A descoberta arqueológica obrigou, por isso, a olhar para aquele espaço de uma maneira completamente diferente, porque aquilo que durante décadas foi reconhecido pelos lisboetas como um estabelecimento comercial escondia, sob as suas fundações e sucessivas transformações, uma parte de uma Lisboa muito mais antiga, quando o Rossio era ainda dominado pela presença do Convento de São Domingos e quando os religiosos desempenhavam na cidade funções que hoje associamos aos hospitais, às instituições de assistência, aos cemitérios e até a algumas formas de protecção social.
O que estava debaixo do Braz & Braz não era, portanto, apenas terra, pedra e restos de construções antigas, mas uma verdadeira cidade dos mortos, uma comunidade silenciosa composta em grande parte por bebés e crianças muito pequenas, cuja existência nunca chegou a entrar nos grandes livros da História, mas que a arqueologia conseguiu agora recuperar através dos seus esqueletos, dos objectos associados aos enterramentos e das marcas que a vida e a morte deixaram nos ossos.
Para compreender como três mil crianças foram parar àquele lugar, temos de recuar a uma Lisboa em que o Convento de São Domingos era muito mais do que um edifício religioso, porque a sua presença junto ao Rossio fazia dele uma das instituições centrais da cidade, ligada não apenas à vida espiritual, mas também ao ensino, à assistência, à caridade, aos enterramentos e à própria organização da vida quotidiana de milhares de pessoas que, de uma forma ou de outra, mantinham contacto com os religiosos.
Durante séculos, entrar num convento não significava necessariamente procurar apenas oração, tal como pedir ajuda a um frade não significava exclusivamente confessar um pecado ou assistir a uma cerimónia religiosa, porque as comunidades religiosas constituíam uma das poucas redes de assistência disponíveis numa sociedade sem os sistemas públicos de segurança social que hoje conhecemos e numa época em que a pobreza podia transformar uma doença, uma gravidez ou a morte de uma criança numa verdadeira tragédia familiar.
São Domingos encontrava-se, além disso, numa zona particularmente movimentada de Lisboa, junto a um dos grandes centros de circulação da cidade, e essa localização aproximava os religiosos de uma população muito diversificada, desde pessoas ligadas às elites até vendedores, artesãos, trabalhadores, criados, mendigos e famílias que viviam no limite da sobrevivência.
É nesse mundo que devemos colocar os quase três mil esqueletos encontrados pelos arqueólogos.
Não sabemos o nome da maioria deles, não sabemos de onde vieram exactamente, não conhecemos as suas famílias e não conseguimos reconstruir individualmente a história de cada criança, mas a enorme concentração de bebés e recém-nascidos permite-nos colocar uma hipótese que, embora não possa ser apresentada como uma certeza documental, é profundamente coerente com a sociedade daquele tempo: muitos daqueles pequenos mortos poderiam pertencer às famílias mais pobres da cidade, precisamente aquelas que não tinham dinheiro para suportar os custos de um enterramento e que dependiam da caridade religiosa.
Imagine-se, por um momento, uma mãe pobre de Lisboa, vivendo numa das zonas mais degradadas da cidade, que acaba de perder um filho recém-nascido e que não dispõe sequer dos meios necessários para lhe proporcionar uma sepultura, procurando então uma instituição religiosa e pedindo aos frades que recebam a criança, rezem por ela e lhe dêem um lugar onde possa ser enterrada.
É uma imagem que não conseguimos provar para cada um dos quase três mil indivíduos, mas que nos permite compreender a função social que um grande convento podia desempenhar numa cidade onde a morte fazia parte da vida quotidiana e onde a diferença entre uma família que conseguia pagar um funeral e outra que dependia da caridade podia ser simplesmente a diferença entre ter dinheiro e não ter dinheiro.
E há uma possibilidade ainda mais dolorosa, embora também deva ser tratada como hipótese e não como facto demonstrado para estes enterramentos: algumas crianças poderiam ter sido abandonadas à porta de instituições religiosas, seguindo uma prática que conhecemos para o período e que estava relacionada com a pobreza extrema, com a ilegitimidade, com a impossibilidade de sustentar um recém-nascido ou com situações familiares que deixavam os pais sem alternativas.
A porta de um convento podia ser, para uma criança abandonada, uma fronteira entre a vida e a morte, porque do outro lado estavam religiosos que poderiam eventualmente receber aquela criança, encaminhá-la para alguma instituição de assistência ou simplesmente assegurar-lhe, quando a vida já não podia ser salva, aquilo que os seus próprios familiares não conseguiam garantir: um enterro e uma oração.
É difícil imaginar uma realidade mais distante da Lisboa contemporânea, mas talvez seja precisamente por isso que esta descoberta é tão importante, porque nos obriga a abandonar durante alguns minutos a imagem romântica da cidade antiga, feita de igrejas, azulejos, procissões e fachadas pombalinas, para olhar para aquilo que normalmente não aparece nos postais turísticos: a pobreza, a doença, a mortalidade infantil, o abandono e a enorme quantidade de pessoas que viviam sem qualquer segurança perante as maiores tragédias da existência.
A expressão “3000 esqueletos” pode ser cientificamente exacta para descrever a dimensão do achado, mas é profundamente insuficiente para compreender aquilo que estamos realmente perante, porque cada um daqueles pequenos esqueletos correspondeu, em determinado momento, a uma criança que respirou, foi alimentada, foi tocada, provavelmente foi amada por alguém e, em muitos casos, morreu nos braços de uma pessoa que não conseguiu impedir a sua morte.
