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Dormir Bem, Envelhecer Melhor

por Teresa Pedro

Eis o lema proposto para o Dia Mundial do Sono (1), pela Associação Mundial do Sono e de igual modo em Portugal pela Associação Portuguesa do Sono (https://apsono.com), efeméride comemorada no dia 15 de março.

A proposta de reflexão e de alteração de hábitos tão fundamentais para indicadores como, a título de exemplo, a saúde pública, o bem estar ou a felicidade (numa sociedade que não é gerida por um dos inúmeros mitos sobre o sono, o de que o dia deverá ser dividido por três módulos de 8 horas: trabalho, lazer / família e repouso / sono), colidem fortemente com a estrutura social do mundo contemporâneo e organizacional deste e do trabalho em particular, de há décadas a esta parte, acentuando-se gravemente ao invés de existir uma efetiva inversão.

Eis um paradigma que a todos afeta de modo violento dadas as suas implicações, apesar de décadas de alertas da comunidade científica sobre o sono, inicialmente sobretudo no âmbito da neurologia, hoje amplamente consensual em todas as especialidades, acrescendo as áreas profissionais que de algum modo estão associadas ao estudo do cérebro.

(IM) POSSIBILIDADES REAIS

A necessidade humana de pleno equilíbrio entre o tempo dedicado à família, ao trabalho e ao sono, não se compadecem com o mundo do trabalho, pese embora este propague em formações a necessidade desse mesmo equilíbrio, na sua dinâmica interna e ambiente laboral. Contudo, torna-o impeditivo pelas exigências de um bom desempenho profissional erroneamente associado ao tempo presencial, ao número de horas de trabalho acrescido de cargas burocráticas impeditivas, quer de resultados criativos visíveis na produtividade real, quer ainda na vertente emocional do indivíduo.

O ser humano, como gregário que é, tem necessidade de um sentimento de pertença e de uma missão que se coadune com a dos seus pares e com a da organização a que pertence, pelo que, o indivíduo inserido no local de trabalho é congregado no todo da sua organização, sendo que cada um afeta de modo variável, contudo real, o grupo a que pertence. 


Seria pois de todo o interesse, dir-se-ia expetável que, muito além da difusão de formação sobre a temática, os responsáveis pelas organizações, empresas, todos os que à gestão do mundo do trabalho pertencem (legisladores incluídos), considerassem seriamente a implementação de práticas sobejamente comprovadas quanto à sua eficácia a nível mundial, há décadas desde finais do século XX. A título de exemplo, o Japão que disponibilizou pequenas “boxs” para sestas / pausas na década de 90, ou ainda por exemplo, muitas outras medidas como as atualmente implementadas em Silicon Valley.

Não seria de difícil implementação, caso a caso, se se pensar em sustentabilidade no médio e longo prazo, eliminando práticas decisórias para resultados limitados ao lucro imediato.Em Portugal, veja-se entre vários exemplos, o do sobejamente conhecido e visionário Comendador Manuel Rui Nabeiro cuja intervenção de visão global, a todos beneficia e a todos acrescenta vantagens, dado recusar o modelo denominado “7-24”, ou seja, 7 dias e 24 horas de disponibilidade.

Na realidade, existem múltiplas variáveis a considerar. Há que ter em conta as limitações sobre os jovens que entram no mercado de trabalho e não têm outra alternativa que não seja a de adiar sistematicamente a constituição de família, seja ela de que modelo for (o que se repercute há décadas nas taxas de natalidade e respetivas consequências), tal como considerar as limitações acrescidas sobre as mulheres, (que de igual modo adiam a maternidade) e sobretudo as dificuldades acrescidas das que já são mães. 

