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Mamadou Ba, Luther King e a luta anti racista

por Joffre Justino

“Sobre a violência policial, que um gajo tenha de aguentar a bosta da bófia e da facho esfera é uma coisa é natural, agora levar com sermões idiotas de pseudo radicais iluminados é já um tanto cansativo, carago… Há malta que não percebe que a sua crença ideológica num outro modelo de sociedade, muitas vezes assente no privilégio doutrinário e não só, não salva quem todos os dias é violentado com o racismo. Portanto, fica o aviso que por estas bandas, não pastarão”, acrescentou o também membro da associação SOS Racismo, na segunda-feira, Mamadou Ba.

“Nós temos que combinar a dureza da serpente com a suavidade da pomba, uma mente dura e um coração tenro.” ,“Mesmo as noites completamente sem estrelas, podem anunciar a aurora de uma grande realização.“
– Martin Luther King


1. Portugal foi, goste-se ou não, um dos dois percursores do primeiro processo intercontinental da 1ª Globalização, gerando no mesmo uma multiculturalidade, no que ela tem de bom e mau, baseada no Saber e na Forma de Estar da época, (seculos XV e XVI) e centrada numa única tecnologia especificamente sua, a forma de navegação, estando por isso na raiz do Mercantilismo global e numa ideologia a expressa pelo cristianismo vaticanista de onde nunca quis sair ao contrário da experiencia por exemplo inglesa.

Tal Multiculturalidade foi conduzida em processos complexos de Escravatura que se realizou com alianças com as elites que disponibilizavam esses Escravos e em negócios feitos em lógica de dependência gerando mestiçagens que co – participaram nos mesmos negócios mas subordinados às elites lusas que entretanto se miscigenaram com essas elites mas sempre alimentando Culturas de Dominador versus Dominado que ainda hoje tem clara expressão na Cultura racista portuguesa e brasileira, (que justifica parte da vitoria bolsonarista em rejeição da visão miscegenizadora de Lula e Dilma) mas também pelo menos de parte da elite mestiça angolana face ao Negro, bem visível nas várias guerras civis desde o 25 de abril de 1974 e até 2002.

A visão imperial que em Portugal se manteve, institucionalmente, até ao 25 de abril  e Culturalmente até hoje, levou a visões especificas, estranhamente positivas, até nos meios oposicionistas ao Fascismo, como podemos ver nesta citação do Jornal oposicionista Republica (citado em o Observador) onde se pode ler, que a América, pese embora seja uma “maré alta de civilização”, é palco de “vivas demonstrações de discriminação racial”, que contrastam com o “verdadeiro exemplo” português:

“Vai em cinco séculos que Portugal engloba na sua população uma grande percentagem de negros. Pois portugueses brancos e pretos, do Continente e do Ultramar estreitaram-se nos laços da mais compreensiva comunidade.”, ao ponto de o  República assumir como positivo o que já tinha sido denunciado por um homem na altura do regime salazarento, Henrique Galvão, capitão do exército em relatório para as Nações Unidas que deixou o regime descalço nos debates em volta da Descolonização das velhas colónias europeias que se desenrolavam na ONU.

Na época como sabemos os EUA eram atravessados por uma vaga de combate pelos Direitos Humanos dos Negros liderada por homens como Martin Luther King e Malcom X (ambos assassinados) e de novo recordando o Observador e a Republica vemos como a problemática do Racismo era tratada mas como se Portugal vivesse um mundo maravilha nessa matéria, e onde os EUA deveriam beber as soluções adequadas, e citamos “As autoridades federais receiam as consequências das atividades de elementos irresponsáveis de organizações extremistas como, por exemplo, dos “muçulmanos negros” (adversários irredutíveis de tudo quanto é branco) e dos neo – nazis.”

Retomando de novo a investigação do Observador podemos referir uma entrevista a Luther King onde ele, talvez por delicadeza) diz que gostaria de visitar Angola e Moçambique o que entusiasmou a TAP ao ponto desta  propor ao Governo oferecer passagens aéreas ao líder do movimento dos direitos civis norte-americano, como contou o jornal Público recentemente. A resposta do regime, contudo, seria clara: “não se nos afigura haver vantagem em convidá-lo”, escreve o diretor dos serviços de informação do ministério dos Negócios Estrangeiros, em resposta à proposta. “O sr. Luther King não é pessoa que, mesmo nos Estados Unidos, goze de crédito geral.”

Luther King que em 1959, chegou a trocar cartas com uma ativista angolana, Deolinda Rodrigues, então  exilada no Brasil e ponderava regressar a Angola, mas temia ser presa e debatia-se sobre se deveria colaborar ou não com as autoridades portuguesas e denunciar os seus colegas ativistas soube esclarecer a Jovem, “Temos de perceber que na luta pela liberdade e pela independência tem de haver sempre uma disponibilidade para o sacrifício e para o sofrimento. Tens de decidir se voltares para a prisão ajudará de alguma forma a acelerar a causa da independência do teu país”, escreveu-lhe Martin Luther King, que a aconselhou a não denunciar colegas, para que eles tivessem a oportunidade de serem eles a tomar a decisão de se entregarem. “Espero que tudo corra pelo melhor para o teu país e tens as minhas orações e os meus melhores desejos”.

Que tem o escrito acima a ver com a Revolta dos Miúdos nascida da Revolta resultante da violência policial no Bairro da Jamaica?

