Home África EKUS do meu Canto – Crónica de Fernando Heitor, Angola

EKUS do meu Canto – Crónica de Fernando Heitor, Angola

por Joffre Justino

O drama dos media privados em Angola. O que fazer  ? 

Não posso nem devo, em consciência, deixar de meter minha foice nesta seara. 

Da liberdade de imprensa e dos órgãos de comunicação social em Angola . 

Desde muito cedo, em 1976, ainda no tempo do   Regime Monopartidário Comunista de Angola, que nunca me deixei ficar “ surdo, mudo e cego “ .  Sempre pugnei pela intervenção livre para fazer passar meus pontos de vista técnicos, profissionais e sócio-culturais, quer no local de trabalho ou em tertúlias na União de Escritores ( Makas ás Quartas feiras), bem como em Palestras realizadas em instituições públicas e na comunidade. 

Naquela época ditatorial, apenas me coibia de emitir opiniões e intervir em questões político- partidárias, por razões de sobrevivência. Afinal não era militante do Partido Estado, este mesmo que até hoje, continua a dirigir os destinos de Angola e em grande medida a negar melhor qualidade de vida aos angolanos !  

Mas a partir de 1992, com o surgimento do multipartidarismo e das Eleições legislativas, entrei acesamente nos debates políticos e participei nas primeiras eleições realizadas em Angola, tendo sido eleito Deputado pelo círculo de Luanda. Assumi desta forma,  plena e legalmente a minha liberdade de expressão e de Intervenção político -partidária na vida nacional do meu País .  

Fui Deputado  desde então, excepto no mandato eleitoral anterior ao de 2012/ 2017 . Depois disso abandonei a política activa e optei pelo Apartidarismo ! 

Acompanhei, participei e apoiei a luta pela liberdade de imprensa em Angola. Fui Cronista no “ polêmico “ Folha 8, com “ Verdades que Doem”.  Dei várias entrevistas e escrevi artigos de Opinião no Angolense de Graça Campos e no Semanário Angolense tendo depois aceite o convite de Raul Aleixo, em publicar no seu Semanário Agora, as minhas Cronicas “ Do Alto da Tribuna “ 

Não foram nada anos fáceis. Vivemos momentos inolvidáveis emocionantes e empolgantes de Luta pela liberdade de expressão  plural, patriótica, pedagógica , na diferença ! Tal como hoje, pugnávamos  pela crítica construtiva, resiliente, defendendo virtudes democráticas, nacionalistas sem chauvinismos, desmontando argumentos assentes em utopias, populismos de extrema esquerda de que o Partido no poder era mestre, useiro e vezeiro ! 

Os anos foram passando até que de repente surge o tsunami que “ varreu “ de Angola, a quase totalidade da imprensa privada angolana.  Só o Semanário Folha 8 do renomado jornalista “ Willian Tonet” e talvez uma ou duas  revistas, conseguiram sobreviver à essa arrasadora tempestade de fusões e falências . 

A partir dessa época ( 2003 em diante ) surge em força, um novo modelo de comunicação social privada em Angola, com empresas fortes e modernas, dentre as quais a Média Nova e q de uma só assentada se implantou no mercado, com um Canal de TV ( a Zimbo ), 4 antenas  de rádio provínciais ( em Luanda, Benguela, Huia e Huambo) e um Jornal diário a fazer concorrência pela primeira vez, ao Omnipresente Jornal de Angola, dominado pelo Estado/ Governo.  

A maioria de nós , só anos mais tarde se apercebeu que esse revolucionário e surpreendente investimento pertencia aos  generais Kopelipa, Dino e o então Vice PR Vicente !  

Porquê Desconfiar  como eles haviam conseguido tantos milhões de dólares para fazer este investimento?  Se todos  sabíamos que se estava na Era da acumulação primitiva do capital de que beneficiavam apenas os dirigentes e afilhados do Partido no Poder ! 

Todos sabemos que estes compatriotas nunca herdarem de seus pais nem avós, recursos financeiros para fazer investimentos de tão grande  monta! Era óbvio que só podia ter sido pela via do erário público de que se “ locupletavam “ tal como muitos outros, de forma politicamente consentida pelo Regime Eduardista de então. 

