Numa página, o politólogo chama a Salazar a figura política portuguesa mais importante do século XX. Elogia o combate de Trump ao “wokismo”. Manifesta simpatia por Meloni e por Le Pen. Reafirma a sua defesa do antigo império. E remata: o Chega veio corrigir “meio século de desvio à esquerda”.
Não são provocações soltas. São peças de um só desenho, em que a autoridade se sobrepõe à participação, a nostalgia imperial à autodeterminação, a guerra cultural à justiça social. O jornal apresenta-o como “considerado, por muitos, o ideólogo do Chega”. Ele recusa o título: André Ventura, diz, não precisa de ideólogos. Mas o problema nunca esteve no título que aceita ou rejeita. Está na linguagem que ajuda a normalizar.
O primeiro artifício da entrevista consiste em avaliar Salazar pela originalidade das suas ideias, e não pelas consequências do regime que construiu com elas. Um governante pode ter um pensamento coerente, próprio, adaptado aos seus fins, sem que isso o torne justo ou humano.
O próprio Nogueira Pinto reconhece que Salazar criou um sistema que só funcionava com ele lá dentro. Apresenta isto como fragilidade pessoal. É, na verdade, a acusação mais grave que se pode fazer a um regime: uma democracia mostra-se forte quando sobrevive aos seus governantes, quando permite alternância, quando aguenta o contraditório. Um sistema que depende de um único homem não é estabilidade. É construção personalista, e por isso politicamente frágil.
A própria Assembleia da República descreve o Estado Novo como regime autoritário e antiparlamentar: partido único, censura, polícia política, repressão dos opositores. No plebiscito constitucional de 1933, abstenções e votos em branco foram contados como votos a favor. Isto não é leitura partidária. É memória institucional.
Durar quase quatro décadas também não prova grandeza. Confundir duração com legitimidade transforma a longevidade autoritária em virtude. A pergunta certa nunca foi apenas quanto tempo governou, mas como governou, quem o podia contestar e que país deixou.
E o país que deixou tinha, em 1970, uma taxa de analfabetismo de 25,7%, segundo o INE. Nesse mesmo ano, morriam cerca de 58 crianças em cada mil nados-vivos antes de completarem um ano de idade. Estes números não bastam, isolados, para atribuir a Salazar todos os males sociais de Portugal, nem para negar avanços materiais em certas fases do regime. Bastam, contudo, para desmontar a fantasia de um país equilibrado, protegido pela clarividência de um homem providencial. Um Portugal onde um quarto da população não sabia ler nem escrever não é exemplo de sucesso político.
Uma convicção que não escondo: uma sociedade decente mede-se pela liberdade que garante, mas também pela forma como protege quem nasce com menos, quem adoece, quem envelhece, quem perde o emprego, quem não consegue, sozinho, aceder à educação, à saúde e à habitação.
Foi a democracia que transformou estas necessidades em direitos. A Constituição da República assenta na dignidade da pessoa humana. Consagra a segurança social, um Serviço Nacional de Saúde universal, os direitos dos trabalhadores, a igualdade de oportunidades no ensino, e protege ao mesmo tempo a propriedade privada. Este equilíbrio não é acidente. É desenho.
O Estado social pode ser mal gerido, burocrático, insuficiente e reformável. Não é extravagância ideológica. É compromisso civilizacional: a liberdade não pode existir apenas no papel. Uma pessoa sem tratamento médico, sem educação, sem casa, pode ser juridicamente livre e, ao mesmo tempo, socialmente impedida de conduzir a própria vida.
Há, apesar de tudo, uma observação de Nogueira Pinto que não deve ser descartada: a desindustrialização, o enfraquecimento das organizações tradicionais dos trabalhadores e o afastamento de setores da esquerda em relação às preocupações materiais de muitas famílias deixaram uma parte da classe trabalhadora politicamente órfã.
A esquerda erraria se recusasse esta crítica. Quando fala mais para os seus próprios círculos do que para quem enfrenta salários baixos, precariedade, serviços públicos degradados e habitação incomportável, perde a ligação à realidade que diz querer transformar.
O problema começa quando uma ferida verdadeira é usada para vender o remédio errado.
