Pois é, não há Festa como esta

Todos os anos volto à Quinta da Atalaia. Não porque seja comunista, mas porque há lugares onde a política, a cultura, a música, a gastronomia e o encontro entre pessoas ainda conseguem existir sem pedir licença umas às outras. A Festa do Avante! é um desses lugares.

Há coisas que só se compreendem verdadeiramente quando se vivem.

A Festa do Avante! é uma delas.

Posso falar dos concertos, dos livros, das exposições, do teatro, dos debates, da gastronomia, dos espaços internacionais, do desporto, da música que se ouve até tarde ou das milhares de pessoas que, durante três dias, transformam a Quinta da Atalaia numa espécie de pequena cidade.

Mas quem lá vai sabe que a Festa é mais do que a soma de tudo isso.

Eu vou todos os anos.

E continuo a encontrar qualquer coisa de difícil explicação naquele momento em que atravesso a entrada e começo a caminhar por entre gente de todas as idades, sotaques, origens e maneiras de pensar.

Há famílias.

Há jovens.

Há gente que vai pela música.

Há quem passe horas nos debates.

Há quem procure livros.

Há quem vá encontrar amigos que só vê uma vez por ano.

E há, naturalmente, muita gente que vai porque é comunista.

Eu não sou.

Nunca precisei de ser.

Talvez seja precisamente isso que torna a experiência interessante.

Uma Festa política que nunca foi apenas política

A Festa do Avante! é organizada pelo Partido Comunista Português e tem uma identidade política clara.

Isso não é segredo para ninguém.

Mas quem reduz a Festa apenas à sua dimensão partidária provavelmente nunca passou um dia inteiro lá dentro.

Porque a política está presente, sim, mas mistura-se continuamente com outras coisas.

Num momento estamos a ouvir um debate sobre o futuro da Europa.

Pouco depois estamos diante de um palco a ouvir música africana.

Mais à frente encontramos literatura.

Depois teatro.

Depois ciência.

Depois um espaço dedicado a outro país.

E, pelo meio, sentamo-nos numa mesa onde alguém nos fala de Cabo Verde, Angola, Cuba, Palestina, Brasil, França ou Alentejo enquanto chega um prato que também conta uma história.

É talvez uma das coisas de que mais gosto na Festa.

O internacionalismo ali não existe apenas nos discursos.

Também se prova.

Também se ouve.

Também se dança.

Também se conversa.

A política deixa de ser uma coisa abstrata e volta a ser aquilo que sempre deveria ter sido: pessoas a falarem com pessoas sobre o mundo em que vivem.

O mundo inteiro cabe por umas horas na Quinta da Atalaia

Há uma passagem célebre do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels:

“Um espectro ronda a Europa — o espectro do comunismo.”

Passaram quase dois séculos.

O mundo mudou de uma forma que Marx e Engels dificilmente poderiam imaginar.

E, no entanto, ainda hoje há quem pronuncie a palavra “comunista” como se estivesse a falar de alguma entidade ameaçadora que deve ser mantida à distância.

Nunca percebi muito bem esse medo.

Não ser comunista não me impede de conversar com comunistas.

Da mesma forma que discordar de alguém não me obriga a considerá-lo inimigo.

Essa talvez seja uma das aprendizagens que a própria democracia deveria proporcionar-nos.

Conviver com a diferença.

Ouvir.

Discutir.

Discordar.

E depois continuar a partilhar a mesma mesa.

Todos os anos encontro isso na Festa.

Por vezes concordo com o que ouço.

Outras vezes discordo profundamente.

Mas nunca senti que tivesse de deixar o meu pensamento crítico à porta.

E é precisamente por isso que volto.

Também se vai à Festa para encontrar pessoas

Com os anos fui percebendo que aquilo que mais permanece na memória nem sempre são os grandes concertos.

São os encontros.

Uma conversa inesperada.

Um reencontro.

Uma discussão política que começa num corredor e termina meia hora depois junto a uma cerveja.

Uma pessoa que não víamos há anos.

Um desconhecido que começa por comentar uma atuação musical e acaba a falar connosco sobre o país.

Talvez seja esse um dos segredos da Festa do Avante!.

Ainda é um lugar onde as pessoas se encontram fisicamente.

Num tempo em que quase toda a discussão política acontece através de ecrãs, algoritmos, comentários agressivos e pequenas trincheiras digitais, não é uma coisa menor.

Ali vemos os rostos.

Ouvimos as vozes.

Percebemos as diferenças.