Numa sociedade fragmentada que perdeu o tão precioso núcleo familiar ou outro de suporte de proximidade, maioritariamente devido à globalização, facilidade e/ou necessidade de mobilidade, a dispersão de todos, o foco individual das necessidades e obrigações, as novas tecnologias facilitadoras de contacto entre as pessoas e as famílias, trazem vantagens e propiciam de igual modo, o afastamento presencial efetivo convertendo as interações a patamares não raras vezes, ao meramente superficial, em que tudo é volátil, logo, não há tempo ou disposição, bastas vezes sequer vontade de enraizar os relacionamentos, criar laços, sejam eles familiares ou outros.


hContornar este paradigma sem que existam mudanças efetivas nas organizações, é pois de difícil concretização se condicionados ao tempo que literalmente se rouba ao repouso e ao sono, sem quaisquer outras alternativas.

No concernente a profissões de elevado desgaste físico e / ou mental, há um agravamento se exercidas por turnos, nomeadamente as das áreas da saúde, aviação, segurança, entre outras. Existem estudos que comprovam que estas profissões com turnos, são altamente gravosas para a saúde, se exercidas após os 45 anos de idade.Importa ainda referir que as profissões que implicam trabalho acrescido em casa, fora do horário laboral e de grande exigência mental (como a profissão docente) estão ainda mais expostas ao problema real de todas as consequências da privação de sono.

Sem pretensões de teorizar, atente-se à pirâmide de Abraham Maslow (que representa o esquema das necessidades ou motivações humanas em pirâmide, hierarquizando-as segundo a urgência e a prioridade humanas), sobre as necessidades, sendo que na base dos quatro níveis, constam as necessidades fisiológicas, seguindo-se-lhes nos restantes escalões, a necessidade de segurançao amor e necessidade de pertença e por fim, no topo, a necessidade de reconhecimento

Uma vez que as necessidades fisiológicas, de segurança, de pertença num mundo em mutação acelerada, altamente competitivo, imerso em desigualdades sociais e convulsões fomentadoras do medo, instabilidades a todos os níveis, o sono será sempre sacrificado, enquanto as necessidades básicas não estiverem colmatadas. 

As necessidades do topo, como a motivação intrínseca, realização individual, sentido de missão, objetivo de vida, serão uma utopia, quando grande parte da população mundial vive condicionada aos fatores já mencionados ou abaixo do limiar de pobreza (2). 

CONSIDERAÇÕES SOBRE O SONO

Atualmente existe amplo interesse generalizado sobre as questões relacionadas com o sono e alguma informação, alguma porém, que urge desmistificar.

A Dr.ª Teresa Paiva, neurologista e especialista em doenças do sono, de renome mundial por ter apresentado em finais do século XX o primeiro mestrado do mundo sobre o sono, é uma figura incontornável pelo papel que há décadas desempenha sobre esta temática. 

Quem a tem acompanhado através dos vários canais de comunicação, reconhecerá a sua clareza e objetividade na abordagem do sono, com o devido realismo entre as possibilidades e as incompatibilidades que a sociedade impõe, paradoxalmente, quando comprovadamente existem vantagens em proceder a mudanças nas organizações e mentalidades.

Uma das evidências cientificamente comprovadas, incluindo ainda o cruzamento de dados com relatórios da OCDE, é a da correlação entre os índices de felicidade e o do PIB (3), quando as práticas implementadas respeitam o sono, seja através de flexibilidade horária, possibilidade de usufruir de pequenas sestas ou pausas, redução de horas presenciais e ainda pela criação de creches e espaços de fruição facilitadores para a criatividade e bom desempenho produtivo, medidas estas, inseridas no local de trabalho e eventualmente extensivas para além dele considerando as necessidades específicas dos colaboradores.  

Na década de 80 do século passado, viveu-se o culto do trabalho, enquanto identidade individual levada ao extremo. Existem resquícios desses tempos, evidenciados pela necessidade de segurança no trabalho e pela instabilidade crescente, que, como se comprova, atentam contra a saúde publica, a sanidade mental, o desempenho não apenas presencial mas criativo.

