neto mas bem menos factual do lado Nitista, pois está por perceber a posição das Fapla neste período sabendo-se que nas ruas do lado nitista houve sobretudo militantes não militares, o que sucedeu também do lado netista com como relata Artur Queiroz Agostinho Neto, formalmente PR angolano a perguntar a um responsável cubano onde andavam eles já que com os soviéticos pouco se contava 

E tal é o elemento estranho que acentuámos – houve, depois de algumas horas de indecisão,  uma cisão entre soviéticos e cubanos  com os últimos a pender para Neto e dando assim a vitoria ao que viria a ser a ala conservadora / direitista do MPLA  ( bem ao contrário do que relata a propaganda das Esquerdas mas que justifica bem como um partido dito “da Internacional Socialista” em Portugal foi sempre apoiante da ala direitista do PSD!) 

Ganho o golpe / contra golpe pelos cubano-netistas o que se seguiu foi uma torrente de mortes sobretudo entre mplistas / nitistas com no meio muita vingançazinha pessoal sendo certo que o 27 de maio fez desaparecer muitos quadros angolanos negros que teriam sido essenciais para o desenvolvimento de Angola ja falha de quadros com a saída para Portugal por serem conotadamente portugueses, mas brancos, mulatos e negros, dos conhecidos Retornados ( fora a Independência de Angola trabalhada desde 1961 como defendeu o ministro da Defesa de Salazar Botelho Moniz e hoje mais que Angola, a CPLP seria outra!) 

Hoje há em Angola que criar um espirito de perdão entre todos os seus Filhos e Filhas de Tolerância pois a Violência foi dominante nas relações humanas na Angolanidade e o Apelo de Fernando Heitor e da CASA-CE têm todo o nosso Apoio! 

  1. ANGOLA E OS CÃES DE PALHA

Golpistas de Maio e a Verdade da História

ARTUR QUEIROZ

A História de Angola está a ser reescrita por grupos de pressão política que visam o descrédito do país e das suas instituições. O caso mais flagrante desta realidade tem a ver com os trágicos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, o golpe de estado desencadeado por um grupo de contra-revolucionários cuja cabeça visível era Nito Alves, com o apoio de várias embaixadas dos chamados países de Leste, com grande destaque para a embaixada da então União Soviética.

Vários órgãos de comunicação social, em Angola e Portugal, andam desde 1992 a reescrever o golpe de estado mas também a própria história do MPLA. Mais longinquamente, uma agente policial travestida de jornalista ganhou um prémio de jornalismo em Portugal ao contar a saga de Cita Alves, retratada nesse “trabalho” como uma heroína e uma mártir do regime angolano. Apesar das aldrabices grosseiras e evidentes, os historiadores angolanos deixam passar em claro estes atropelos à verdade história e à verdade dos factos. A deturpação grosseira da própria história do MPLA também não mereceu sequer uma correcção por parte da direcção do partido.

Eu compreendo que estando os jornais da oposição angolana e os jornais portugueses “Expresso” ou “Público” (estes, pelo menos, têm colaborado activamente na falsificação do 27 de Maio) feridos de credibilidade, ninguém entre nós os leve a sério. Mas a mentira repetida muitas vezes, vira facilmente verdade indesmentível. Por isso eu venho a terreiro denunciar as aldrabices, pelo menos as que mais ferem a minha sensibilidade e a memória de todas as vítimas dessa tragédia, que a todos tocou profundamente.

Ascensão do Professor

Nito Alves foi lançado por Agostinho Neto na direcção do MPLA. Tratava-se de um militante de segunda linha (era professor de posto) na I Região Político Militar do MPLA. Na sequência do 25 de Abril de 1974, ele foi enviado a Luanda para contactar as células clandestinas. Apresentou-se como “comandante” e nessa condição foi levado ao congresso de Lusaka. As suas intervenções ultra-populistas levaram-no directamente para a direcção de um movimento dilacerado pela Revolta do Leste (1972) e Revolta Activa (após o 25 de Abril de 1974). O jovem professor fez caminho como “comandante” e como dirigente. Até ultrapassou César Augusto “Kiluanji”, o então comandante da região.

Jacob Cateano “Monstro Imortal” viu nesse jovem ambicioso um ponta de lança precioso para lhe abrir o caminho do seu sonho dourado: ocupar o lugar de Agostinho Neto. Na verdade, “Monstro Imortal” foi o verdadeiro cérebro do golpe. Quem o conheceu bem, sabe que ele se dedicava a estudar até ao pormenor todas as acções golpistas que aconteciam em África.

