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Esquerda viva: os movimentos sociais e a luta pela democracia no Brasil

por Carolina Rodrigues

No Brasil, diante de um quadro de dificuldades constantes pelo fortalecimento do ultraconservadorismo e crescente onda de retrocessos, a esquerda vem se articulando como pode na tentativa de reafirmar seus valores e impedir o crescimento da extrema-direita.

Nesse sentido, a criação de coletivos, frentes antifascistas e frentes amplas e democráticas vem se mostrando uma alternativa de resistência e oposição ao atual governo.

Compondo a seara dos movimentos sociais, cresceram também o ativismo virtual e os coletivos descentralizados em defesa dos direitos da população negra, das mulheres, da população LGBTQI, cuja principal característica tem sido o uso das novas tecnologias de informação e das mídias sociais (facebook, twitter, instagram, whatsapp) como formas de comunicação, articulação e divulgação dos movimentos.

Historicamente, os movimentos sociais misturam-se à própria constituição do Brasil assumindo papéis diversos ao longo do tempo. Movimentos reivindicatórios, movimentos de classe, movimentos de resistência entre outros configuram a trajetória de luta da sociedade civil em defesa de direitos e como forma de acesso ao poder estatal. Foi nas décadas de 1970 e 1980, no entanto, que os movimentos sociais se configuraram como ferramentas indispensáveis na luta pela democracia. O surgimento de organizações operárias de oposição às direções sindicais constituídas durante a ditadura foi um importante passo na transição política brasileira.

A criação, em 1980, de um partido de caráter classista, o Partido dos Trabalhadores (PT), articula-se a esse movimento. Com seu projeto democrático-participativo, o PT estabeleceu um importante horizonte de luta para os movimentos sindicais e demais movimentos sociais a partir daquele momento.

Nessa esteira, a ascensão do Partido dos Trabalhadores e partidos aliados aos executivos municipais e estaduais significou também a inserção das lideranças dos movimentos sociais aos órgãos estatais e nos espaços institucionais de participação popular (conselhos gestores de políticas públicas e orçamentos participativos), o que resultou no apaziguamento dos conflitos de classe.

Talvez por isso, o golpe sofrido pelo PT e a consequente ascensão da direita tenha significado uma fragmentação da esquerda e dos movimentos de esquerda. A rearticulação desses movimentos, portanto, dá-se a partir da luta antifascista e pela manutenção da democracia presentes em pautas como o “Lula livre”, mas, também, em meio a um ideal de construção de espaços e formas de sociabilidade em que diferentes ideias, posições e projetos societários possam ser expressos.

De certa forma, o advento das redes sociais fez aumentar a capilaridade dos movimentos, que alargaram seu alcance e suas demandas, o que facilitou a articulação de redes, fóruns, frentes e coletivos cada vez mais plurais e com cada vez maior alcance.

Desse percurso tem partido as maiores mobilizações populares contra o governo e em defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores, dos estudantes e dos grupos afetados pela intensificação das políticas nefastas do governo Bolsonaro. Organizações de todo país como CUT, Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), União Nacional dos Estudantes (UNE), Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, Levante Popular da Juventude e coletivos diversos estiveram à frente dos mais diversos atos que tomaram as ruas do país desde as eleições.

A união entre movimentos populares, centrais sindicais e partidos políticos, nesse sentido, tem se tornado imprescindível como mecanismo de resistência e oposição, trazendo à baila a discussão permanente sobre a situação política do país e as demandas mais urgentes da população.

Além das mobilizações de rua, as organizações também realizam fóruns, congressos, colóquios e palestras que buscam intensificar o debate e articular soluções para os problemas políticos, econômicos, sociais e ambientais, além de propor estratégias de mobilização para o fortalecimento do diálogo entre as bases e os representantes do governo.

Não se restringindo apenas aos centros urbanos, os coletivos e frentes amplas e democráticas vêm expandindo o campo de discussão e transformando a forma de fazer política também no interior do país, em municípios de tendência conservadora e onde o debate político, muitas vezes, se circunscreve aos chamados “currais eleitorais”. É o caso da Nossa Frente Regional: coletivo suprapartidário criado na cidade de Cordeiro, município localizado no interior do estado do Rio de Janeiro, e que tem por objetivo a integração regional e a defesa da democracia e do Estado Democrático de Direito. A Nossa Frente Regional, assim como tantos outros coletivos nascidos no interior do Brasil em meio ao vórtice político em que se encontra o país, vem forjando um novo modo de fazer política, pautado na resistência ao conservadorismo e na luta pela ampliação do campo político, sendo porta-voz daqueles que tiveram suas vozes silenciadas pelo conformismo e pela apatia política.

O que as forças democráticas e populares representadas por esses movimentos demonstram, portanto, é a força da esquerda pela defesa da democracia, pela soberania nacional e pelos direitos dos cidadãos. Respeitando a diversidade e articulando de forma ampla juventude, mulheres, LGBTQI, negros, quilombolas, indígenas, intelectuais, artistas, religiosos, governantes e cidadãos e cidadãs de todos os lugares do país, os coletivos e frentes amplas democráticas tem mobilizado às lutas gerais que atravessam o atual momento político na busca pela profunda transformação do Brasil.

Nas palavras de Renata Neves, presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores da cidade de Cordeiro (RJ) e coordenadora geral da Nossa Frente Regional, “diante do cenário político atual, em que a extrema-direita cria asas e busca ferir nossa democracia, coletivos como a Nossa Frente Regional são instrumentos de participação, debate e luta, sem dúvida, mas podem e devem ser algo ainda maior. A intenção é que sejam fóruns atuantes da sociedade civil para garantir o diálogo com o poder público e a população em geral na construção de políticas públicas e garantias de direitos.

Um bom governante respeita e busca essa construção democrática, pois não há nada melhor para a democracia do que o debate e a construção coletiva.

A política de esquerda, o ideal e a prática progressista é solidária e só tem sucesso se a construção for partilhada. O sol nasceu para todos, criando espaço e mantendo respeito, todos seremos iluminados.”

Por Carolina Rodrigues

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