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O “Hino da Anistia”

por Antonio Sousa

“Ela ficou chorando o tempo

 todo. Talvez tenha antevisto 

a importância que teria essa 

música, coisa que não percebi”. 

É o que conta Henfil sobre a 

primeira vez que ouviu a fita 

cassete com O bêbado e a 

equilibrista, a convite de Elis 

Regina. Pouco tempo depois, 

a canção de João Bosco e 

Aldir Blanc se tornaria o maior 

sucesso do disco Essa mulher, 

de 1979, e ganharia o apelido 

de “Hino da Anistia”.  *

Depois de pronta, Elis chamou novamente o cartunista para lhe mostrar o resultado. “Quando acabou a música, percebi que a anistia ia sair”, revelou em depoimento registrado na biografia da cantora. A canção que pedia “a volta do irmão do Henfil” (o sociólogo e ativista Hebert José de Sousa, o Betinho, a essa altura exilado no México) começava a mobilizar mais gente para a causa. Os comícios que reuniam 500 pessoas, segundo Henfil, passaram a contar com 5 mil.

– Liguei para Betinho e disse: agora temos um hino, e quem tem um hino faz uma revolução.

Além de classificar a composição como o casamento perfeito da dupla João e Aldir, Elis acreditava que a canção era o retrato do Brasil de então.“Grande parcela da população anseia encontrar um Carlitos desses e sonha não ver mais nem Marias nem Clarices chorando”, defendia ao citar versos do samba que podem fazer referência a Clarisse Herzog, mulher do jornalista Vladimir Herzog, morto por maus-tratos nas dependências do DOI-Codi em 1975.

Embora tenha se tornado um marco do momento político brasileiro, O bêbado e a equilibrista nasceu para homenagear Charles Chaplin, que havia morrido dois anos antes do lançamento, em 1977. Em entrevista à Associação Brasileira de Imprensa concedida em 2007, o letrista Aldir Blanc relembrou a história:

– Quando o Chaplin morreu, o João me chamou na casa dele e disse que havia feito um samba, cuja harmonia tinha passagens melódicas parecidas com “Smile” (do filme “Tempos modernos”), propositalmente construídas para que homenageássemos o cineasta. Só que, casualmente, encontrei o Henfil e o Chico Mário, que só falavam do mano que estava no exílio. O papo me deu um estalo. Cheguei em casa, liguei para o João e sugeri que criássemos um personagem chapliniano, que, no fundo, deplorasse a condição dos exilados. Não era a idéia original, mas ele não criou caso e disse: “Manda bala, o problema é seu.”

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco
Louco
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

* Com informações da biografia Furacão Elis, de Regina Echeverria (Editora Globo, 1998)

  •  A Lei da Anistia, no Brasil denominação popular dada à lei n° 6.683,[1] sancionada pelo predidente João Batista Figueiredo a 28 de agosto de 1979 em consequência de uma forte mobilização social durante a ditadura militar 

Na redação original dada pelo Projeto de lei n° 14 de 1979-CN,[2] dizia-se o seguinte:

Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares e outros diplomas legais.

Embora esta tenha sido a redação original, o trecho final onde se lê “e outros diplomas legais” foi vetado por orientação do então predidente acima citado numa mensagem apresentada à sessão conjunta do congresso nacional em 22 de agosto de 1979.

A ditadura militar de 1964, instaurada no Brasil após a deposição do presidente João Goulart aumentou o seu poder depois de 1968  com a promulgação do Ato Institucional n.5 o AI-5  que permitiu ao Poder Executivo decretar  a dissolução do Congresso 

Na principio dos anos 70 nasceu o Movimento Feminino pela Anistia, e no Rio de Janeiro, em 1978 nasceu o Comitê Brasileiro pela Anistia, congregando várias entidades da sociedade civil, com sede na Associsção Brasileira da Imprensa e a luta pela anistia aos presos e perseguidos políticos reforçou-se com o apoio de  estudantes, jornalistas e políticos de oposição e assim Brasil dentro e fora dele formaram-se comitês que reuniam filhos, mães, esposas e amigos de presos políticos para defender uma anistia ampla, geral e irrestrita a todos os brasileiros e

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