Simples, estamos em 2019, o Império português esvaiu-se mas as relações com as ex-colónias continuaram, depois de uma década de mútuo afastamento, mantendo-se no entanto o relacionamento cultural assumido autonomamente por essas mesmas ex-colónias com a transformação da Língua Portuguesa em Língua oficial de cada uma delas e depois, na sequencia da criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, IILP, da criação da CPLP e, finalmente, com um crescente reforçar das relações comerciais Portugal / Brasil / PALOP e por via de tal da aceitação de um status quo ( nada democrático) inter regimes e do incentivar de processos migratórios com Portugal onde os cidadãos destes países foram e são a mão de obra barata para as atividades menos qualificadas por um lado e, por outro, um dos espaços privilegiados pelas elites dos restantes países da CPLP para a realização de estudos universitários

É neste contexto que vivenciamos uma dupla relação caucasiano / negro em Portugal – na elite e nas classes médias a relação é crescentemente quase natural mas nas camadas sociais de menores rendimentos e formação a relação Dominante / Dominando mantém-se com ghettos específicos, como o Bairro da Jamaica, para onde essas comunidades Negras são empurradas e vemos esta especificidade se olharmos atentamente para os debates nas redes sociais onde alguns Negros até expressam que quem não gosta que “vá para a sua terra” que, portanto, não é Portugal.

Ora o discurso de Mamadou Ba surge descontextualizado destas “versões oficiais” do não racismo português oficial  e a radicalidade dos Miúdos surge ainda mais fora deste não racismo oficial, e na realidade a gerar a expressão publica de um inesperado racismo de quem se escandaliza com quem se revolta por ser mal tratado e explorado no dia a dia.

E surgem os “se não gostam porque estão cá” os “vão para a vossa terra” vindos de muitos dos que foram obrigados participar numa guerra colonial de 13 anos de onde Portugal saiu derrotado por não ter reconhecido a evolução politica das décadas de 50 e de 60 do século XX e do salazarento regime ter recusado uma descolonização pacifica feita com tempo e reconhecendo na época as elites que hoje reconhece, enfim, está a vir ao de cima além da Revolta dos Miúdos Negros a revolta dos derrotados de abril e da guerra colonial.

Convém recordar que com a instabilidade nas ex-colónias portuguesas, com o crescimento desestruturado em Portugal nascido com os “ fundos comunitários”, centrado nas “auto estradas”, na construção civil e em algumas obras de fachada permitiu a importação de mão de obra barata às centenas de milhar em especial de 1988 em diante vinda das ex-colónias e como tal tratada e por tal forçadas a viver como os portugueses viveram na dita Europa em bidonvilles e equivalentes e cá nos bairros pobres desestruturados sem condições humanas de vivencia geradores de ambientes de vida marginalizadores e a terem de convivem  com os ambientes de vida dos “ outros “ nas escolas e a serem pelos “outros” marginalizados pela falta de acesso a ambientes culturais dignificantes e motivadores para a qualificação escolar e profissional, e empurrados para a marginalidade profissional social e cultural.

Mamadou Ba (e não só) faz parte dos que combate esse empurrar para a marginalidade dignificando o direito à luta pelos seus direitos e por o fazer pondo em causa “autoridades” que entendem que a solução é “pô-los na ordem” com autoridade, como surgiu nos primeiros comunicados oficiais da PSP!

Aliás, o que não vimos acontecer nas manifestações agressivas dos coletes amarelos/verdes lusos feitas por uma ultra minoria fascista onde as “autoridades” reagiram no melhor do civismo aconteceu quer no bairro da Jamaica quer nos protestos dos Miúdos (e não só) em Lisboa onde a “autoridade” foi a autoridade da cacetada e da bala de borracha (felizmente só para o ar) e acontece ainda nas redes sociais ao ponto da estruturas diretivas da PSP terem de reagir, como vemos a seguir.

Assim a  PSP garante que realizará  processos disciplinares, aos agentes que escrevam comentários racistas ou incitadores de ódio sobretudo depois do levantamento, feito pelo Polígrafo, de uma imensidão de comentários pejorativos, insultos e até ameaças dirigidos ao assessor do Bloco de Esquerda Mamadou Ba e à deputada bloquista Joana Mortágua, e publicados em páginas de Facebook mesmo entre as seguidas e alimentadas por membros das forças de autoridade.

Por isso, “A PSP promoverá as ações de natureza disciplinar e de comunicação ao Ministério Público, dos comportamentos que sejam comprovadamente praticados pelos seus elementos e que sejam violadores da Lei e dos normativos da PSP”, garantiu fonte oficial da PSP à Sábado tendo ainda dito que  “já denunciou oficialmente estas páginas – através da pagina oficial da PSP – à administração do Facebook, classificando-as de ‘incitadoras ao ódio/violência’ e sugerindo que devem ser “banidas da rede”.

A nossa experiência permite-nos dizer que existe uma PSP de qualidade e democrática onde realçamos a Escola Segura e uma PSP feita de autoritarismo de revanchismo e até de cultura fascista pelo que urge que o governo assuma que não se pode calar perante o que estamos a viver.

Por isso temos reafirmado que existe urgência na realização de diálogos aprofundados entre as associações dos bairros degradados e os elementos da PSP que na área laboram diálogos que deveriam ser acompanhados por mediadores qualificados e capazes de dinamizarem outro tipo de relação com as populações desses bairros, como existe urgência na formação de policias Negros e finalmente que existe a necessidade de impor regras salariais e de melhoria de vida profissional nas profissões onde é evidente a existência de uma claríssima maioria Negra

Joffre Justino

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1 comentário

João 24 Janeiro, 2019 - 1:44

a leitura histórica é assustadoramente parcial…diria mesmo sectária!

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