É precisamente aqui que a História deixa de ser apenas uma disciplina e passa a ser uma forma de memória, porque perante um recém-nascido que morreu há duzentos ou trezentos anos não conseguimos falar apenas de estatísticas de mortalidade infantil, nem de percentagens, nem de curvas demográficas, sem perceber que cada número correspondia a uma pequena vida que não chegou a crescer.
A arqueologia tem essa capacidade extraordinária de devolver uma dimensão humana às sociedades que os documentos muitas vezes descrevem de forma fria, porque enquanto os livros podem dizer que a mortalidade infantil era elevada, os esqueletos permitem-nos perceber que aquela estatística tinha dentes, ossos, doenças, feridas, sinais de desenvolvimento e, sobretudo, uma idade concreta à morte.
Alguns daqueles bebés poderão ter vivido meses; outros talvez apenas semanas; alguns poderão ter nascido prematuramente; outros poderão ter morrido na sequência de doenças ou infecções que hoje conseguimos tratar com relativa facilidade, enquanto para os seus pais representavam uma batalha para a qual quase não existiam armas médicas disponíveis.
Não havia antibióticos, não havia os actuais conhecimentos sobre infecção, não havia a mesma compreensão da higiene e da transmissão das doenças, e as condições de vida das populações pobres tornavam particularmente vulneráveis as crianças que chegavam ao mundo já debilitadas por uma gravidez difícil, por uma alimentação insuficiente ou por condições sanitárias extremamente precárias.
E depois havia o parto, esse momento que hoje associamos a hospitais, equipas médicas e tecnologia, mas que durante séculos decorreu sobretudo no espaço doméstico e rodeado de riscos que actualmente nos parecem quase inimagináveis, tanto para a mãe como para o recém-nascido.
É por isso que a enorme concentração de crianças naquele espaço nos fala também de uma Lisboa onde a maternidade podia ser acompanhada de uma enorme incerteza, porque uma família podia preparar o nascimento de um filho sem saber se teria oportunidade de o ver chegar ao primeiro aniversário.
Quando pensamos num convento, imaginamos habitualmente silêncio, oração e clausura, mas a realidade das grandes comunidades religiosas era muito mais complexa, sobretudo em cidades como Lisboa, onde os conventos estavam profundamente ligados à sociedade e recebiam diariamente pessoas que procuravam auxílio, orientação, alimento, protecção, sacramentos ou simplesmente um lugar onde alguém pudesse ouvir a sua aflição.
Para uma família pobre, o frade podia ser uma das últimas pessoas a quem recorrer quando a doença, a fome ou a morte entravam em casa, e essa dimensão social da vida religiosa ajuda a compreender por que razão um espaço conventual poderia concentrar tantos enterramentos de pessoas sem grandes recursos.
É possível imaginar que algumas famílias chegassem a São Domingos depois de perder um bebé, não porque desejassem simplesmente enterrá-lo junto de religiosos, mas porque não tinham outra solução, e é precisamente essa possibilidade que torna a descoberta ainda mais dolorosa: talvez os frades fossem, para algumas dessas famílias, a última porta a que podiam bater.
A imagem de uma criança entregue à porta de um convento é particularmente poderosa porque resume, numa única cena, a fragilidade daquela sociedade, na qual uma família podia ser suficientemente pobre para não conseguir alimentar um filho e suficientemente desesperada para confiar a sua vida a uma instituição religiosa, sabendo que, pelo menos ali, existia alguma possibilidade de assistência.
Não devemos, contudo, transformar esta hipótese numa certeza arqueológica, porque os ossos não trazem consigo os nomes das mães, as circunstâncias do nascimento ou a história do abandono, mas também não devemos ignorar aquilo que o contexto histórico permite colocar como possibilidade, sobretudo quando estamos perante uma concentração tão extraordinária de crianças muito pequenas.
A História não se faz apenas com aquilo que está escrito.
Faz-se também com aquilo que podemos reconstruir a partir dos silêncios.
E talvez nenhum silêncio seja maior do que o destas crianças.
Depois veio o terramoto de 1755, que alterou profundamente Lisboa e destruiu ou danificou inúmeros edifícios, incluindo estruturas religiosas, obrigando a cidade a reconstruir-se sobre as ruínas de si própria, num processo que mudaria para sempre a sua arquitectura, a sua organização urbana e a própria relação entre o espaço religioso e o espaço comercial.
O Convento de São Domingos continuou a existir, mas Lisboa começou lentamente a mudar à sua volta, até que o século XIX trouxe a extinção das ordens religiosas e uma transformação radical da propriedade e utilização dos antigos espaços conventuais, permitindo que edifícios que durante séculos tinham servido a comunidades religiosas passassem a desempenhar funções completamente diferentes.
É assim que a História funciona muitas vezes nas cidades: uma geração deixa de usar um espaço, outra ocupa-o, uma terceira modifica-o, uma quarta esquece aquilo que existia antes e, quando finalmente alguém escava, descobre que a cidade actual é apenas a camada mais recente de uma história muito mais antiga.
Foi exactamente isso que aconteceu no espaço do antigo Braz & Braz.
Os vivos ocuparam o lugar dos mortos sem saberem que os mortos estavam ali.
E talvez esta seja a imagem que melhor resume toda esta história: durante décadas, pessoas fizeram compras sobre um espaço onde milhares de crianças tinham sido enterradas séculos antes, separadas dos clientes apenas por paredes, pavimentos e tempo.
A História estava literalmente debaixo dos pés de Lisboa.
E esperou.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor