O Papa não se refugiou nos ridículos argumentos que esta estirpe de historiadores, com h pequeno, vem repetindo ao longo das últimas décadas.

Antes assume com dignidade e clareza que se tratou de um crime e que como todos os crimes exige reparação e expiação.

Não sacode água do capote com os argumentos falaciosos como os usados por João Pedro Marques a propósito de um artigo da revista Sábado sobre os infames Traficantes Portugueses e sobre a forma como essas pessoas amassaram cabedais que ainda hoje colocam os seus descendentes no topo da estreita hierarquia de fortunas do nosso país.

Que dizem estes historiadores, com h pequeno, sobre o tema? João Pedro Marques em texto recente (Observador, 12-Novembro de 2025): “As condutas das pessoas devem ser avaliadas no quadro de conceções, valores e comportamentos correntes tidos como aceitáveis em cada época”. A época a desculpar tudo. Como se a época fosse algo em si mesmo, e não uma construção humana, exatamente erigida por opções políticas e económicas dos que nesse tempo viveram e tiveram o poder para o moldar, naturalmente condicionados pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas e pelas épocas passadas. Antes da ocupação portuguesa do Brasil e europeia da restante América o tráfego transatlântico de pessoas escravizadas não existia. Não foi a época que o criou como por milagre inesperado. Foram pessoas. Pessoas conscientes do que sofrimento que causavam, das vidas que destruíam. Pessoas motivadas pela riqueza que acumulavam. Pessoas poderosas que montaram um sistema económico triangular para seu proveito próprio.

Em contraposição às desculpas insensatas de Marques e companhia, vem o Papa lembrar que, hoje como ontem, “É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas”. E concluiu “Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.

Mais, Marques vem defender os Van Zeller, os Ulrich e outros traficantes com a desculpa de que o faziam legalmente. Como se não fossem eles, os esclavagistas nas várias épocas, primeiro os autores e instigadores das leis e os que, depois já no século XIX, entravaram o processo político da abolição. E separa os traficantes legais dos ilegais (os que persistiram depois de legalizado o trafego). Como se uma ação imoral dependesse da sua legalização. Como se matar passasse a ser aceitável desde que legal. Como se por exemplo a pena de morte nos Estados Unidos, que incide de forma desproporcional sobre os Negros, fosse moral já que é legal.

As posições contra o reconhecimento de crimes passados são verdadeiramente satânicas, no sentido que contribuem para a manutenção de uma injustiça histórica, denegam a Justiça a um grupo social numeroso, defendem a apropriação pelos descendentes do saque, criam e justificam as condições de continuação do sofrimento das comunidades descendentes das pessoas escravizadas. Tudo esta posição não brota dos ensinamentos de Cristo, da Igreja ou do Papa e, consequentemente, só pode advir de inspiração demoníaca.

A Igreja teve um papel muito negativo quer legitimando o esclavagismo, quer dele se aproveitando economicamente, quer comprando e vendendo pessoas escravizadas. O Papa reconhece esses crimes e conclui. “Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.

Por último Marques e amigos recusam as reparações com o argumento de que “não se pode punir e onerar agora os vivos por ações de antepassados”. Mas essa é uma afirmação proferida com a convicção de quem sabe que não é assim. Como se um ladrão pudesse passar o produto do roubo aos herdeiros e estes reclamassem a propriedade legítima dos bens furtados. Quando os nazis roubaram o ouro e outros bens dos judeus alemães não foram os filhos dos nazis, nem o Estado alemão, que ficaram com o produto dos seus crimes, antes o espólio foi devolvido aos judeus vivos e, se mortos, às suas famílias. A passagem das gerações não apaga crimes. Não penaliza os descendentes dos criminosos, mas obriga-os a devolver aos legítimos proprietários o saque que receberam e que não lhes pertence. Reparações foram pagas, e bem, às vítimas e aos seus descendentes. 

O Papa Leão XIV ao proclamar que “Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, vem também assinalar que as instituições, como a Igreja Católica, os Estados, as Empresas, também devem assumir as suas responsabilidades pela sua participação em crimes passados. Note-se que diz expressamente “em nome da Igreja”.

A extrema-direita portuguesa, de que certos historiadores com letra pequena são fervorosos apoiantes e ideólogos, como vimos nas eleições, entra nos templos católicos, ajoelha hipocritamente aos pés do altar e recebe a bênção ao mesmo tempo que proclama orgulhosamente a sua recusa em reconhecer os crimes históricos cometidos e adjura abertamente os ensinamentos do Papa e da Igreja a que diz pertencer. Noutros tempos Jesus expulsaria, a pontapé, esses vendilhões. Hoje, infelizmente, é-lhes estendida uma passadeira vermelha e a hierarquia recebe-os curvada.

Esta encíclica Magnifica Humanitas cuja temática não se limita à análise da Inteligência Artificial (IA) merce ser lida com atenção por crentes e não crentes, mas principalmente pelos que sinceramente acreditam na mensagem do continuador de São Pedro.