Mas como diz a sabedoria popular “ Há males que vêm para bem “.  Após estes investimentos, a qualidade da comunicação social em Angola, melhorou substancialmente . Os programas televisivos passaram a ser mais dinâmicos, informativos, inclusivos e formativos  e culturalmente  mais nacionais; a rádio com debates e entrevistas mais interactivas, mais plurais, contraditórias e os jornais ( privados ) com artigos de opinião mais oportunos, investigativos, diversos e controversos . 

Essa nova ERA ( Mediavona) … sejamos sinceros, trouxe modernidade, aumentou a liberdade na imprensa, a coragem interventiva dos cidadãos, o orgulho de ser diferente e reforçou a nossa cidadania. A TPA, RNA e Jornal de Angola, dominados pelo Partido no Poder, estavam obsoletas, com baixo nível informativo e formativo e ainda por cima manchadas por escândalos de má gestão e corrupção ! 

Restava-nos a Rádio LAC, Eclésia, Despertar e pouco mais !  A Média Nova veio de facto trazer um ar novo mais saudável e revigorador á comunicação social ! E AGORA, com o confisco do seu patrimônio o que irá acontecer ? 

A captura dos activos desta empresa pelo Estado, que não questionamos pela sua legalidade, poderá ser um retrocesso na qualidade da comunicação social e do nível de liberdade de expressão, que temos hoje em Angola, se e só se, em minha opinião vier a acontecer o seguinte :- 1.- Forem despedidos  ou Sub-aproveitados os bons quadros tecnicos incluindo jornalistas, que a Media Nova e TVZimbo, têm  neste momento. 

2.- For alterada a sua Linha editorial moderna, dinâmica e interactiva quer no jornal, nas antenas de rádio e principalmente na Televisão. 

3.- For criado um ambiente de trabalho pouco motivador, retrógrado e de desconfiança entre os quadros da actual administração privada e os da Administração estatal que será brevemente nomeada . Isso em Angola, quase sempre acontece. 

Os que são nomeados, geralmente  pensam que eles é que são os “ iluminados “, os melhores ! E os anteriores quadros, não sabem nada e por isso tudo tem de ser mudado e infelizmente, quase sempre é para pior !  

É preciso pois, evitar que o capital humano actual e suas mais valias e muitos progressos técnicos já alcançados, se percam na euforia, ganancias e vaidades habituais que as nomeações e exonerações de corpos sociais, sempre provocam ! Evitem também nomear muitos administradores e consultores. 

Contem com a “ prata da casa “! 

Essas empresas precisam e podem ser rentabilizadas e não permitam que elas vivam totalmente ou quase, as custas do OGE, tal como já acontece com as velhas  TPA, RNA e JA, hoje por hoje todas em estado de falência técnica.  

É preciso ainda que em pouco tempo seja equacionada a privatização dessas empresas a preço justo de mercado, para que o Estado se liberte do peso da sua gestão que certamente não será rentável. 

A não ser que se opte por uma gestão privada numa parceria público privada em que o Estado detenha apenas a propriedade dos meios de produção deixando totalmente a gestão para empresa privada  de reconhecida competência técnica . 

É o que Eu desejo e espero venha  a acontecer num próximo futuro. Caso contrário,  retornaremos aos tempos ortodoxos do Partido único. Da Omnipresença e Omnipotencia da propaganda política do Governo ( e seu partido ). Da omissão e descriminação da opinião contraditória . 

Do sensacionalismo aos factos negativos atribuídos aos adversários políticos e da exaltação dos actos positivos dos governantes e dirigentes politicos, idolatrados em campanhas repetitivas de “ intoxicação “ política. 

Já vivemos toda essa época medíocre e reacionária em Angola de muita censura e discriminação e falta de liberdade de expressão. Não voltemos mais atrás nem estagnemos, na construção das liberdades, direitos e garantias, neste período pós independência de Angola . 

É preciso saber seguir em frente na construção plena do Estado Democratico de Direito. Caso contrário a história não perdoará os actuais timoneiros de Angola. 

Daqui deste meu Kantu, reconheço que estou  apreensivo, mas continuo acreditando que haverá bom senso do Governo na gestão racional e desapaixonada das empresas afectas ao Grupo Média Nova / TVZimbo, cujos bons serviços temos desfrutado e admirado bastante!. Haja Sucessos nesta transição . 

Boa sorte a todos ! 

Fernando Heitor / Luanda, 31/7/20

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