Existem indicadores recentes muito preocupantes em relação a Portugal  23% da população portuguesa incluindo as ilhas da Madeira e Açores, sofre de uma das inúmeras doenças desta especialidade, a privação do sono (menos de 5 horas de sono por noite).

As doenças que a privação de sono podem causar são entre outras, o envelhecimento precoce, doença de Alzheimer, problemas de memória e concentração (cognitivos), cancro, tensão arterial alta, acidente vascular cerebral (AVC), enfarte de miocárdio, diabetes, morte prematura.Acresce o elevado risco de acidentes sejam rodoviários, de trabalho, entre outros…

Relativamente aos mitos, muitos estão enraizados na cultura popular, tornando-se quando aplicados, potencialmente gravosos para a saúde. 

Ditados populares como “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”, ou ainda a ideia de que é possível disciplinar perfis de sono através de horários fixos, são enganadores.

Assim sendo, existe um conceito chave para a saúde em geral aplicável ao sono: saber “escutar o corpo”, dado que cada caso é específico, consequentemente, não será adequada uma implementação de hábitos padrão.Saber “escutar o corpo”, significa no caso do sono, identificar o cronotipo individual, dado que o organismo e a vida em geral, são regidos por ciclos que podem ser diferenciados.

O ser humano é maioritariamente madrugador (tem um perfil mais produtivo diurno e maior facilidade em acordar e levantar-se cedo), bem integrado numa sociedade estruturada toda ela para este cronotipo. 

Existe porém um outro, os denominados noctívagos que para além de tudo o que tem vindo a ser mencionado, se sentem menos bem enquadrados na estrutura vigente considerando que a maioria das profissões têm horários fixos durante o dia. 
Numa sociedade que valoriza o perfil madrugador e não considera a especificidade de cada um, agravam-se as situações relacionadas com o sono.Um madrugador não se enquadrará tão facilmente para trabalhar por turnos ou à noite, como um noctívago.Por sua vez para este, por mais que se lhe imponha a disciplina horária para “educar” os seus hábitos, o que significa, para alterar o seu perfil de sono, desengane-se quem o considere outra coisa que não pura violência contra a sua saúde. 

Torna-se importante entender estes casos diferenciados, uma vez que não raras as vezes, os noctívagos são estigmatizados na família, no trabalho e na sociedade em geral, chegando a interiorizar essas mensagens por muito subtis que sejam, como sendo eles que são incapazes de se adaptar por eventualmente, para além do estigma , serem ainda vítimas de moobing (4).

Eis o mito de que existe um único perfil de sono, logo, a sua “reeducação disciplinada”, tornará “normal” os seus hábitos considerados desorganizados na gestão de tempo, reveladores de preguiça matinal, entre outros…Esclareça-se portanto que quem é madrugador ou noctívago, sê-lo-à sempre e é imperioso que esse facto seja respeitado para bem da saúde de qualquer um dos perfis.

Embalemos pois os finais de dia com regras essas, comuns a todos e amplamente conhecidas, como o evitar estímulos diversos antes de deitar, preparar a noite com serenidade e abrandamento de atividade e sobretudo, na eventualidade de acordar durante a noite, evitar pensar sobre esse ou outros assuntos, respirar profunda e prolongadamente para retomar o sono… Não acordar de noite, com ou sem memorização consciente do mesmo, é normal… outro desmistificar para sonos reparadores na diversidade.

Foto de destaque: aenimation on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

Teresa Pedro

_____Notas:

(1) worldsleepday.org

(2) Sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.
(3) Exemplo entre Portugal e Espanha, muito distanciados quanto aos indicadores de felicidade e o PIB, em que Espanha é muito mais feliz, tem mais expetativas de vida e maior PIB, o que é relevante, dado serem países vizinhos com clima e alimentação (mediterrânea) muito semelhantes.
(4) O mesmo que bullying, especificamente em contexto laboral.

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