Estar em situação NEET não significa necessariamente falta de vontade ou recusa em trabalhar. A categoria abrange realidades muito diferentes: jovens que procuram emprego sem sucesso, outros que abandonaram os estudos, pessoas com responsabilidades familiares e também jovens que permanecem afastados das oportunidades por falta de qualificações, orientação, confiança ou de um projeto profissional definido.
As consequências fazem-se sentir igualmente nas famílias. A ausência prolongada de uma ocupação pode aumentar a dependência financeira, a frustração, o stress e os conflitos dentro de casa. A não conclusão do 12.º ano constitui uma barreira adicional, uma vez que limita o acesso a determinados empregos, estágios e percursos de formação.
Na comunidade de Achada Eugénio Lima, na cidade da Praia, a presidente da Associação Comunitária de Achada Eugénio Lima (ACAEL), Ricardina Veiga, defende que é necessário compreender a situação concreta de cada jovem antes de atribuir o problema exclusivamente à falta de oportunidades ou ao desinteresse.
Na sua perspetiva, muitos jovens ainda não conseguiram identificar aquilo que desejam construir para o futuro. A ausência de objetivos, de orientação vocacional e de um projeto de vida pode transformar-se numa barreira interna, dificultando a procura ativa de emprego ou formação.
A ACAEL tem encaminhado jovens para cursos, estágios e outras iniciativas de inserção. Segundo Ricardina Veiga, esta intervenção contribuiu para reduzir o número de jovens que permaneciam durante todo o dia sem ocupação nos espaços públicos da comunidade. Apesar desse progresso, uma parte significativa continua sem procurar apoio ou alternativas.
“Fala-se da falta de oportunidades, mas há oportunidades”, afirma a dirigente associativa, chamando a atenção para a fraca participação em algumas iniciativas promovidas localmente.
A associação disponibiliza instalações, orientação, materiais e equipamentos, incluindo máquinas destinadas à produção de sandálias. Também procura desenvolver ações de curta duração, com uma componente essencialmente prática, por considerar que este formato poderá facilitar o envolvimento dos jovens. Contudo, a adesão permanece abaixo do esperado.
Embora as atividades sejam divulgadas e a associação esteja disponível para apoiar quem procura formação, estágio, carta de condução ou acompanhamento no desenvolvimento de uma ideia de negócio, apenas alguns jovens tomam a iniciativa de contactar a instituição.
O acompanhamento familiar constitui outro elemento importante. Em muitas famílias, os pais passam grande parte do dia fora de casa a trabalhar, nomeadamente no comércio informal, e regressam apenas à noite. Esta realidade reduz o tempo disponível para acompanhar o percurso escolar, emocional e profissional dos filhos.
Para Ricardina Veiga, assegurar apenas as necessidades materiais não é suficiente. Os pais devem manter o diálogo, interessar-se pelos objetivos dos filhos e incentivá-los a procurar uma atividade, uma formação ou uma oportunidade de trabalho, sem desistirem perante as primeiras recusas.
Os dados nacionais e a experiência comunitária mostram, assim, que o fenómeno NEET não pode ser explicado por uma única causa. A resposta exige uma intervenção articulada entre famílias, escolas, centros de formação, empresas, associações comunitárias e instituições públicas.
Mais do que disponibilizar cursos ou anunciar oportunidades, será necessário chegar aos jovens que permanecem afastados das estruturas de apoio, compreender as barreiras que enfrentam e ajudá-los a transformar interesses e aspirações em percursos concretos de qualificação, trabalho e autonomia.
Fontes verificadas: Instituto Nacional de Estatística — “Aspirações dos Jovens Cabo-Verdianos” e reportagem do Expresso das Ilhas, publicada em 23 de agosto de 2026.