E descobrimos muitas vezes que o adversário político não é o monstro que as redes sociais nos ensinaram a imaginar.

É uma pessoa.

Uma esquerda que precisa de voltar a conversar

Talvez por isso, todos os anos, enquanto caminho pela Festa, penso também na enorme dificuldade que as esquerdas têm tido em falar umas com as outras.

Há diferenças reais.

Algumas profundas.

Sempre houve.

Socialistas, comunistas, bloquistas, sociais-democratas de esquerda, ecologistas, movimentos cívicos e independentes não pensam todos da mesma maneira.

Nem seria desejável que pensassem.

Mas uma coisa é divergir.

Outra é transformar cada diferença numa fronteira intransponível.

Enquanto as esquerdas discutem frequentemente quem possui a interpretação mais pura de cada problema, as sociedades mudam rapidamente à sua volta.

A insegurança económica cresce.

O custo de vida pressiona famílias.

Os empregos transformam-se.

A tecnologia altera profissões.

As desigualdades permanecem.

Os populismos avançam.

A linguagem política radicaliza-se.

E muita gente deixa simplesmente de acreditar que os partidos tradicionais conseguem responder aos seus problemas.

Talvez esteja na hora de voltar a distinguir duas coisas que nunca foram exatamente iguais:

unidade e unanimidade.

A esquerda não precisa de pensar toda da mesma maneira.

Precisa, talvez, de reaprender a reconhecer aquilo que tem em comum.

Direitos sociais.

Democracia.

Trabalho digno.

Educação.

Saúde.

Liberdade.

Combate às desigualdades.

Respeito pela dignidade humana.

Depois discute-se o resto.

E ainda bem que se discute.

A Festa também é memória

Para quem vai todos os anos, há outra dimensão impossível de ignorar.

A memória.

Vemos crianças que entretanto cresceram.

Pessoas que levavam os filhos e agora aparecem com os netos.

Músicos que regressam.

Amigos que continuam lá.

Outros que já não estão.

Palcos que mudam.

Espaços que mudam.

O país que muda.

E nós próprios também mudamos.

Talvez por isso cada edição da Festa seja ao mesmo tempo nova e familiar.

Há sempre qualquer coisa que reconhecemos.

Um caminho.

Um cheiro.

Uma música ao longe.

Uma banca.

Uma voz.

Um sítio onde já nos sentámos dezenas de vezes.

Para muita gente, a Festa tornou-se também uma espécie de calendário emocional.

Chega setembro.

E há Atalaia.

Não é preciso ser comunista para perceber o que existe ali

Nunca tive dificuldade em dizer isto:

não sou comunista.

Mas também nunca precisei de construir a minha identidade política através do medo dos comunistas.

Vou à Festa porque gosto da Festa.

Gosto da sua energia.

Da diversidade cultural.

Da mistura de gerações.

Do internacionalismo.

Da música.

Dos livros.

Da comida.

Dos debates.

Das conversas.

E gosto sobretudo da sensação, cada vez mais rara, de ver milhares de pessoas reunidas num mesmo espaço sem que tudo tenha de ser transformado numa experiência comercial desenhada ao milímetro.

Claro que há ideologia.

Claro que há mensagens políticas.

Claro que há propaganda.

É uma festa organizada por um partido político.

Seria estranho que não houvesse.

Mas também há liberdade para caminhar, ouvir, observar e formar a nossa própria opinião.

E talvez seja essa a melhor maneira de ir à Festa.

Sem preconceitos.

Sem devoção.

Sem medo.

Com curiosidade.

Então, que tal ir à Festa do Avante!?

Todos os anos alguém me pergunta porque volto.

A resposta é simples.

Porque continuo a gostar de estar lá.

Porque ainda encontro pessoas.

Porque continuo a descobrir coisas.

Porque há música que quero ouvir.

Conversas que quero ter.

Livros que quero folhear.

Sabores que quero reencontrar.

E porque, mesmo discordando de muitas coisas, continuo a acreditar que uma sociedade democrática se torna mais interessante quando somos capazes de entrar nos espaços dos outros sem sentirmos que isso ameaça aquilo que somos.

Talvez seja também por isso que a frase continua a fazer sentido depois de tantos anos.

Pois é.

Não há Festa como esta.

E quem nunca foi talvez devesse ir pelo menos uma vez.

Não para sair de lá comunista.

Mas para sair de lá sabendo um pouco mais sobre os comunistas, sobre a esquerda, sobre Portugal, sobre o mundo — e, quem sabe, até sobre si próprio.