É precisamente por isso que escrevo hoje sobre uma questão que pode parecer menor a quem nunca teve um animal em casa, mas que assume uma dimensão completamente diferente para quem viveu durante dez, quinze ou vinte anos com um companheiro de quatro patas: Portugal precisa de encontrar soluções dignas, acessíveis e devidamente regulamentadas para a despedida dos animais de companhia, criando ou apoiando a existência de cemitérios, jardins memoriais e serviços de cremação que permitam às famílias escolher a forma como querem conservar a memória daqueles que fizeram parte da sua vida, sem que essa despedida tenha de depender exclusivamente da capacidade económica de cada pessoa ou da existência de um espaço privado onde possa ser enterrado o animal.
Não é uma questão que me tenha surgido agora, nem resulta de uma sensibilidade recente despertada pelas mudanças da sociedade, porque já em 2013, quando desempenhava funções como Presidente da Junta de Freguesia da Cruz Quebrada-Dafundo, apresentei, através do movimento cívico que então liderava, uma proposta para a criação de um cemitério autárquico para animais na área metropolitana de Lisboa, associando essa possibilidade à criação de soluções de cremação e a preocupações de natureza ambiental, numa altura em que esta discussão estava ainda muito longe de ter a visibilidade que hoje começa a adquirir.
Na época, como acontece tantas vezes com propostas que antecipam problemas que ainda não chegaram plenamente à agenda pública, poderia parecer a alguns que se tratava de uma preocupação secundária perante tantas outras necessidades das comunidades locais, mas continuo hoje a considerar que era uma proposta perfeitamente legítima e, sobretudo, necessária, porque uma sociedade que reconhece a importância dos animais de companhia na vida das famílias deve também ser capaz de encontrar uma resposta digna para o momento em que essa relação termina.
Mais de uma década depois, a ideia continua a parecer-me perfeitamente actual, não porque defenda que cada município tenha necessariamente de construir um cemitério para animais, o que seria pouco razoável em muitos territórios, mas porque seria perfeitamente possível criar uma rede regional ou intermunicipal de espaços de enterramento, cremação e memória, com regras claras, acompanhamento ambiental e preços acessíveis, permitindo que uma família que perdeu o animal que a acompanhou durante tantos anos não fique entregue à improvisação precisamente no momento em que mais precisa de uma solução simples e digna.
E há uma razão particularmente forte para defender que esta possibilidade não é uma extravagância nem uma invenção dos nossos tempos: Lisboa já possui um espaço desta natureza há quase um século.
No Jardim Zoológico de Lisboa existe, desde 1934, um cemitério destinado a animais de companhia, um espaço cuja existência demonstra que a ideia de proporcionar aos animais um lugar próprio depois da morte não nasceu com a actual cultura de valorização dos animais domésticos, mas tem já uma história considerável entre nós. O cemitério ocupa actualmente cerca de 2.050 metros quadrados e conserva sepulturas e lápides de animais que foram importantes para as famílias que com eles conviveram, mantendo-se ainda hoje como um espaço de memória e despedida.
É particularmente significativo que um espaço criado em 1934 continue a existir, porque demonstra que esta necessidade não é uma moda passageira e que a relação afectiva entre o homem e os animais de companhia tem uma profundidade muito maior do que por vezes somos levados a admitir.
Lisboa, aliás, não constitui uma excepção europeia, mas integra uma tradição muito mais antiga de criação de espaços destinados à memória dos animais que viveram próximos dos seres humanos.
Em Paris, o famoso cemitério de animais de Asnières, fundado em 1899, tornou-se um dos mais conhecidos espaços europeus deste género, acolhendo ao longo de mais de um século cães, gatos e outros animais que foram tratados pelas suas famílias como companheiros cuja morte merecia uma despedida e cuja memória justificava um lugar próprio; em Londres, o Hyde Park Pet Cemetery conserva igualmente mais de mil animais, sobretudo cães e gatos, sepultados ao longo de décadas num pequeno espaço que acabou por se tornar parte da própria história do parque e da cidade, e em Málaga encontramos uma resposta municipal contemporânea, com um cemitério destinado aos animais de companhia e soluções associadas ao enterramento e à cremação.
Estamos, portanto, perante uma realidade que atravessa épocas e países e que já encontrou respostas muito diferentes, mas que tem em comum uma mesma ideia: quando um animal ocupa durante anos um lugar na vida de uma família, a sociedade pode criar condições para que essa família tenha também um lugar onde possa preservar a sua memória.