“Monstro” fez tudo para conquistar poder na Frente Norte, mas chocou sempre com camaradas que lhe cortaram as vazas. Na I Região, Ingo e Kiluanji estão aí para explicar a sua trajectória. Da II Região, infelizmente, já quase todos os comandantes faleceram, Dois deles, Nzaji e Eurico, acabaram por ser assassinados pelos golpistas do 27 de Maio.

A Degola dos Esquerdistas

Quando o MPLA abriu a sua delegação em Luanda, em Outubro de 1974, os Comités Amílcar Cabral (CAC), os Comités Henda e o Órgão Coordenador das Comissões Populares de Bairro enfrentavam os esquadrões da morte, organizavam a defesa dos musseques e divulgavam a doutrina do MPLA junto das massas. Mas deram a Nito Alves a direcção do Departamento de Organização de Massas (DOM) e todas essas estruturas ficaram sob o seu domínio. Os militantes dessas organizações de base foram de imediato reprimidos.

Nessa altura, Cita Vales era companheira de Nito e a sua mentora ideológica. Militante do Partido Comunista Português, Cita chamou a Luanda outros camaradas do seu partido e todos juntos iniciaram a caça aos “esquerdistas” dos comités Henda e CAC. Nito Alves usava um discurso populista, demagógico e racista que levava ao rubro os moradores dos musseques.

O DOM provocou a ruptura com as direcções dessas estruturas de base quando emitiu um comunicado no qual foram declaradas traidoras. No “Diário de Luanda”, foi publicado um editorial onde era feita a defesa desses jovens militantes. Nito Alves não perdoou e moveu os cordelinhos para que a direcção fosse demitida. E conseguiu que Filipe Martins, então ministro da Informação, demitisse Luciano Rocha e eu próprio. Para o nosso lugar foi nomeado Vergílio Frutuoso, militante do PCP e homem de confiança de Cita Vales. Frutuoso foi expulso de Angola na sequência do 27 de Maio.

Os Apoios ao Golpe

Agostinho Neto enviou Nito Alves a Moscovo, chefiando uma delegação oficial. Quando Nito regressou, vinha determinado a ocupar o lugar de Neto. E trazia apoios para o golpe. Cita Vales, entretanto travou-se de amores por José Van Dunem, comissário político das FAPLA. Através do novo casal foram mobilizados para a causa elementos de proa das forças armadas, como o comissário político Bakallof. Algumas estruturas da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores Angolanos), sobretudo alguns dirigentes, aderiram às “teses” de Nito Alves.

A sua doutrina era leviana e perigosa: só podia haver igualdade e liberdade em Angola quando os brancos e os mulatos andassem a varrer as ruas. Só não explicou quem é que depois ia fazer operações nos blocos operatórios, dar consultas médicas, ia ensinar nas escolas e na universidade, quem ia fazer jornalismo, quem ia comandar os angolanos na guerra contra os invasores estrangeiros e seus aliados internos. O colonialismo ergueu barreiras quase intransponíveis de forma a impedir o acesso dos angolanos negros à Educação.

As massas exultaram. A UNTA propagou a boa nova. O ambiente ficou de cortar à faca. Saidy Mingas ousou denunciar o avanço dos nitistas e a preparação do golpe. Vários comandantes do Estado-Maior General das FAPLA apelaram a Agostinho Neto para que travasse os golpistas. Mas nessa fase já era muito difícil parar um movimento que tinha efectivo apoio das massas. A Rádio Nacional de Angola foi infiltrada através do programa “Kudibanguela”. A nova direcção do “Diário de Luanda” publicava páginas inteiras de propaganda soviética. E o movimento golpista engrossava.

Queimados Vivos

Na madrugada de 26 para 27 de Maio a rebelião avançou. Pela calada da noite, os golpistas foram a casa de vários dirigentes, prenderam-nos e assassinaram-nos. Nessa noite, vários foram queimados vivos. As fogueiras da Jamba começaram na madrugada de 27 de Maio de 1977, aqui em Luanda. Os golpistas, sedentos de sangue, atacaram em todas as frentes. Quando foi dado o alarme, já o golpe estava numa fase muito adiantada. Elementos da IX Brigada, unidade estratégica, também tinham aderido ao golpe. E na hora da verdade, estava praticamente inoperacional ou ao serviço dos golpistas.

