Entre 1945 e 2026, considerando mandatos parlamentares de quatro anos, cada país democrático teria realizado, em condições regulares, aproximadamente 20 atos eleitorais. Os Estados Unidos ficam fora desta análise, por os considerarmos hoje uma democracia de natureza cada vez mais cesarista, levada ao extremo pelo projeto político protofascista de Donald Trump.
Vejamos alguns exemplos:
Portugal, entre 1975 e 2026, realizou 18 eleições legislativas.
Neste período, deveriam ter ocorrido apenas 13 eleições, caso todas as legislaturas tivessem chegado ao fim. Realizaram-se, portanto, mais cinco atos eleitorais do que seria expectável. Portugal foi, efetivamente, um país parlamentarmente instável.
Curiosamente, os períodos com maior concentração de eleições legislativas ocorreram durante as presidências de Ramalho Eanes e Marcelo Rebelo de Sousa: 1980, 1983 e 1985; depois, 2019, 2022, 2024 e 2025.
A direita portuguesa não brinca em serviço e, quando considera necessário, joga também com a instabilidade eleitoral até alcançar os seus objetivos.
O problema é que, de um modo geral, tem escolhido maus líderes: Durão Barroso, Santana Lopes, Passos Coelho e Montenegro. Mesmo Cavaco Silva, apesar da sua longevidade política, ficará também associado à forma como Portugal utilizou — e, em muitos casos, desperdiçou — os fundos comunitários.
Eis-nos, portanto, no atual “estado da nação”, onde nem a classificação dos exames nacionais consegue decorrer sem drama.
No meio de uma legislatura — período que, atendendo ao histórico recente, quase já corresponde a um mandato completo — a direita reúne:
Total: 58%
À esquerda encontramos:
Total: 40%
Esta realidade empurra o país para a extrema-direita. O chamado “centrão” já não se entende nem com um terço de Fátima — ou talvez precisamente por causa dele.
Neste cenário, uma governação apoiada por PSD, IL e Chega surge como uma possibilidade cada vez mais concreta. Poderá produzir estabilidade parlamentar, mas também uma elevada instabilidade política, social e económica.
Enquanto as esquerdas não compreenderem a realidade em que vivem e não conseguirem recuperar para o ato eleitoral uma cidadania que já lhes pertenceu, pouco haverá a fazer.
Para que isso aconteça, é urgente promover o diálogo. Mais diálogo. E ainda mais diálogo: dentro das diferentes esquerdas, entre elas e, sobretudo, entre as forças políticas e a cidadania ativa.
É precisamente para incentivar esse diálogo que por cá continuamos.
Nota: mantive os números e as classificações políticas apresentados no texto original. Convém confirmar os dados eleitorais e as percentagens numa fonte primária antes da publicação.