Há uma forma de protesto que não precisa de disparar uma única arma para fazer sentir a sua força. Basta que os guindastes parem, que os contentores permaneçam nos cais e que os trabalhadores se recusem a carregar aquilo que consideram alimentar os conflitos armados.

Esta sexta-feira, 30 de outubro, uma mobilização internacional de trabalhadores portuários levou greves, manifestações e paralisações a dezenas de grandes plataformas marítimas, numa ação que os organizadores apresentam como uma das maiores iniciativas coordenadas do setor contra a guerra e a militarização dos portos.

Segundo os dados divulgados pelos sindicatos e confirmados pela Reuters, a jornada envolveu 113 portos, distribuídos por 22 países, com a participação de mais de 25 organizações sindicais. As ações decorreram em cinco continentes, embora com diferentes níveis de adesão e duração.  

O movimento nasceu de uma convicção partilhada por trabalhadores de diferentes países: os portos civis não devem funcionar como plataformas de abastecimento militar para conflitos armados.

A mensagem é particularmente significativa numa economia mundial profundamente dependente do transporte marítimo. Os grandes navios que atravessam os oceanos transportam matérias-primas, alimentos, equipamentos industriais e bens de consumo. Também transportam armamento, munições e componentes destinados à indústria militar.

Quem trabalha nos portos conhece essa realidade melhor do que ninguém.

E decidiu questioná-la.

Livorno: o protesto que chegou pelo mar

No dia 22 de outubro, o porto italiano de Livorno tornou-se palco de uma operação de protesto que reuniu ativistas, trabalhadores portuários e embarcações associadas à Global Sumud Flotilla.

O alvo foi o navio de transporte de contentores Sunaid X, de bandeira portuguesa, cuja entrada no terminal de Darsena Toscana foi dificultada por embarcações posicionadas no canal de acesso.

Em terra, sindicalistas e manifestantes organizaram concentrações junto dos acessos portuários, enquanto o sindicato italiano Unione Sindacale di Base (USB) anunciava uma paralisação das operações no terminal.

Segundo o sindicato, o navio transportava materiais destinados ao abastecimento da base aérea de Sigonella, na Sicília, utilizada pelas forças norte-americanas e por operações da NATO.

A alegação de que a carga incluía explosivos destinados a operações militares foi, contudo, contestada pelas autoridades italianas. A Capitania do Porto e a Prefeitura confirmaram a presença de mercadorias perigosas, mas negaram que fossem de natureza bélica. Esta divergência permanece relevante para a avaliação dos acontecimentos.


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Ainda assim, a operação de Livorno mostrou a capacidade de articulação entre a mobilização sindical em terra e a intervenção de ativistas no espaço marítimo.

O episódio deu visibilidade a uma campanha internacional que já estava a ser preparada desde maio, quando organizações sindicais reunidas em Istambul decidiram promover uma jornada de mobilização contra a guerra, o comércio de armamento e a deterioração das condições laborais nos portos.

De Marselha a Mumbai, os trabalhadores fazem ouvir a sua voz

A dimensão internacional desta mobilização revela uma articulação sindical que ultrapassa fronteiras nacionais, diferenças culturais e realidades económicas.

Em França, Itália, Grécia, Índia e Turquia foram convocadas paralisações de 24 horas. Noutros países, incluindo Marrocos e Chipre, realizaram-se interrupções de menor duração, acompanhadas por manifestações e iniciativas públicas.

No porto grego do Pireu, aproximadamente três mil trabalhadores participaram na paralisação, afetando operações de carga e serviços de transporte marítimo de passageiros. Em Itália, os protestos estenderam-se a cidades como Génova, Livorno e Trieste. 

A diversidade das formas de protesto é também uma característica desta jornada. Nem todos os portos ficaram completamente paralisados, e os efeitos sobre o comércio internacional variaram de região para região.

A Associated Press assinala que não se esperavam ruturas generalizadas nas cadeias globais de abastecimento, embora tenham ocorrido perturbações operacionais e atrasos em determinados serviços.  

O impacto da iniciativa não pode, portanto, medir-se exclusivamente pelo número de navios imobilizados ou pelas toneladas de mercadorias que deixaram de circular.

Existe igualmente uma dimensão política e social.

Os trabalhadores estão a colocar no debate público uma pergunta que raramente ocupa o centro das discussões sobre conflitos armados: qual é a responsabilidade de quem assegura, através do seu trabalho, o funcionamento das cadeias logísticas militares?

