Todos os meses, milhões de pessoas retiram uma parte do rendimento que conquistaram longe de casa e enviam-na às famílias que ficaram no país de origem.

São transferências que ajudam a pagar alimentos, medicamentos, propinas, rendas, obras numa habitação ou pequenos investimentos familiares. Individualmente, podem parecer movimentos financeiros modestos. Somadas à escala mundial, representam uma das maiores forças económicas produzidas diretamente pelos migrantes.

Em 2025, os migrantes e membros das diásporas enviaram aproximadamente 728,6 mil milhões de dólares para famílias residentes em países de baixo e médio rendimento. O valor representa um crescimento de 94% face a 2016, segundo o novo relatório Sending Money Home 2026, do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, FIDA.

O estudo estima que cerca de 220 milhões de migrantes sustentam, através destas transferências, aproximadamente 1,1 mil milhões de familiares. No total, mais de 1,3 mil milhões de pessoas estão ligadas por estes fluxos — o equivalente a cerca de uma em cada seis pessoas no mundo.

Mais do que uma circulação global de dinheiro, as remessas constituem uma rede de proteção familiar construída além-fronteiras.

Brasil lidera entre os países lusófonos

No conjunto dos países de língua portuguesa, o Brasil surge como o maior destinatário em termos absolutos, tendo recebido mais de 4,75 mil milhões de dólares em 2025.

A dimensão da economia brasileira torna o peso relativo destas transferências inferior ao registado em países mais pequenos. Ainda assim, o volume confirma o Brasil como importante recetor de remessas e como um dos principais polos de migração intrarregional da América do Sul.

A realidade é diferente nas pequenas economias lusófonas, onde o dinheiro enviado pela diáspora representa uma parcela significativa da riqueza nacional.

Em Cabo Verde, as remessas corresponderam a aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto em 2025. Os dados mais recentes disponibilizados pelo Banco Mundial situam esse peso em cerca de 11,7%, confirmando a importância estrutural da diáspora para o rendimento das famílias e para a entrada de divisas no arquipélago.

Em Timor-Leste e na Guiné-Bissau, as remessas representam perto de 10% da economia. Em São Tomé e Príncipe, equivalem a aproximadamente 8% do PIB.

Estes números mostram que, para determinadas economias, a diáspora não constitui apenas uma ligação cultural ou afetiva. É também um dos seus principais pilares económicos.

Quando a diáspora vale quase tanto como as exportações

O peso das remessas torna-se ainda mais evidente quando comparado com o valor das exportações nacionais.

Em Timor-Leste, o dinheiro enviado pelos emigrantes equivale a aproximadamente 96% do valor das exportações do país. Na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe, essa proporção aproxima-se dos 62%.

Significa isto que os migrantes fazem entrar nestas economias um volume de divisas comparável àquele que os países conseguem gerar através da venda de bens e serviços ao exterior.

Ao contrário de um investimento empresarial ou de um programa público, porém, este dinheiro nasce de milhões de decisões individuais.

Resulta do trabalho de quem deixou o seu país, da disciplina de poupar e, muitas vezes, da renúncia pessoal para responder às necessidades de familiares que permanecem em casa.

As remessas não são ajuda pública nem devem ser tratadas como um substituto das políticas de desenvolvimento. Pertencem às famílias que as enviam e recebem. Mas o seu impacto económico e social torna impossível ignorá-las na definição das políticas financeiras, migratórias e de inclusão.

Angola regista forte crescimento, mas enfrenta custos elevados

Angola destaca-se pela aceleração das remessas recebidas. Entre 2016 e 2025, o volume terá aumentado quase 1.200%, segundo os dados apresentados na análise do FIDA.

São Tomé e Príncipe e Moçambique também viram estes fluxos mais do que triplicar durante o mesmo período. Guiné-Bissau e Timor-Leste registaram aumentos superiores a 100%, enquanto Brasil e Cabo Verde mantiveram trajetórias de crescimento próximas dos 60%.

O crescimento, contudo, não significa que o dinheiro atravesse as fronteiras em condições iguais.

Os custos de envio continuam a variar profundamente entre países e corredores migratórios. Nas transferências realizadas através de serviços não bancários para o Brasil ou São Tomé e Príncipe, as taxas médias rondam os 4%. Em determinados corredores associados a Angola, o custo de uma operação pode aproximar-se dos 23%.

Esta diferença significa que uma parcela considerável do esforço financeiro dos migrantes pode ficar retida em comissões antes de chegar à família.

A redução destes encargos é, por isso, uma das prioridades defendidas pelo FIDA. Cada ponto percentual retirado ao custo de uma transferência representa mais rendimento disponível para alimentação, saúde, educação, habitação ou poupança.

Portugal como cruzamento das migrações lusófonas

Portugal ocupa uma posição particular nesta rede.

O país continua ligado a corredores históricos de emigração, designadamente com França e outros destinos europeus, mas tornou-se simultaneamente lugar de acolhimento e ponto de passagem para cidadãos do Brasil, dos países africanos de língua portuguesa e de Timor-Leste.

Esta dupla condição — país de emigrantes e de imigrantes — concede a Portugal uma experiência relevante na relação entre remessas, inclusão financeira e desenvolvimento familiar.

Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, o dinheiro enviado pelos emigrantes portugueses contribuiu para melhorar habitações, financiar estudos, criar poupanças e integrar muitas famílias no sistema bancário formal.

Para Pedro de Vasconcelos, responsável pelo Mecanismo de Financiamento de Remessas do FIDA, essas experiências continuam a oferecer lições aplicáveis ao presente, agora reforçadas por carteiras digitais e outros serviços financeiros.

Uma pessoa que recebe remessas regularmente pode, por exemplo, construir um historial financeiro, criar poupança e, eventualmente, melhorar o acesso ao crédito. A tecnologia permite transformar uma simples transferência numa porta de entrada para serviços financeiros antes inacessíveis.

Um fluxo económico com rosto humano

O relatório do FIDA apresenta valores à escala de centenas de milhares de milhões de dólares. Contudo, a verdadeira dimensão das remessas não se encontra apenas nas estatísticas.

Encontra-se na criança que continua a estudar porque alguém, a milhares de quilómetros, enviou dinheiro para pagar os materiais escolares.

Na família que consegue comprar medicamentos.

Na pequena obra que torna uma casa mais segura.

No jovem que recebe apoio para concluir uma formação.

Ou no pequeno negócio que começa com uma parte do dinheiro poupado por quem trabalha no estrangeiro.

Cada transferência liga dois lugares, mas também duas vidas: a de quem partiu e a de quem ficou.

O desafio para os países lusófonos consiste agora em reduzir os custos, aumentar a transparência, alargar o acesso aos canais digitais e criar instrumentos financeiros que permitam às famílias transformar parte das remessas em poupança, investimento e autonomia.

Porque o dinheiro enviado para casa não representa apenas rendimento.

Representa distância convertida em cuidado, trabalho transformado em oportunidade e saudade transformada em futuro.

https://youtu.be/PydD-cFES_I?is=sulXR9BRhGM-czZS