Há dias que parecem banais porque o mundo já se habituou ao excesso.

Este é um deles. E talvez seja, precisamente por isso, um dia muito mais significativo do que aparenta. Donald Trump publicou na sua rede social uma imagem com uma mensagem aparentemente simples:

“Olá, Gronelândia!”

À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma provocação. Uma montagem destinada a alimentar o espetáculo político e a ocupar os noticiários durante algumas horas.

Mas quando um presidente manifesta repetidamente a intenção de controlar um território pertencente a outro Estado, uma imagem deixa de ser apenas uma imagem.

Passa a ser um teste.

Testa-se a reação da Gronelândia. Testa-se a firmeza da Dinamarca. Testa-se a solidariedade europeia. E, sobretudo, testa-se até onde é possível avançar sem enfrentar consequências.

Entretanto, uma empresa petrolífera norte-americana com ligações ao círculo político de Trump já fez chegar equipamento à região de Jameson Land, na costa oriental da Gronelândia, apesar de ainda não possuir autorização para iniciar as operações.

O Governo gronelandês emitiu um aviso firme e esclareceu que o transporte do equipamento não tinha sido previamente aprovado. A exploração ainda não começou e o pedido continua em análise. Contudo, parte do equipamento já está no terreno e o projeto poderá afetar uma zona abrangida pela proteção da Convenção de Ramsar. A sequência dos acontecimentos está documentada pelo The Guardian.

E é aqui que a coincidência começa a deixar de parecer inocente.

Primeiro, normaliza-se a ideia de que a Gronelândia poderá um dia ficar sob controlo norte-americano.

Depois, surge o interesse económico.

Finalmente, aparecem no terreno os meios necessários para explorar os recursos naturais.

Na geopolítica, os factos consumados começam muitas vezes desta forma: discretamente, enquanto o mundo discute se deve ou não levar a ameaça a sério.

A Gronelândia é um território autónomo integrado no Reino da Dinamarca. Não pertence formalmente à União Europeia, mas está associada à UE como País e Território Ultramarino, e os seus habitantes são cidadãos europeus. Essa distinção jurídica está claramente explicada pela Comissão Europeia.

A Dinamarca já rejeitou anteriormente as pretensões norte-americanas e começou a reforçar a presença militar no Ártico, incluindo o envio de militares para a Gronelândia. Portanto, não se pode afirmar que nada tenha feito.

O que continua a faltar é uma resposta europeia coletiva proporcional à gravidade do que está em causa.

A Europa consegue ser ruidosa quando discute imigração, fronteiras internas ou disputas políticas entre os seus próprios membros. Mas torna-se extraordinariamente prudente quando é confrontada com uma ameaça proveniente de Washington.

Já vimos este padrão na Venezuela.

Podemos condenar o regime de Nicolás Maduro, questionar a legitimidade das eleições venezuelanas e exigir responsabilidades pelos abusos cometidos. Nada disso, porém, transforma automaticamente numa operação legítima a entrada de forças militares estrangeiras em Caracas para capturar um chefe de Estado.

Em 3 de janeiro de 2026, forças norte-americanas capturaram Nicolás Maduro e a sua mulher numa operação militar em território venezuelano. A legalidade dessa intervenção continua a ser fortemente contestada por juristas e instituições internacionais. A própria Biblioteca da Câmara dos Comuns britânica documenta essas dúvidas.

Defender o direito internacional não significa defender Maduro.

Significa compreender que, quando aceitamos que as regras sejam suspensas contra alguém de quem não gostamos, estamos também a aceitar que amanhã possam ser suspensas contra qualquer outro país.

Gaza, a República Democrática do Congo, a Ucrânia e tantos outros conflitos têm origens e responsabilidades distintas. Não seria sério atribuir todos eles a Donald Trump. Mas também não podemos ignorar uma política internacional cada vez mais baseada na força, na exploração económica e na aplicação seletiva das regras.

É neste contexto que deve ser analisada a recente entrada em massa de pessoas provenientes de Marrocos no enclave espanhol de Ceuta.

Não se tratou de uma “invasão de Portugal”. Segundo os números divulgados pelas autoridades espanholas, aproximadamente 72 mil pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta e cerca de 70 mil acabaram por regressar a Marrocos. Madrid chegou a classificar o episódio como uma violação da integridade territorial espanhola.

Uma movimentação desta dimensão exige uma investigação profunda.

Terá resultado apenas da ação das redes de tráfico? Houve incapacidade deliberada das autoridades marroquinas? Tratou-se de uma forma de pressão política sobre Espanha e sobre a União Europeia? Ou existiram outros interesses a beneficiar do caos?

Estas perguntas são legítimas.

O que não podemos fazer, sem provas, é afirmar que a operação foi organizada pela CIA, pela Mossad ou por qualquer outro serviço de informações. Uma acusação dessa gravidade precisa de evidências verificáveis. Caso contrário, enfraquece precisamente a denúncia que se pretende fazer.

Mas não é necessário que todos estes acontecimentos tenham sido organizados pela mesma mão para que alguns deles sirvam os interesses de quem avança enquanto os outros estão distraídos.

O poder nem sempre cria o caos. Por vezes, limita-se a aproveitá-lo.

Enquanto a Europa olha para Ceuta, discute migrações e se divide internamente, equipamentos petrolíferos chegam à Gronelândia, Trump publica uma imagem ameaçadora e aquilo que ontem parecia impensável começa lentamente a entrar no campo do possível.

Pode ser apenas uma provocação.

Pode ser uma estratégia de pressão. Ou pode ser o início da criação de mais um facto consumado. Vamos ver o que acontece.

Mas existe uma pergunta que a Europa já não pode continuar a adiar: quantas vezes poderá responder com silêncio antes de descobrir que já é tarde demais?

Porque o verdadeiro perigo não está apenas em Donald Trump escrever “Olá, Gronelândia”.

O verdadeiro perigo está em o resto do mundo responder:

“Vamos esperar para ver.”