A alta velocidade entre Porto e Lisboa começa a sair dos projetos e a chegar aos terrenos. No distrito de Aveiro, estão a avançar as primeiras expropriações: 1.076 parcelas em Oliveira do Bairro, Aveiro e Albergaria-a-Velha, distribuídas por aproximadamente 15,5 quilómetros do futuro troço entre Porto e Oiã.

O despacho do secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, datado de 18 de setembro, declara a utilidade pública das expropriações com caráter de urgência. Cabe à concessionária AVAN Norte suportar os encargos e assegurar os terrenos necessários à construção. 

Para os passageiros, a expectativa é conhecida: fazer a viagem entre Porto e Lisboa em uma hora e quinze minutos. Mas convém perceber a que corresponde esse tempo e quando poderá ser alcançado.

A meta diz respeito a comboios diretos, sem paragens intermédias. A nova linha servirá também Gaia, Aveiro, Coimbra e Leiria, mas uma viagem que inclua estas quatro paragens demorará mais.

Nas suas informações sobre o projeto, a Infraestruturas de Portugal prevê um percurso direto de 1h19 após a conclusão da ligação até ao Carregado, sensivelmente em 2033. Com as quatro paragens, a estimativa sobe para 1h45. O segmento de alta velocidade entre Carregado e Lisboa, a construir mais tarde, deverá reduzir o percurso em cerca de cinco minutos.

A fórmula “Porto a Lisboa em 1h15 em 2032” precisa, portanto, de ser acompanhada destas condições. O objetivo mantém-se, mas o calendário atualmente divulgado não permite tratar essa data como garantida.

A construção será feita por etapas. Porto a Oiã tem conclusão prevista para 2030. O concurso para Oiã a Soure foi relançado em janeiro de 2026, depois de o primeiro procedimento terminar sem propostas válidas, e as obras estão previstas entre 2028 e 2032. No troço entre Soure e Carregado, a programação estende-se até 2033.

A nova infraestrutura terá via dupla eletrificada, dedicada a passageiros de médio e longo curso. Estão previstas novas estações em Gaia e Leiria, além das ligações à Linha do Norte que permitirão servir Aveiro e Coimbra-B. 

O financiamento já deu passos importantes. O contrato de concessão de Porto a Oiã foi assinado em 29 de julho de 2025, e o Banco Europeu de Investimento assegurou um empréstimo de 875 milhões de euros para este troço. O montante integra um pacote de três mil milhões aprovado para apoiar a primeira fase da ligação entre Lisboa e Porto. 

Entretanto, a CP prepara os comboios que irão circular na nova linha. O concurso lançado em maio de 2026 prevê a compra de 12 automotoras, com opção para mais oito, por um preço base de 504 milhões de euros. Inclui manutenção inicial e formação do pessoal.

A entrega do primeiro comboio está prevista para o primeiro trimestre de 2031. As restantes unidades deverão chegar até ao terceiro trimestre de 2032. Terão capacidade para mais de 500 passageiros e estarão preparadas para uma futura adaptação à bitola europeia, mediante substituição dos rodados. São dois processos que terão de coincidir: a disponibilidade dos comboios e a abertura dos troços necessários ao serviço. 

A ambição ferroviária portuguesa estende-se a Vigo e Madrid. Na ligação a Vigo, o objetivo é reduzir a viagem a 50 minutos, num corredor que servirá o aeroporto do Porto, Braga, Ponte de Lima e Valença. Contudo, as obras da primeira fase estão programadas entre 2028 e 2033. Também aqui, o tempo de viagem anunciado não deve ser confundido com uma data assegurada de funcionamento integral. 

Enquanto Portugal prepara estas ligações, a China opera numa escala muito diferente. Dados oficiais divulgados em maio de 2026 indicam que a rede chinesa ultrapassou os 50 mil quilómetros de alta velocidade. Os Fuxing CR400 já circulam a 350 km/h. A geração CR450 foi concebida para atingir 400 km/h em serviço e encontra-se em processo de testes, pelo que essa velocidade não deve ser apresentada como uma oferta comercial já generalizada. 

Na Europa, a experiência está consolidada. Os TGV franceses atingem 320 km/h em exploração normal. Numerosos serviços AVE espanhóis circulam a 300 km/h. Os ICE 3 alemães operam até 300 km/h na Alemanha e podem chegar aos 320 km/h nas ligações em território francês. A comparação faz sentido quando se usam velocidades praticadas no transporte de passageiros, distinguindo-as dos recordes obtidos em ensaios. 

Para quem viaja em Portugal, a questão será bastante concreta: quanto custa o bilhete, quantos comboios existem por dia e como se chega às estações.

Há ainda um efeito que merece atenção. A transferência dos serviços rápidos para a nova linha deverá libertar espaço na Linha do Norte para comboios suburbanos, regionais e de mercadorias. Se essa capacidade for aproveitada, os benefícios poderão chegar também aos passageiros que dependem diariamente da ferrovia convencional e às empresas que transportam carga.