Home Cultura “Os Tendeiros” e “Studii”: momentos de apresentação de livro/obra e de observação de fotografia

“Os Tendeiros” e “Studii”: momentos de apresentação de livro/obra e de observação de fotografia

por Teresa Soares

No próximo dia 2 de Novembro, às 19 horas, tem dois motivos para se dirigir à Rua da Emenda, n.º 72: a homenagem a Jaime Gralheiro (1930 – 2014) e a apresentação da sua obra póstuma “Os Tendeiros” (2.ª edição, Edições Esgotadas), bem como a inauguração da exposição de fotografia “Studii” de Teresa Soares.

Jaime Gralheiro é autor de uma obra extensa para o Teatro e literatura desde os anos sessenta até ao seu desaparecimento físico. Na primeira vertente, criou obras como autor e encenador, marcadas pela estética e intervenções social e política, tentando abanar consciências antes e depois do 25 de Abril. Homem profundamente comprometido com a vida e o Outro, defendia o Teatro (do qual foi um dos dramaturgos mais prolíficos e dos
mais representados) como devendo estar ”ao lado do povo e contra aqueles que querem fazer dele um capacho”.

Imbuído “duma raiva” que lhe apossava a alma contra injustiças, expressou-se com liberdade íntrinseca contra aquelas, sobretudo “pela palavra”. Causídico – “D. Quixote de causa perdidas e muitas ganhas!” – e escritor corajoso de
militância à esquerda (MDP/CDE e PCP) e de compromisso, num tempo de mentalidade conservadora e num regime de ditadura, de censura, de medo, de atavismo, granjeou muitas hostilidades e incompreensões, que jamais o demoveram. Mas gerou também respeito geral pelo carácter, pela atitude, pela coragem.

Como advogado, ficou conhecido na defesa tenaz de pequenos e médios agricultores e pela questão da comparte de baldios, assunto sobre o qual aprofundou conhecimento, informação, pareceres, defesa e prospecção de leis. Numa carrreira brilhante de 53 anos como advogado e na sua profissão, foi agraciado em vida com a Medalha de Mérito da Ordem dos Advogados,
altura dum discurso brilhante.

Como dramaturgo tem um curriculum extenso de obras, o qual foi já objecto de teses de mestrado e de doutoramento. Trabalhou igualmente como encenador e, na última fase da sua vida, dedicou-se à narrativa romanceada, âmbito em que publicou uma série de obras, contexto em que se poderá inserir “Os Tendeiros”, apesar da sua concepção ser bem anterior às obras que escreveu e editou naquele referente, no virar do século.

O livro em causa é a sinopse duma saga familiar rural, extensa no tempo e concebida para ser relativa aos anos que vão de 1877 a 1985. Acabou, assim, por constituir uma obra/resumo/guião respeitante aos primeiros capítulos da ideia inicial, literariamente ambiciosos (ou melhor, sonhadores…) deixados inacabados por Jaime Gralheiro, numa época em que não havia escola de guionismo e em que o projecto acabou por cair, não se sabe exactamente porquê, quanto ao projecto de vir a constituir uma produção filmada. A parte agora produzida foi terminada literariamente pelo juíz Marques Vidal, seu amigo de longos anos – que se entranhou de tal forma no estilo do autor, a ponto de não darmos pela mudança.

A sinopse da história da família Gralheiros, porque é desta que o livro realmente trata, é contextualizada na história e nas relações sociais do tempo, eivada de lugares e topónimos que calcorrearemos à medida da leitura e do transporte pelas personagens Florinda, Manuel Tendeiro, Micas Migalhas, Zé André, Padre João e outras secundárias, num estilo bem pessoal, do agora pequeno romance empolgado, opinativo e crítico, com um sabor e um rumor bem portugueses, em que o conhecimento e o humor de causídico também lampejam, cedendo, de vez em quando, à tentação técnica da redação dramatúrgica. Pirilampos poéticos emitem o seu brilho nestas páginas, quase sem se dar conta, num percurso de circunstâncias, dilemas, mentalidades e conjunturas políticas e sociais, que lemos de uma assentada e com muito prazer.

Tudo isto daria, certamente, uma rica telenovela e com o contraponto entre os bons e os maus, os ricos e os pobres, dos quais se alimenta o género, mas aqui genuinamente lusos, não contaminados por algumas periferias culturais ou doutro jaez. Antes com muita mais qualidade, pedagogia, conhecimento, estilo e equilíbrios de ritmo entre drama e humor, os quais alimentam o género, que aqui seriam dados à luz por um mestre genuíno de dramaturgia.

“Studii”, exposição de trabalhos fotográficos de Teresa Soares, professora reformada da Universidade de Aveiro, não é um produto em 16 obras de um projecto fotográfico específico, com tema aglutinador. É um projecto geral – “estudos” como o nome indica.

Um produto sem complicações conceptuais, gráficas ou de edição, que possam retirar, (como muitas vezes acontece hoje em fotografia) o gosto e a compreensão nos receptores. São fotografias conscientes e podadas, porque a fotografia é também um acto de consciência de realidades aparentemente simples e agora performatizadas, que devem ser aparentemente simplificados, em momentos que se fixaram concretamente nas telas expostas.

Cada uma destas será lida como cada um entender, com inteira liberdade, da mesma forma como a autora as realizou e assumiu. Têm como propósito o respectivo entendimento rápido, fruto duma época que vivemos, profundamente marcada pela “cultura imediata”, apanágio dos tempos da web, até dos telemóveis (algumas das fotografias foram realizafdas com estes), sem desrealizações complexas dum mundo já de si complexo. De maneira a que se possa dizer:” eu gosto” ou “eu não gosto”, sem mais e sem que tal obste a exercícios ulteriores de método, ideias ou técnicas que as pessoas possam e queiram (ou achem que vale a pena) vir a fazer.

Pretendem o essencial e uma certa depuração, objectivados e perpassados pelo pessoal e pelo social das respirações individuais ou comuns, plasmadas em algumas situações mais insólitas/curiosas, que vão dos grasnares dos animais até à candura infantil , à inocência, à cerimónia, ao sagrado, à nostalgia, ao intimismo das pessoas e de lugares , à cultura na rua, de acaso ou elaborada. Seguem um ritmo e um estilo próprios da autora e estarão presentes na Galeria de “A Cooperativa” de 2 a 15 de Novembro.

Teresa Soares

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