E leiamos o que deixou a associação Zero no Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, dia 17 de junho, sendo que a  organização recorda que 2026 é o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores e que metade da superfície terrestre do planeta e quase um quinto da área de Portugal continental é ocupada por pastagens, das quais dependem economias locais e habitats de alto valor.

Mas a desertificação humana  do interior de Portugal iniciou-se de forma acelerada na segunda metade da década de 1950 e intensificou-se radicalmente nos anos 1960, impulsionada pelo forte êxodo rural e pela emigração em massa para a Europa e para o litoral muito em fuga à guerra colonial

  • Anos 50 e 60: A população abandonou as aldeias do interior devido à pobreza extrema no campo e à atração da indústria nas zonas litorais (como Lisboa e Porto).
  • A Guerra Colonial (1961–1974) centenas de milhar de jovens fugiram do país ou foram mobilizados para a guerra, esvaziando ainda mais as terras agrícolas.
  • Dimensão Física (Anos 80): O conceito de desertificação física e ambiental do solo ganhou relevo nacional a partir de 1980, marcado por secas severas (como no Alentejo) que degradaram a flora e a terra

Portugal perdeu cerca de 2% da população residente no continente entre 2011 e o ano corrente, apesar da imigração. Pior ainda metade da população do continente português reside em apenas 31 concelhos do litoral, face aos  278 municípios do continente.

É o que ressalta dos dados, ainda preliminares, do censo de 2021 comparado com o de 2011. A única exceção é o concelho de Braga (subida de 6,5% dos residentes), que não se situa no litoral, mas nem fica longe do mar.

No próprio litoral registaram-se quebras demográficas como em  Viana do Castelo (menos 3% em dez anos), Caminha (menos 5%), Cantanhede (menos 6,5%), Figueira da Foz (menos 5%), Pombal (menos 7,4%). Todos os concelhos do Alentejo, incluindo os do litoral, perderam população, excetuando Odemira, onde terá jogado o fator imigração para trabalhos agrícolas intensivos.

Nos concelhos com fronteira com Espanha a quebra de residentes foi geral, de Castro Marim, no Algarve, até Valença, no Minho.

Será, então, que as cidades do interior compensaram as perdas das zonas rurais?

As hipóteses de recuperar a população das aldeias há muito que são realisticamente nulas; mas parecia possível a aposta de concentrar nas cidades do interior a batalha contra a desertificação.

Só que, pelo menos até hoje, nada progrediu nesse sentido, pelo contrário.

Viseu logrou manter a população residente, mas é caso único.

Cidades como Vila Real, Guarda, Covilhã e Évora perderam residentes, não obstante terem agora estabelecimentos de ensino superior.

Estes números tornam evidente a fantasia da luta contra a desertificação do interior que sucessivos governos nos têm tentado impingir.

A desertificação do interior não apenas se acentuou na última década como alastrou ao próprio litoral.

Agravou-se a concentração demográfica em torno das principais cidades, como Lisboa e Porto, afetando aí a qualidade de vida dos residentes, com mais poluição e mais engarrafamentos na circulação automóvel.

Nessas zonas sobrepovoadas faltam habitações acessíveis à maioria da população, e  nas aldeias do resto do país milhares de casas permanecem fechadas.

Algumas abrirão para acolher o regresso, para férias, de emigrantes portugueses na Europa; mas no corrente ano e em 2020 em muitos casos nem isso, pois a pandemia travou esse regresso temporário.

A “bazuca” europeia oferece-nos uma enorme quantidade de dinheiro mas se, agora, uma parte desse dinheiro não vai para travar e inverter estas funestas tendências demográficas, melhor será que os políticos nao   falem em combater a desertificação.

E a verdade é que, até hoje, estratégia credível de combate à desertificação tem sido uma enorme treta.