O Washington Post afirma não ter conseguido apurar com quem os diplomatas estadunidenses pretendem reunir-se, nem de que forma tentariam questionar um sistema eleitoral historicamente reconhecido como uma referência na América do Sul, capaz de apurar resultados poucas horas após o fecho das urnas.
Diplomatas brasileiros disseram ao jornal estadunidense, na quinta-feira (23/jul), que souberam recentemente do que classificaram como um “estratagema totalmente incompatível com a democracia brasileira” — nas palavras de um deles, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a se manifestar publicamente.
Segundo o Washington Post, esses diplomatas afirmaram que o governo brasileiro vai agir para proteger o sistema de votação e que iria impedir a entrada dos enviados estadunidenses no país.
Os brasileiros ouvidos pelo jornal suspeitam que o objetivo real da missão seja reunir com céticos do sistema eletrônico de votação e produzir um relatório que pretenda deslegitimar as urnas.
O jornal lembra que Samson já produziu, no passado, relatórios do Departamento de Estado sobre direitos humanos que críticos classificaram como enviesados politicamente.
Ao Washington Post, o Departamento de Estado confirmou que Barnes e Samson viajarão a Brasília na semana que vem, mas não respondeu por que motivo, nem se o governo estadunidense tem alguma preocupação concreta com a integridade do processo eleitoral brasileiro.
Nem Barnes nem Samson responderam aos pedidos de comentário.
A missão, segundo o jornal, representa uma escalada em uma disputa já longa entre Estados Unidos e Brasil em torno dos limites da liberdade de expressão e do processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
O Washington Post relembra que, nesta mesma semana, Trump impôs tarifas significativas sobre produtos brasileiros — medida que o presidente Lula da Silva classificou como manobra política para favorecer seu adversário eleitoral, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e aliado de Trump.
Um funcionário senior do próprio Departamento de Estado, também ouvido sob anonimato pelo jornal, comparou a atual missão a um uso indevido do poder diplomático estadunidense para fins ideológicos, contrastando-a com a postura dos Estados Unidos em 2022 — quando o governo estadunidense trabalhou para reforçar a democracia brasileira e evitar uma ruptura institucional, incluindo declarações públicas do então secretário de Defesa Lloyd Austin em defesa do controle civil sobre as Forças Armadas, depois de Jair Bolsonaro afirmar que “o Exército está do nosso lado”.
O Washington Post também menciona que Flávio Bolsonaro, hoje em perda nas pesquisas eleitorais, repetiu nesta semana as alegações do pai em reunião com diplomatas, afirmando que as urnas brasileiras seriam fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic e vulneráveis a fraude — acusação já rebatida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tema que o Urbs Magna já havia coberto em artigos anteriores sobre o encontro do senador com embaixadores.
Especialistas internacionais consultados pelo próprio jornal reforçam a segurança do sistema.
O embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, afirmou ao Washington Post que todas as missões de observação no país desde 2018 concluíram que o sistema eleitoral brasileiro é seguro e confiável.
Já Salvador Romero, especialista latino-americano em eleições que observou pleitos em mais de vinte países, disse ao jornal que “o sistema eleitoral brasileiro é considerado, sem dúvida, um dos mais robustos da América Latina”.
A reportagem do Washington Post expõe uma contradição relevante na política externa de Trump para a região: segundo o próprio jornal, quando o candidato de direita apoiado por Trump venceu a eleição presidencial da Colômbia no mês passado, o governo estadunidense rejeitou publicamente as acusações de fraude feitas pelo presidente derrotado, Gustavo Petro, e chegou a assinar comunicados a condenar qualquer tentativa de deslegitimar o resultado das urnas colombianas.
Sob a ótica deste portal, o mesmo padrão de conduta não se repete quando o resultado eleitoral pode desfavorecer um aliado do próprio Trump, como ocorre agora com Flávio Bolsonaro no Brasil.
Nem o Departamento de Estado nem os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson responderam, até a publicação da reportagem original, sobre o real objetivo da viagem a Brasília.