Vários dirigentes e comandantes foram despejados mortos ou a agonizar na lixeira da estrada do Cacuaco, junto ao Sambizanga, onde era o mercado Roque Santeiro. Em poucas horas, Angola acabara de perder alguns dos seus melhores quadros. Saydi Mingas, Nzagi, Dangereux, Bula, Eurico, Garcia Neto, Hélder Neto e tantos outros. Estes mortos não são mentira. Não são ficção. São uma trágica realidade. O Estado-Maior General das FAPLA estava decapitado de alguns dos seus melhores comandantes.

A Picada do Marimbondo

Quando alguém mexe no ninho do marimbondo, a reacção é brutal. E os marimbondos saíram do ninho e defenderam o país que tanto custou a erguer. Os cubanos tardaram em sair, apesar da insistência de Agostinho Neto, que perguntava ao general Risquet, que comandava as forças expedicionárias de Cuba, por que razão os blindados não saíam. E ele respondia: – Estão quase a chegar, estão quase a chegar. Mas o tempo passava e Risquet andava nervoso pelo jardim da casa de Agostinho Neto, no Futungo.

Neto, mais ríspido que nunca disse-lhe: – Faça sair imediatamente os blindados! Não acha que estão a demorar tempo demais? O general Risquet respondeu agastado: – Eles vão chegar. Se chegaram de Havana aqui, também vão chegar ao centro de Luanda.

A Rádio Nacional foi tomada pelos golpistas. Milhares de jovens acompanhavam pelas ruas os revoltosos, sem saberem da matança que eles tinham feito durante a madrugada. Só Iko Carreira, Xietu e alguns oficiais do Estado- Maior sabiam. Quando os tanques finalmente chegaram, começou a contenção do golpe. As tropas leais ao regime prenderam toda a gente que andava na rua. Em breve Luanda ficou deserta.

Monstro Imortal foi apontado como o mentor do golpe pelos prisioneiros golpistas presos. Monstro, interrogado no edifício do Ministério da Defesa entregou de imediato Nito e Bakalloff. Só então se soube da verdadeira dimensão da tragédia.

Dezenas de jovens, presos nas ruas, foram enviados para o Leste de Angola e alojados num antigo Centro de Instrução Revolucionária (CIR). Os marimbondos em fúria nem se preocuparam em saber se eles estavam implicados no golpe ou eram simples mirones. Sem abafos para resistir ao frio e mal alimentados, muitos sucumbiram. Com mais esta tragédia foram vingados os comandantes do Leste assassinados pelos golpistas. Até em Luena capital da província, vários quadros do MPLA, oriundos de Luanda, foram assassinados, por vingança. De um e do outro lado acabaram por morrer alguns dos melhores quadros de um país que não tinha quadros. Ainda hoje estamos a viver as ondas de choque dessa tragédia.

Os golpistas assassinaram muita gente. Queimaram, vivos, alguns dirigentes. Desencadearam a fúria dos seus camaradas. Toda a tragédia que aconteceu de seguida, foi da sua inteira responsabilidade. Tudo o que aconteceu na sequência do 27 de Maio é da exclusiva responsabilidade dos golpistas, estejam eles mortos ou vivos. E nesta fase não adianta falsificar a História e culpar as vítimas ou falar de milhares de mortos, porque isso é mentira. Não houve milhares de mortos.

Cães de Palha

A falsificação do 27 de Maio de 1977 começou em 1992, quando os americanos montaram um cenário fantasmagórico para a UNITA ganhar as eleições, com a maior das facilidades. O Governo do MPLA foi acusado de massacres no 27 de Maio. A propaganda americana ia no sentido de derrotar o partido no poder, antes mesmo das eleições. A Comunicação Social em Portugal e nos países “amigos” repetia vezes sem conta que o MPLA ia perder as eleições, porque era essa a tendência registada em países onde o partido único foi poder, até à realização de eleições.

Mas o povo angolano não vai em falsificações. O povo sabe quem massacrou, quem queimou vivo, quem quis tomar o poder à custa de um banho de sangue. Nito Alves e seus sequazes protagonizaram um golpe racista. Perderam. Anos mais tarde, em 1992, Savimbi protagonizou um golpe para levar ao poder o nazismo negro. Foi derrotado. Os mesmos actores de sempre querem vergar o MPLA para imporem um regime de cães de palha. Mas a sua “tropa” também está por trás das diatribes de Carlos Pacheco e outros colonialistas ressabiados que montaram em Lisboa as suas tendas de calúnias e mentiras.

