A guerra iniciada em Abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e o grupo paramilitar Rapid Support Forces (RSF) transformou-se rapidamente numa guerra prolongada de destruição nacional, limpeza étnica, pilhagem de recursos e ingerência imperialista estrangeira.

Longe da explicação simplista e eurocêntrica que reduz o conflito a um mero “confronto tribal” ou “guerra étnica e religiosa”, a realidade material demonstra que esta guerra está profundamente ligada à disputa pelo controlo do ouro, das rotas comerciais do Mar Vermelho, da posição geoestratégica do Sudão e da sua integração subordinada no sistema capitalista internacional.

A RSF, sucessora política e militar das antigas milícias Janjaweed responsáveis pelos massacres no Darfur, tornou-se instrumento privilegiado da intervenção neocolonial. Entre os seus principais financiadores e apoiantes destacam-se os Emirados Árabes Unidos (EAU), Estado que se apresenta como moderno e desenvolvido, mas cuja função histórica no sistema mundial é a de plataforma regional do imperialismo norte-americano, do capital financeiro global e da normalização sionista com Israel.

Assim, compreender o papel dos EAU no Sudão exige ultrapassar a superfície diplomática e analisar a sua natureza de classe: um Estado rentista, oligárquico e profundamente dependente da protecção militar dos Estados Unidos, que exporta contra-revolução, mercenarismo e pilhagem económica para África e Médio Oriente.

A guerra no Sudão não nasce de ódios ancestrais nem de rivalidades “naturais” entre povos africanos, como frequentemente apresenta a propaganda imperialista. Essa narrativa serve historicamente para despolitizar África e esconder o papel do neocolonialismo.

O conflito atual emerge da crise do Estado sudanês pós-Bashir, da incapacidade da transição liberal após 2019 e da disputa entre dois aparelhos armados que nasceram dentro da própria estrutura do poder burguês-comprador sudanês. De um lado, as SAF, expressão do velho aparelho estatal militar, do outro, a RSF, força paramilitar consolidada através da guerra no Darfur, do mercenarismo regional e do controlo das minas de ouro. A tomada de El Fasher e a intensificação dos massacres em Darfur demonstraram que a guerra entrou numa nova fase genocida. A população civil, especialmente comunidades africanas não árabes como os Masalit, Fur e Zaghawa, tornaram-se alvo sistemático de massacres, violações, deslocações forçadas e fome artificial.

Enquanto milhões morrem de fome, o Sudão continua a exportar ouro em larga escala.

Isto revela a contradição central: não existe escassez natural, mas sim expropriação imperialista.

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) não são apenas um simples “aliado externo” da RSF, mas sim um actor central na reprodução e prolongamento da guerra no Sudão. Apesar de não assumirem a forma clássica do imperialismo europeu do século XIX, desempenham uma função imperialista subordinada, actuando como potência financeira e militar regional ao serviço da reprodução do capital internacional e da estratégia geopolítica dos Estados Unidos da América.

O ouro sudanês tornou-se um elemento central nas redes comerciais ligadas ao Dubai, actualmente um dos principais centros mundiais de refinação e circulação de ouro de origem clandestina. A RSF controla vastas zonas mineiras e a exportação desse ouro alimenta directamente os circuitos financeiros dos EAU. Não se trata apenas de uma relação comercial, mas sim da transformação da guerra num mecanismo permanente de acumulação primitiva, onde a pilhagem dos recursos naturais sustenta tanto o conflito como a expansão do capital.

Paralelamente, os EAU têm financiado e armado forças paramilitares em diversos países africanos e árabes, como a Líbia, o Iémen, o Sudão, a Somália e regiões do Sahel. Exportam a contrarrevolução como política de Estado, promovendo a instabilidade e enfraquecendo projectos de soberania nacional. A RSF tornou-se parte integrante dessa arquitetura de dominação regional. A continuação da guerra interessa aos EAU na medida em que garante o acesso privilegiado a recursos estratégicos, aprofunda a dependência política das elites locais e enfraquece qualquer possibilidade de reconstrução soberana do Estado sudanês.

Neste contexto, os EAU funcionam como uma verdadeira extensão regional da estratégia imperial norte-americana. A sua política externa não é autónoma nem independente, mas profundamente articulada com os interesses dos Estados Unidos, nomeadamente na contenção de potências rivais, no controlo das rotas comerciais do Mar Vermelho e na manutenção de uma ordem reaccionária favorável ao imperialismo na região.

A assinatura dos Acordos de Abraão consolidou a aliança estratégica entre os EAU e Israel. Esta aproximação não representa “paz”, mas sim a formalização de uma frente regional contra qualquer projecto de soberania popular árabe e africana. Israel ganha profundidade diplomática, económica e militar; os EAU ganham legitimidade junto de Washington e maior protecção estratégica.

Esta relação manifesta-se também em África. O apoio dos EAU à fragmentação do Sudão converge com os interesses israelitas de impedir a emergência de Estados fortes e soberanos no corredor do Mar Vermelho e do Nilo. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos mantêm uma posição ambígua: condenam formalmente atrocidades, mas preservam a arquitectura regional que permite a continuação da guerra. A mediação imperial serve frequentemente para gerir a crise, não para a resolver.

Não é coincidência que actores acusados de alimentar o conflito apareçam simultaneamente como mediadores diplomáticos.

Lenine definiu o imperialismo como fase superior do capitalismo, caracterizada pela fusão entre capital bancário e industrial, exportação de capitais, domínio monopolista e disputa pela repartição do mundo. No século XXI, essa lógica mantém-se, embora com novas formas. O imperialismo não atua apenas através de ocupação militar direta, mas através de dívida, privatização, paramilitarismo, controlo logístico e captura de elites locais.

Os EAU representam precisamente esta forma contemporânea: um imperialismo financeiro dependente, articulado com o imperialismo principal norte-americano. No Sudão, isso traduz-se numa economia de guerra em que a riqueza mineral financia massacres, enquanto a população trabalhadora paga com fome, deslocação e morte.

Existe também uma tentativa ideológica particularmente cínica: instrumentalizar o sofrimento sudanês para atacar a causa palestiniana, insinuando que a solidariedade com a Palestina seria incompatível com a denúncia do genocídio no Sudão.

Essa tese é politicamente desonesta!

O principal financiador da RSF é precisamente um dos maiores aliados regionais de Israel: os Emirados Árabes Unidos. O mesmo bloco reacionário que sustenta a ocupação sionista participa também na desestabilização africana.

Defender a Palestina e denunciar o Sudão fazem parte da mesma luta anti-imperialista.

O inimigo estrutural é o mesmo: o capital imperial, o colonialismo e os seus intermediários regionais.

O Sudão não está a ser destruído por fatalismo histórico nem por supostos conflitos inevitáveis entre povos africanos. Está a ser destruído pela combinação entre burguesias locais parasitárias e intervenção imperialista internacional. Os EAU surgem como expressão moderna dessa dominação: um Estado profundamente integrado no sistema imperialista global, financiando guerra, saqueando recursos e consolidando alianças com Washington e Telavive. A tarefa revolucionária exige romper com as ilusões liberal-humanitárias e compreender o conflito em termos de luta de classes internacional. A libertação do Sudão não virá de conferências patrocinadas pelos mesmos actores que alimentam a guerra, mas da organização popular, da soberania nacional e da ruptura com a ordem imperialista.

Como ensina a tradição marxista-leninista, não há emancipação possível sem combate ao imperialismo. E no Sudão, esse combate continua a ser uma questão de sobrevivência histórica.