A pergunta que devemos fazer é, por isso, bastante simples: se outras cidades europeias encontraram soluções para esta questão e se Lisboa mantém desde 1934 um cemitério de animais que continua em funcionamento, porque razão não conseguimos criar em Portugal uma verdadeira rede de espaços onde seja possível enterrar ou cremar dignamente os nossos animais de companhia?
Talvez a resposta para esta pergunta esteja, curiosamente, muito mais longe no tempo do que poderíamos imaginar, porque para percebermos que a relação entre o homem e determinados animais não nasceu na sociedade urbana contemporânea, nem resulta apenas da actual transformação dos animais domésticos em membros das famílias, temos de recuar milhares de anos e olhar para aquilo que a arqueologia nos deixou sobre as comunidades humanas da Pré-História.
Nos célebres concheiros de Muge, no vale do Tejo, foi encontrado um dos mais extraordinários testemunhos portugueses da relação antiga entre o Homem e o cão: o chamado Cão de Muge, um animal que viveu há cerca de 7.600 anos, durante o Mesolítico, entre comunidades de caçadores-recolectores que habitavam aquela região, e cujo esqueleto foi encontrado praticamente completo.
A sua importância não reside apenas na enorme antiguidade do achado, mas sobretudo nas circunstâncias em que o animal foi depositado, porque a forma do enterramento levou os investigadores a considerar a possibilidade de se tratar de um cão particularmente estimado pela comunidade humana com que vivia, tendo o Laboratório Nacional de Energia e Geologia chegado a apresentá-lo como um “companheiro do Homem de há 6.000 anos”, uma expressão que, independentemente da diferença entre a linguagem científica e a linguagem emocional, traduz bem aquilo que torna este achado tão extraordinário.
É evidente que não devemos projectar sobre a Pré-História os nossos sentimentos contemporâneos, nem transformar uma interpretação arqueológica numa certeza que os vestígios não permitem demonstrar, porque não sabemos exactamente o que aquelas pessoas pensavam, não sabemos se houve uma cerimónia, não sabemos se houve lágrimas e não sabemos qual era o significado religioso ou simbólico daquele enterramento; sabemos, porém, que aquele cão não foi simplesmente abandonado ao acaso e que alguém, ou alguma comunidade, teve o cuidado de depositar o seu corpo de uma determinada forma.
E isso é extraordinário.
Estamos perante uma sociedade de há milhares de anos, sem cidades como as conhecemos, sem igrejas, sem serviços funerários, sem cemitérios modernos, sem lápides e sem todas as estruturas através das quais as sociedades actuais exprimem a memória dos seus mortos, e, ainda assim, encontramos um animal cujo corpo foi colocado cuidadosamente na terra, deixando-nos uma das mais antigas testemunhas arqueológicas portuguesas de uma relação especial entre seres humanos e cães.
É impossível não pensar naquilo que separa e, ao mesmo tempo, aproxima o homem de Muge do homem de hoje, porque há cerca de 7.600 anos alguém viveu com aquele cão, alguém o viu diariamente, alguém o conheceu enquanto estava vivo e, quando a sua vida terminou, alguém tomou uma decisão sobre o destino do seu corpo, exactamente como hoje uma família se vê confrontada com a necessidade de decidir o que fazer quando morre o animal que durante tantos anos viveu dentro da sua casa.
Não sabemos se aquele cão acompanhava as pessoas nas deslocações, se participava na caça, se desempenhava alguma função específica ou se era simplesmente um companheiro doméstico, e seria abusivo inventar uma história que a arqueologia não pode contar, mas o cuidado colocado na sua deposição permite-nos pelo menos perceber que aquele animal não foi tratado como um resto indiferenciado e que a sua morte teve, de alguma forma, um significado para aqueles que ficaram.
Hoje temos veterinários, temos serviços especializados, temos cremação, temos tecnologia, temos legislação e temos meios financeiros e técnicos que aquelas comunidades de Muge jamais poderiam imaginar, mas continuamos, em muitas situações, sem uma resposta pública simples, acessível e digna para as famílias que perdem um animal de companhia, precisamente porque ainda não conseguimos transformar uma realidade social evidente numa política pública suficientemente organizada.
É por isso que continuo a considerar actual a proposta que apresentei em 2013, porque não se trata de transformar os animais em pessoas, nem de confundir os diferentes significados da morte humana e da morte animal, mas simplesmente de reconhecer uma realidade que já existe: há milhões de portugueses que vivem com animais de companhia e muitos desses animais passam uma parte significativa da sua vida dentro das nossas casas, acompanham o crescimento dos filhos, estão presentes quando mudamos de casa, quando perdemos alguém, quando atravessamos uma doença ou simplesmente quando regressamos ao fim de um dia difícil e encontramos, à nossa espera, aquele olhar que durante anos nos recebeu sempre da mesma maneira.
