Um ministro deseducando: quando a Educação reprova por falta de responsabilidade

A crise na correção digital dos exames nacionais expôs mais do que uma falha técnica: revelou uma tutela incapaz de assumir politicamente o erro, enquanto alunos, famílias e professores pagam a fatura da desorganização.

Há momentos em que um ministro da Educação deixa de ser apenas gestor de uma pasta e passa a ser examinado pelo país. Fernando Alexandre está, neste momento, sentado nessa carteira. E a prova que tem diante de si não é de escolha múltipla, nem permite resposta vaga, nem admite aquele velho expediente governativo de empurrar a culpa para “problemas informáticos”, “organismos técnicos” ou “ajustes de calendário”. A pergunta é simples: quem responde perante os alunos, as famílias, os professores e as escolas quando o sistema falha?

A resposta, num Estado adulto, deveria ser igualmente simples: responde a tutela. Responde o ministro. Responde o Governo.

Mas o que se tem visto no caso da correção digital dos exames nacionais é uma espécie de pedagogia invertida: em vez de ensinar responsabilidade, o ministro parece praticar a arte menor da desresponsabilização. A escola exige rigor aos alunos, mas o poder político permite-se trapalhadas. A escola penaliza atrasos, erros e falta de preparação, mas a tutela parece querer passar de ano com uma desculpa administrativa mal redigida.

O problema não é menor. A correção dos exames nacionais do ensino secundário passou este ano por um processo digital que implicou a digitalização das provas e posterior distribuição aos professores classificadores. O Jornal Económico noticiou que problemas informáticos atrasaram um processo que deveria ter arrancado plenamente a 23 de junho e culminar com a publicação das notas a 14 de julho, prazo que a tutela acabou por adiar para 17 de julho. A mesma notícia refere denúncias de atrasos, falhas na atribuição de classificadores e situações de professores convocados para corrigir provas de disciplinas que não lecionam.

Quando a avaliação nacional de milhares de estudantes depende de uma plataforma que falha, não estamos perante um detalhe técnico. Estamos perante uma fratura de confiança. E a confiança, na Educação, é tão essencial como o papel do exame, a caneta do aluno ou a imparcialidade do corretor. Sem confiança, o sistema deixa de avaliar conhecimento e passa a avaliar resistência psicológica à incompetência institucional.

O Presidente da República, António José Seguro, já veio dizer que “há um problema” e que este precisa de ser resolvido rapidamente, sublinhando que alunos e famílias não podem sair prejudicados. Disse ainda esperar que a relação de confiança entre os alunos, as famílias e o sistema de avaliação se mantenha intacta. Ora, quando o próprio Presidente sente necessidade de recordar o óbvio, é porque o óbvio já deixou de estar garantido.

E é precisamente aí que reside a gravidade política do caso. Não basta dizer que se está “a resolver”. Não basta abrir portas a jornalistas, anunciar manutenção de plataforma de madrugada ou garantir que tudo estará pronto dentro de novos prazos. O país não precisa de encenações de controlo. Precisa de responsabilidade, transparência e reparação.

Mais de 6.400 pais e encarregados de educação assinaram uma petição a pedir a anulação dos Exames Nacionais 2026, alegando que os alunos não podem ser prejudicados por problemas técnicos alheios ao seu desempenho escolar. Pode discutir-se se a anulação é ou não a solução adequada. O que já não se pode discutir é a dimensão da inquietação instalada. Quando milhares de famílias sentem que o sistema pode comprometer o futuro académico dos seus filhos, o ministro não pode responder como se estivesse perante uma atualização de software mal sucedida.

O PCP foi incisivo ao exigir que Fernando Alexandre assuma responsabilidades políticas. Num comunicado, os comunistas acusam o ministro de se esconder atrás de outros organismos e defendem que a situação põe em causa a credibilidade dos resultados dos exames nacionais e a confiança num processo decisivo para milhares de estudantes. Paulo Raimundo classificou ainda o caso como uma “bronca descomunal” e uma “gestão calamitosa”, acusando o Governo de “sacudir responsabilidades”.

Mais: o PCP desafiou o ministro a comparecer no Parlamento para prestar explicações sobre os problemas na avaliação dos exames nacionais, admitindo avançar para um debate de urgência se essa audição for adiada. É difícil discordar da exigência democrática básica: quem tutela tem de explicar. Quem decide tem de responder. Quem falha tem de corrigir.

A questão de fundo, porém, ultrapassa este episódio. Esta crise é mais uma expressão de uma doença política recorrente: a fragilização do Estado português em nome de uma modernização que muitas vezes chega sem robustez, sem planeamento e sem verdadeira capacidade operacional. Digitalizar não é modernizar se o sistema não funciona. Centralizar processos em plataformas não é inovar se professores ficam sem provas, alunos sem notas e famílias sem segurança.

A obsessão tecnocrática pela “eficiência” tem frequentemente um defeito de origem: esquece as pessoas. Esquece que cada exame representa meses de estudo. Esquece que cada nota pode decidir uma entrada no ensino superior. Esquece que cada atraso mexe com férias, candidaturas, ansiedade, orçamento familiar e saúde emocional. A Educação não é uma folha Excel. É vida concreta.

E quando um Governo dito reformista, privatista ou modernizador não consegue garantir o funcionamento básico de um processo nacional de avaliação, a pergunta impõe-se: que Estado pretende construir? Um Estado mais leve ou simplesmente um Estado mais fraco? Um Estado mais eficiente ou apenas um Estado que transfere responsabilidades quando a máquina engasga?

O ministro da Educação tinha aqui uma oportunidade pedagógica: reconhecer a falha, pedir desculpa sem rodeios, apresentar um plano claro, garantir mecanismos de compensação e assegurar que nenhum aluno, professor ou família seria prejudicado. Em vez disso, a perceção pública tem sido a de um poder que administra a crise por comunicados, manutenções técnicas e explicações parcelares.

É pouco. É pobre. É politicamente insuficiente.

Porque a Educação, quando falha, não falha apenas numa secretaria. Falha no país inteiro. Falha na confiança dos jovens. Falha na autoridade dos professores. Falha na serenidade das famílias. Falha no pacto republicano que diz que o mérito deve ser avaliado com justiça, rigor e igualdade.

Um ministro da Educação não pode deseducar pelo exemplo. Não pode ensinar aos alunos que, quando algo corre mal, a melhor resposta é esconder a mão, diluir a culpa e esperar que o calendário empurre a indignação para as férias. Isso não é liderança. É ausência dela.

Neste exame político, Fernando Alexandre ainda pode tentar a recuperação. Mas para isso terá de fazer o que até agora parece ter evitado: assumir responsabilidades, dar explicações completas, corrigir os danos e garantir que nenhum estudante será sacrificado no altar da incompetência administrativa.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas se a plataforma funcionou. A pergunta é se o Estado ainda sabe proteger aqueles a quem exige tanto.

E, por agora, a nota do ministro está longe de ser positiva.