Home China CONFRONTO BEIJING/TAIPÉ: A “PACIÊNCIA CHINESA”

CONFRONTO BEIJING/TAIPÉ: A “PACIÊNCIA CHINESA”

por Mário Alves

A elevada taxa de crescimento económico que, na passada década de 80, fez de Taiwan (a chamada “República nacionalista da China”) um dos “tigres asiáticos”, deveu-se mais ao forte investimento e apoio norte-americano, apostado em contrariar a vizinha China comunista, do que ao regime político dominado pelo Kuomintang changkaishekista – um mandarinato polvilhado por traços capitalistas impostos por um imperialismo ocidental já em recuo. A velha ilha Formosa está na memória da expansão portuguesa que lá chegou no século XVII e a encontrou dominada por Beijing desde o século XIV, ocupada por camponeses ali deixados pelo antigo Império do Meio. Todavia, essa memória (como todas as memórias) esvaneceu-se no decorrer dos tempos e os portugueses de hoje quase desconhecem que os seus antepassados pisaram o solo dessa ilha longínqua e fronteira à província chinesa de Fujian.

Quando, em 1949, o Exército de Libertação Popular liderado por Mao Zedong derrotou os nacionalistas comandados por Chang Kai-shek, ao cabo de uma prolongada guerra civil, e os obrigou a retirar para a ilha de Taiwan, a China dividiu-se em duas partes: a continental, vermelha, unia-se em torno dos comunistas vitoriosos (República Popular da China) e a insular (a República da China, nacionalista) ficava com capital em Taipé. De imediato, enquanto a República Popular era reconhecida pelo mundo comunista, a Nacionalista obtinha o reconhecimento da larga maioria dos países que não alinhavam por Moscovo.

Com uma verdadeira “paciência chinesa”, Beijing jogou com o tempo, obedecendo à batuta estratégica de Zhou Enlai: em 1950, ocupou a ilha de Hainan, ocupada pelos nacionalistas, e o até então independente Tibete, reunificou a parte continental com o esmagamento dos changkaishekistas no Yunnan e em Xijiang, começando a assimilar os enclaves ocidentais no seu território – Hong Kong, em 1997, e Macau, em 1999. Paralelamente, a pouco e a pouco, foi ganhando o reconhecimento internacional. A representação chinesa foi inicialmente confiada no concerto da Organização das Nações Unidas à República de Taiwan mas, em 1971, o número de países que reconheciam Beijing passou a superar o número dos que reconheciam a parte nacionalista. E a China vermelha foi, finalmente, admitida na ONU, desalojando a delegação de Taipé.

Como no desafio de David a Golias

Orientada pelo pragmatismo de Deng Xiaoping subordinado ao princípio de “uma só China, dois sistemas”, o comunismo chinês avançou decididamente para o chamado socialismo de mercado, liquidando a espuma da Revolução Cultural maoísta. Definiu então como objectivo a supressão da independência de Taiwan (nunca reconhecida por Beijing) e a sua inclusão num território totalmente reunificado, ainda que com estatuto semelhante ao de Macau e de Hong Kong.

Sem pressas. Os ventos parecem agora soprar a favor do desiderato de Beijing, sobrando menos de uma escassa vintena de países a terem relações preferenciais com Taiwan. Até a pequena República de São Tomé e Príncipe se rendeu ao realismo de largar o chapéu encobridor de Taipé, trocando-o pela maior cobertura que a China comunista lhe poderia conceder.

Em 1954/55, as duas partes chinesas estiveram em confronto pela posse de algumas ilhas no estreito de Taiwan – Matsu, Quemoy,  Ilhas Dachen e Yijiangsha. As forças norte-americanas ajudaram à protecção das tropas nacionalistas. Em 1958, como que prolongando a guerra da Coreia, as ilhas Quemoy e Matsu voltaram a ser bombardeadas e novamente os americanos acorreram em defesa dos nacionalistas. Em 1995/96, Beijing fez cair sobre o estreito uma saraivada de mísseis teleguiados, procurando intimidar Taipé.

Mas, em Fevereiro de 2015, o actual líder chinês, Xi Jinping, encontrou-se e apertou a mão ao presidente de Taiwan, Ma Ying-Jeou. Aconteceu em Singapura. O acto tinha significado político: pela primeira vez, o Partido Comunista chinês reatava um relacionamento, ainda que frio, com o Kuomintang, seu ocasional aliado contra o imperialismo nipónico na década de 40, tido então como o “inimigo principal”. O degelo deveria implicar, a prazo, a aproximação entre as partes envolvidas num conflito de décadas.

No entanto, nada mais ocorreu de então para cá. E a China de Xi Jinping resolveu lembrar o seu poderio: deu um murro na mesa, começou com exercícios militares no Estreito de Taiwan, empurrou o seu único porta-aviões (o “Liaoning”) para as águas formosinas, ameaçou com novo conflito armado caso Taiwan não cedesse nas suas veleidades independentistas, e gritou: “não digam que não foram avisados”. A relação de forças, nos dias de hoje, pende claramente para o lado de Beijing (com uma impressionante marinha de guerra) e Taipé responde com a mobilização com vista à eventualidade de um novo conflito. Parece o pequeno David a desafiar o gigante Golias ou, usando uma imagem oriental, o bater do pé ao temeroso dragão.

Perante este cenário, no jogo de apostas é de confiar na carta de uma sarrafusca localizada a culminar numa negociação de “mais um passo para se alcançar a reunificação das Chinas”. Enfim, o habitual porque a paciência chinesa não tem limites.

Nuno Rebocho                                                                     (jornalista e escritor)

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