Quando o trabalho se transforma num instrumento de paz

O sindicalismo internacional tem uma longa tradição de mobilização contra conflitos militares, regimes autoritários e decisões políticas consideradas contrárias aos interesses dos trabalhadores.

A atual iniciativa recupera parte dessa tradição, mas desenvolve-se num ambiente particularmente complexo.

Os portos são infraestruturas estratégicas para a soberania económica, a segurança nacional e a circulação internacional de mercadorias. A sua utilização para o transporte de equipamentos militares envolve decisões políticas e compromissos internacionais que não dependem exclusivamente das empresas de navegação ou dos operadores portuários.

A recusa de movimentar determinadas cargas coloca, por isso, questões jurídicas, laborais e políticas relevantes, incluindo os limites do direito à greve, as obrigações contratuais e a distinção entre comércio civil e logística militar.

Para os sindicatos organizadores, essa complexidade não elimina a responsabilidade dos trabalhadores perante as consequências humanas das guerras.

A mobilização também incorpora reivindicações diretamente relacionadas com a segurança e a dignidade laboral: melhores salários, proteção dos profissionais que atravessam zonas de conflito e condições de trabalho adequadas num setor marcado pela automação e pela pressão sobre os custos operacionais.

O perigo enfrentado pelos trabalhadores marítimos constitui, aliás, uma das principais preocupações apresentadas pelos representantes sindicais, que denunciam mortes, ferimentos e ataques contra embarcações comerciais em regiões afetadas por conflitos armados.  

A defesa da paz surge, assim, associada à proteção de quem trabalha.

Uma economia global dependente de mãos humanas

O desenvolvimento tecnológico transformou profundamente a atividade portuária. A automatização de terminais, a digitalização dos sistemas logísticos e a utilização de equipamentos de movimentação cada vez mais sofisticados aumentaram a capacidade e a eficiência dos grandes portos.

Mas a intervenção humana continua a desempenhar funções decisivas na gestão, operação, segurança e manutenção dessas infraestruturas.

A mobilização de 30 de outubro procura demonstrar precisamente essa interdependência.

Uma decisão tomada por trabalhadores num porto pode ter consequências sobre operadores logísticos, empresas de transporte e cadeias de abastecimento que se estendem por vários países.

Essa capacidade de intervenção constitui um recurso sindical poderoso, embora os seus resultados dependam da adesão efetiva, da duração das paralisações e das características de cada terminal.

Os organizadores defendem que os portos devem servir prioritariamente as necessidades das populações e o desenvolvimento económico, rejeitando a sua transformação em centros de distribuição de armamento para zonas de guerra.

A mensagem tem encontrado apoio entre organizações de trabalhadores de outros setores, movimentos sociais e associações pacifistas, que veem nesta iniciativa uma forma de contestação organizada à expansão da economia de guerra.

O silêncio dos portos pode fazer-se ouvir longe

A jornada internacional de 30 de outubro deixa uma questão que ultrapassa o universo sindical.

Até que ponto podem os trabalhadores influenciar decisões relacionadas com a política internacional e com a utilização militar das infraestruturas civis?

Os governos conservam a responsabilidade pela defesa, pela segurança e pelos compromissos internacionais dos seus Estados. Os sindicatos, por sua vez, reivindicam o direito de contestar as consequências dessas decisões e de defender os interesses e a segurança dos seus associados.

É nesse espaço de tensão que se desenvolve esta mobilização.

O seu alcance político ainda terá de ser avaliado. A dimensão da adesão não significa, por si só, que o transporte de armamento tenha sido interrompido de forma duradoura ou que os governos venham a alterar as suas políticas.

Mas uma realidade tornou-se visível: trabalhadores de países e continentes diferentes conseguiram organizar uma ação internacional em torno de uma causa comum, utilizando os instrumentos tradicionais da luta laboral para intervir num debate sobre a guerra e a paz.

Talvez seja essa a imagem mais expressiva deste 30 de outubro.

Um porto onde os guindastes permanecem imóveis. Um cais onde o trabalho foi interrompido. Um navio que aguarda autorização para prosseguir viagem.

E, por detrás desse silêncio, milhares de trabalhadores que decidiram fazer ouvir a sua posição.

Porque, por vezes, o silêncio de um porto consegue chegar mais longe do que o ruído das armas.