Nas “páginas sofridas” do historiador Carlos Pacheco, recentemente publicadas em Portugal (onde mais podia ser?) é espezinhada a honra dos guerrilheiros do MPLA que se bateram contra o colonialismo em todas as frentes.

Agostinho Neto, o líder que guiou os angolanos até à Independência Nacional e ajudou a libertar toda a África Austral, é apresentado como um criminoso.

A matriz revolucionária do MPLA e a sua génese, o 4 de Fevereiro, são afogadas no lixo produzido pela Pide e as organizações de propaganda do regime colonial-fascista de Lisboa, aliado aos nazis de Pretória e Salisbúria (Harare).

Se os responsáveis políticos de Angola (incluo os da oposição) continuarem indiferentes a todas estas manobras, desta vez os cães de palha vão mesmo para o poder. Por isso, a nova direcção do MPLA tem o dever moral de abrir os arquivos do 27 de Maio de 1977 e publicar os depoimentos manuscritos e assinados, de todos os que pertenceram à direcção política e militar do golpe. Se não o fizerem agora, as mentiras de Carlos Pacheco e seus mentores, passam a ser verdades indesmentíveis.

  1. COMUNICADO SOBRE O 27 DE MAIO da CASA-CE 

O Colégio Presidencial da CASA-CE vem, por esta via, render uma singela homenagem aos mortos, aos  sobreviventes e aos familiares  das vítimas dos tristes acontecimentos, que enlutaram Angola e os angolanos há  27 de maio de 1977.

O Colégio Presidencial da CASA-CE lembra, que os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 marcaram de forma trágica a vida de milhares de angolanos, que viram partir para eternidade, os seus entes queridos, mortos de forma bárbara e indiscriminada, por intolerância política, cujos restos mortais carecem até hoje, de identificação, certificação e de um enterro condigno.

Transcorridos 43 anos, desde o tão horripilante massacre, o Colégio Presidencial da CASA-CE entende, ser momento para a criação de um instrumento, nos moldes de uma comissão da verdade, não só para o esclarecimento e claraficação dos acontecimentos do 27 de Maio, como também, para aproximação das partes e apaziguamento dos espíritos.

Que haja arrependimento por parte dos autores morais e materiais das mortes, que deverão fazê-lo no sentido de estimular o genuíno perdão, bem imaterial relevante para concretização da verdadeira reconciliação nacional.

O Colégio Presidencial da CASA-CE saúda, por outro lado, os esforços desenvolvidos por todas as forças vivas do país, formações políticas, igrejas, associações cívicas, pessoas singulares e colectivas, que muito se têm batido pela justa reparação dos danos provocados pelos tristes acontecimentos de 27 de Maio.

O Colégio Presidencial da CASA-CE encoraja o Executivo angolano, a dar continuidade aos sinais de relativa abertura e aproximação que tem dado, embora tímidos, tendentes a minorar as vicissitudes por que passam as famílias angolanas vítimas, quer com a criação da Comissão Multissectorial de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos, bem como pela criação da Lei de Certificação de óbitos ora aprovada.

O Colégio Presidencial da CASA-CE sublinha, que a criação da Comissão Multissectorial tendente a minimizar a dor provocada pelos conflitos políticos, que ainda apoquentam os familiares e sobreviventes, é uma Comissão oportuna, de quem se espera resolver as grandes dificuldades das vítimas dos acontecimentos do 27 de Maio, materializando a justa vontade daqueles que se esbatem até hoje, para o seu devido reconhecimento.

O Colégio Presidencial de CASA-CE exorta os sobreviventes do 27 de Maio e os familiares das vítimas, para que se revistam do espírito de perdão e reconciliação nacional, tal como apela o Estado angolano, no sentido de se dar um tratamento especial aos sobreviventes desse holocausto e aos familiares  das vítimas, que passa pela a sua reinserção social e pela restituição da sua dignidade, para que se sintam úteis na sociedade, deixando assim o estigma do fraccionismo para a história de Angola.

TODOS POR ANGOLA, UMA ANGOLA PARA TODOS!

LUANDA, AOS 27 DE MAIO DE 2020.

O COLÉGIO PRESIDENCIAL

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