Por isso, quando chega o momento inevitável em que esse animal deixa de estar, não me parece razoável que a sociedade diga simplesmente a uma família que procure uma solução qualquer para aquilo que, durante tantos anos, fez parte da sua própria história, como se estivéssemos perante um objecto que deixou de ter utilidade e não perante a memória viva de uma relação que marcou uma parte importante da existência daquela pessoa ou daquela família.
O que defendo é, afinal, bastante simples: que possamos dizer a essa família que existe um lugar onde pode despedir-se do seu animal, onde o pode enterrar ou cremar com dignidade, onde poderá guardar as suas cinzas, colocar uma pequena placa, plantar uma árvore ou simplesmente permanecer alguns minutos em silêncio, porque há momentos na vida em que aquilo de que precisamos não é de uma grande cerimónia, mas apenas de um espaço onde possamos reconhecer que alguém que fez parte dos nossos dias já não vai voltar.
Talvez seja essa a razão pela qual o Cão de Muge continua a ter para nós, tantos milhares de anos depois, uma força tão extraordinária: não sabemos o nome daquele cão, não sabemos quem o acompanhou durante a vida, não sabemos se houve lágrimas quando morreu ou se existiu qualquer espécie de ritual, mas sabemos que alguém, numa comunidade humana que viveu nas margens do Tejo há milhares de anos, teve o cuidado de depositar aquele animal na terra de uma determinada forma, deixando para o futuro uma das mais antigas e silenciosas testemunhas da relação entre o Homem e o cão.
E é precisamente aqui que o passado e o presente se encontram, porque o homem que há milhares de anos teve o cuidado de dar um lugar ao corpo daquele cão não era tão diferente de nós como por vezes imaginamos, e talvez também ele tivesse conhecido aquilo que hoje conhecemos quando regressamos a casa e sentimos a falta de uma presença que durante anos fez parte da nossa vida, razão pela qual não considero que pedir cemitérios, jardins memoriais ou serviços de cremação para animais seja uma excentricidade dos nossos tempos, mas antes uma resposta contemporânea a uma relação que acompanha a própria história da Humanidade.
perdemos uma rotina, uma companhia, uma parte da nossa memória e, muitas vezes, uma testemunha silenciosa de uma fase inteira da nossa vida, alguém que esteve presente em dias felizes e em dias difíceis sem nunca nos perguntar quem éramos, quanto ganhávamos, que ideias defendíamos ou que erros tínhamos cometido, e talvez seja precisamente essa ausência silenciosa que torna tão difícil explicar a quem nunca passou por isso porque é que a morte de um animal pode deixar uma casa tão estranhamente vazia.
Talvez por isso uma sociedade que já sabe construir cemitérios, memoriais e lugares de homenagem para preservar a memória dos seus mortos possa também encontrar um pequeno espaço para preservar a memória daqueles animais que, embora não sejam humanos, foram profundamente importantes naquilo que nos deram: companhia, lealdade, afecto e uma presença constante que só verdadeiramente aprendemos a valorizar quando deixa de existir.
Há cerca de 7.600 anos, alguém em Muge colocou cuidadosamente um cão na terra e, sem saber, deixou uma mensagem que atravessou milhares de anos até nós; hoje, com todos os recursos de que dispomos e com uma consciência muito maior da importância que os animais de companhia têm na vida das famílias, talvez seja tempo de responder a essa mensagem não com nostalgia, mas com uma solução concreta, criando em Portugal uma rede de espaços dignos onde aqueles que durante tantos anos fizeram parte das nossas casas possam também ter, quando a vida termina, um lugar na nossa memória.
Porque, no fundo, quando uma pessoa pede um lugar para enterrar ou cremar o seu animal, talvez não esteja a pedir um lugar para a morte, mas um lugar para aquilo que permanece depois dela: a memória de um companheiro que já não está à porta, já não corre pela casa e já não nos espera quando chegamos, mas que continuará, durante muitos anos, a existir naquele lugar invisível onde guardamos tudo aquilo que verdadeiramente fez parte da nossa vida.
E talvez seja essa a melhor homenagem que lhes podemos prestar: não fingir que não sentimos a sua ausência, mas reconhecer que, durante os anos em que estiveram connosco, foram suficientemente importantes para merecer, no fim, aquilo que o Cão de Muge recebeu há milhares de anos e que ainda hoje nos ensina tanto sobre nós próprios — um lugar onde o corpo possa repousar, um gesto de respeito perante a morte e, sobretudo, uma memória que não desapareça simplesmente porque a vida terminou.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor