Imagine-se alguém a caminho do trabalho, a abrir a sua plataforma de música e a encontrar, no topo das preferências, uma canção cuja mensagem é simples: vou demitir-me.

Convenhamos: não é o refrão que uma administração gostaria de ouvir à entrada do escritório.

Mas foi precisamente uma canção sobre deixar o emprego que conquistou os ouvintes sul-coreanos. Soyeon, líder do grupo de K-pop i-dle, levou «I'm Gonna Toesa (feat. Kian84)» ao primeiro lugar do Top 100 da Melon, segundo a agência Yonhap, que registou essa posição na manhã de 21 de setembro de 2026. O tema também liderava então as tabelas em tempo real da Genie, Vibe, Flo e Bugs. «Toesa» significa deixar o emprego. A participação de Kian84, ilustrador e personalidade televisiva, faz-se através de uma narração. 

A música transforma uma decisão tantas vezes carregada de medo numa possibilidade que se pode cantar. E, para alguns ouvintes, parece ter dado palavras a um limite que já tinha sido ultrapassado.

Nos comentários do videoclipe, citados pelo Correio da Manhã, um ouvinte relata ter mudado de trabalho depois de sofrer assédio laboral. Preparava-se para começar no novo emprego, dividido entre o nervosismo e o entusiasmo, e recuperava a referência da canção a um dia romântico. Outro conta que o lançamento coincidiu com o dia em que comunicou à empresa a intenção de sair, descrevendo uma sensação de euforia. 

São testemunhos individuais, publicados na Internet, e não uma amostra representativa dos trabalhadores sul-coreanos. Ainda assim, merecem ser escutados. Quando alguém reconhece numa música a sua própria experiência de sofrimento no trabalho, há ali alguma coisa que não cabe na celebração habitual dos indicadores económicos.

Vejamos esses indicadores.

Em agosto de 2026, a taxa de desemprego sul-coreana foi de 2%, segundo o organismo nacional de estatística. Um valor baixo, que facilmente alimenta a imagem de uma economia onde tudo funciona. 

Mas uma taxa de desemprego não mede o respeito dentro de uma empresa. Não nos diz se alguém vive sob humilhação, se consegue descansar ou se permanece num emprego porque não pode suportar o custo de sair.

E também não descreve, por si só, as dificuldades de quem procura entrar.

Uma notícia do Korea JoongAng Daily, publicada em julho e baseada em dados do serviço estatístico KOSIS, indicava aproximadamente 481 mil desempregados com formação universitária no segundo trimestre de 2026. Era o valor mais elevado para um segundo trimestre desde 2021. Este total inclui diplomados de diferentes idades, não apenas jovens recém-formados. 

A precisão interessa. O problema é suficientemente sério para dispensar exageros.

A preferência empresarial por candidatos com experiência ajuda a perceber o bloqueio. A Reuters documentou, em agosto, a procura de oportunidades no Japão por jovens sul-coreanos, atraídos, entre outros motivos, pela disponibilidade de empresas japonesas para recrutar e formar novos diplomados. 

Exige-se experiência a quem ainda precisa de uma primeira oportunidade. Depois, estranha-se que os jovens percam confiança na promessa de que estudar e esforçar-se será suficiente.

A automação e a inteligência artificial acrescentam outra preocupação. Se uma empresa conseguir executar determinadas tarefas com menos pessoas, poderá reduzir oportunidades de entrada. É um risco que deve ser acompanhado, mas não permite concluir que todo o desemprego dos diplomados resulta da IA.

A OCDE distingue estes efeitos: encontra evidência de menor crescimento de certos empregos associados à IA tradicional na Coreia, sobretudo na indústria, mas não identifica a mesma relação para a IA generativa no período analisado. Sublinha também que automatizar tarefas não equivale necessariamente a eliminar postos de trabalho. 

Convém, pois, não transformar a tecnologia numa explicação que dispense a análise das escolhas empresariais. Quem recebe formação? Quem beneficia dos ganhos de produtividade? Quem suporta a intensificação do trabalho? Quem participa nas decisões?

É aqui que a crítica ao capitalismo ganha substância. Um capitalismo torna-se selvático quando trata o desgaste humano como um custo aceitável e considera dispensável ouvir aqueles de cujo trabalho depende.

Não é necessário negar os progressos sul-coreanos para dizer isto. A OCDE regista uma redução expressiva das horas anuais de trabalho: em 2024, estavam cerca de 7% acima da média da organização, uma distância muito menor do que no passado. Reconhecer essa evolução não obriga a ignorar as desigualdades entre empregos, salários e proteção social, que a própria OCDE identifica. OECD

Perante relações laborais em que se espera obediência, cantar a possibilidade de sair pode ser entendido como uma pequena recusa dessa submissão. Esta é uma leitura política do fenómeno, não uma conclusão estatística sobre toda a sociedade sul-coreana.

Também seria abusivo apresentar Soyeon como porta-voz de um programa anticapitalista. O sucesso de uma música não prova a existência de um movimento organizado. Pode, contudo, abrir uma conversa que algumas chefias prefeririam manter fechada.

Sair é uma decisão individual. Participar exige condições coletivas: poder contestar sem represálias, denunciar abusos, ter representação e influenciar a organização do trabalho. A OCDE recomenda, aliás, reforçar o diálogo social e melhorar a conciliação entre trabalho e vida pessoal. 

Talvez o significado mais incómodo desta canção esteja aí. Há ouvintes que encontram alívio ao imaginar a porta de saída. As empresas deveriam perguntar-se por que razão essa porta parece, para alguns, mais promissora do que o lugar onde passam os seus dias.

Um salário paga trabalho. Não compra o direito de dispor de uma vida inteira.

https://youtu.be/7mDDM0eBWR0