Vários Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) encontram-se entre as economias africanas com menor volume de dívida junto do Fundo Monetário Internacional (FMI), um indicador que revela uma reduzida dependência direta dos programas de financiamento daquela instituição financeira internacional sediada em Washington.

De acordo com os dados mais recentes, São Tomé e Príncipe ocupa a quinta posição entre os países africanos com menor dívida ao FMI, registando cerca de 30 milhões de dólares em obrigações financeiras.

Logo a seguir surge a Guiné-Bissau, na sexta posição, com aproximadamente 56,3 milhões de dólares, enquanto Cabo Verde ocupa o sétimo lugar, com um saldo devedor próximo dos 79,5 milhões de dólares.

A lista prossegue com o Burundi (100,1 milhões de dólares), a Somália (116,3 milhões) e as Seychelles, que encerram o grupo dos dez países africanos menos endividados junto do FMI, com cerca de 131,4 milhões de dólares.

Contudo, especialistas em finanças públicas alertam que estes números devem ser interpretados com prudência. Ter uma dívida reduzida junto do FMI não significa necessariamente que um país tenha uma dívida pública baixa ou uma situação financeira confortável. Em muitos casos, pode simplesmente refletir a inexistência de programas ativos com o Fundo, o recurso a outras fontes de financiamento internacional ou a dimensão relativamente pequena da economia.

Angola e Moçambique entre os casos mais pressionados

A realidade é distinta para outros países lusófonos.

Segundo o Relatório da Dívida Internacional do Banco Mundial, Angola figura entre os países do mundo onde o pagamento de juros da dívida pública representa uma das maiores parcelas do Rendimento Nacional Bruto (RNB), refletindo a forte pressão que o serviço da dívida continua a exercer sobre as finanças públicas.

Moçambique também integra este grupo de economias particularmente vulneráveis ao peso dos encargos financeiros, evidenciando os desafios que vários países enfrentam para equilibrar investimento público, crescimento económico e sustentabilidade orçamental.

Portugal regressa ao défice

Enquanto isso, em Portugal, o cenário das contas públicas alterou-se no início de 2026.

Depois de ter encerrado 2025 com um excedente orçamental equivalente a 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), as contas do Estado regressaram ao défice no arranque deste ano, com um saldo negativo de cerca de 0,7%, refletindo a evolução da execução orçamental nos primeiros meses do exercício. Esta inversão ocorre apesar de a dívida pública portuguesa continuar a apresentar uma trajetória descendente em percentagem do PIB nos últimos anos.

Sustentabilidade da dívida continua a ser um desafio

Economistas sublinham que a verdadeira avaliação da saúde financeira de um país não depende apenas do montante da dívida, mas sobretudo da sua capacidade para a financiar, do ritmo de crescimento económico, da confiança dos investidores, do peso dos juros nas contas públicas e da qualidade das políticas orçamentais.

Neste contexto, a reduzida exposição de vários PALOP ao FMI constitui um indicador positivo de menor dependência daquela instituição específica, mas não dispensa uma análise mais abrangente da dívida pública total, das necessidades de financiamento e da sustentabilidade das respetivas economias.

À medida que o contexto económico internacional permanece marcado por taxas de juro elevadas, desaceleração do crescimento e maior volatilidade financeira, a gestão prudente da dívida continuará a ser um dos principais desafios para governos em África, na Europa e no restante mundo.

Fontes: Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial – International Debt Report, Ministério das Finanças de Portugal, Banco de Portugal e Eurostat.