Home História ‘O ano de 1969’

‘O ano de 1969’

por Mafalda Gomes

O que aconteceu em Portugal em 1969? A crise estudantil de Coimbra, a “Desfolhada” vence o festival da canção, o final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica, a “Pedra Filosofal” é apresentada pela primeira vez no programa Zip Zip, as eleições que fizeram a Ala Liberal entrar no parlamento…  Como estava Portugal em 1969? A guerra colonial durava há oito anos, Salazar caiu da cadeira em 1968, e Marcelo Caetano foi nomeado novo presidente do concelho… A ressaca do Maio de 68, a invasão da Checoslováquia, a morte de Liu Shaoqi… O mundo mudava, e em 1969 Portugal começava a mudar. 

“O ano de 1969”, foi uma conferência organizada pela RTP, no âmbito do programa de celebração dos 50 anos da transferência da Biblioteca Nacional do Convento de São Francisco para o edifício no Campo Grande, realizou-se ontem neste local e foi presidido pelo presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues. Alberto Martins, David Ferreira, Manuel Alegre, Manuel Villaverde Cabral, Maria do Céu Guerra, Mário Campos, juntaram-se numa conversa sobre o ano de 1969 em Portugal. 

Quando a GNR cercou a cidade de Coimbra “os estrangeiros julgavam que estávamos a fazer filmagens de um filme de guerra”, conta Alberto Martins, presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra. Tudo começou na cerimónia de inauguração do edifício de Matemáticas, quando Alberto Martins disse “Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?” A palavra foi-lhe negada, a cerimónia interrompida, e nessa noite foi detido pela PIDE. Os estudantes reuniram-se em frente da sede da PIDE e acabaram por ser brutalmente espancados.  

Os dias seguintes foram tumultuosos, e o Ministério da Educação encerrou a Universidade até à época de exames. Os estudantes cancelaram a “Queima das fitas” e mais tarde votaram a favor da greve aos exames. No dia 2 de junho a cidade foi ocupada pela GNR e por PIDE’S em todos os lugares estratégicos, para dessa forma impedir a mobilização estudantil.  

Nesse ano a Académica de Coimbra, final da taça de Portugal, e demonstrou o seu apoio à luta académica. “O futebol é uma arma política para o bem, e para o mal”, afirma Mário Campos. A final não foi transmitida na RTP, porque temia-se uma manifestação contra o regime. Os estudantes foram proibidos de mostrar de todas as formas que estavam em luto, mas apesar disso levaram as capas aos ombros, e entraram no campo a andar invés da tradicional corrida. Na primeira parte os estudantes levantaram os cartazes e gritaram frases de ordem. A final reflectia a luta política “estado vs estudantes”, e a derrota da Académica foi sentida por todos os que se opunham ao regime, e que naquele dia torciam pela vitória dos estudantes. 

Apesar da “Primeira Marcelista” ter sido meramente ilusória, nesse ano a censura permitiu a publicação de muitas canções que rompiam com os valores conservadores e católicos. David Ferreira conta que em 1969, a Desfolhada, cantada por Simone de Oliveira, vence o Festival da Canção “e a letra diz, quem faz um filho fá-lo por gosto”. Nesse ano, Manuel Freire, Padre Fanhais, cantaram no programa Zip Zip, o primeiro programa de formato ‘talk show’ português apresentado por Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. Manuel Freire interpretou a conhecida música ‘Pedra Filosofal”, que lembra que “eles não sabem que o sonho é uma constante da vida”. Padre Fanhais, representava “a outra igreja, contra o regime”, reflectida na sua música interventiva.

“Só a pátria não se discutia”, diz David Ferreira. A guerra continuava intensa. Morriam muitos portugueses. Metade do orçamento de estado eram despesas militares. E quando havia muito barulho, o estado voltava a agir como no passado. Mas em 1969 perdeu-se o medo, e até à revolução de ’74, muitos continuar a lutar por um país mais livre.

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