Ridicularizar as políticas de igualdade, tratar formas distintas de discriminação como invenções de elites decadentes e reduzir debates sociais complexos a uma única palavra, “wokismo”, nada disto reabre fábricas, sobe salários, constrói casas ou melhora hospitais.
“Wokismo” funciona, nesta entrevista, como um conceito propositadamente vago, largo o suficiente para caber tudo o que se quer desacreditar. A operação é eficaz: cria-se um inimigo difuso, associa-se esse inimigo ao absurdo, à decadência, à distância em relação ao “homem comum”, e depois apresentam-se Trump e a direita radical como libertadores do bom senso.
A dor económica é convertida em ressentimento cultural. E as perguntas verdadeiras sobre distribuição da riqueza, condições de trabalho, fiscalidade, investimento público e concentração do poder económico desaparecem do debate.
Nogueira Pinto elogia Trump por ter retirado apoios estatais a instituições académicas associadas às “novas causas”. Há aqui uma contradição que se vê a olho nu: em nome da liberdade de discurso, celebra-se o uso do poder político e financeiro do Estado para disciplinar instituições ideologicamente incómodas. O financiamento público deve ser transparente e fiscalizado. Mas liberdade de expressão não é substituir uma ortodoxia por uma purga de sinal contrário.
Mais inquietante ainda é a forma como o antigo império surge, nesta entrevista, como um valor perdido. Ao recordar a sua defesa de um Portugal “do Minho a Timor”, o politólogo olha para o mapa e faz desaparecer as pessoas que viviam nesses territórios.
Os povos africanos e o povo timorense não eram extensões geográficas de Portugal, sem identidade, sem vontade, sem direitos próprios. A defesa do império significou a recusa da sua autodeterminação. Significou uma guerra, entre 1961 e 1974, em Angola, na Guiné e em Moçambique. Uma perspetiva verdadeiramente humana não pode avaliar o colonialismo pela dimensão territorial ou pela nostalgia de quem exercia o domínio. Tem de começar pelas populações submetidas e pelo direito de cada povo decidir o seu próprio futuro.
É por isto que a frase “meio século de desvio à esquerda” é, ao mesmo tempo, politicamente reveladora e factualmente insustentável. Desde 1976, Portugal alternou entre governos do PS e do PSD, incluindo executivos de centro-direita e coligações com o CDS. A própria sucessão dos governos constitucionais desmente cinquenta anos de poder exclusivamente esquerdista.
Desvio em relação a quê? À ditadura, ao partido único ou ao império?
Chamar “desvio” à democracia constitucional e “reequilíbrio” à ascensão do Chega é deslocar o centro do debate. O que antes se reconhecia como nacionalismo autoritário passa a apresentar-se como moderação. Os direitos sociais tornam-se radicalismo. A defesa da dignidade das minorias é descrita como decadência.
Chamar ao Chega direita radical populista também não é invenção dos seus adversários. É a terminologia usada em investigação científica revista por pares, incluindo o estudo de José Pedro Zúquete e David Pimenta, publicado em 2025 na Revista Española de Ciencia Política, que analisa o discurso, a estratégia e o alinhamento do partido com a direita radical populista contemporânea.
Isto não significa que todos os eleitores do Chega sejam autoritários ou que partilhem integralmente esta ideologia. Muitos exprimem revolta, abandono e desconfiança perante instituições que falharam. Compreender esse descontentamento é obrigação democrática. Transformá-lo em desculpa para branquear a ditadura, o colonialismo ou a exclusão é outra coisa, completamente diferente.
O bom senso não está a meio caminho entre democracia e ditadura, entre liberdade e repressão, entre dignidade humana e discriminação. Há equilíbrios necessários. Há fronteiras que uma sociedade decente não pode negociar.
Salazar pode ter tido um pensamento político próprio. Muitos governantes autoritários também o tiveram. As ideias políticas avaliam-se pelas vidas que protegem, pelas liberdades que permitem e pelas oportunidades que criam, não pela coerência doutrinária de quem as concebeu.
Portugal continua longe de cumprir plenamente a promessa social da democracia. Persistem desigualdades, pobreza, salários baixos, dificuldades no acesso à habitação e falhas graves nos serviços públicos. A resposta está em aprofundar a democracia, recuperar a justiça social e devolver segurança e esperança às pessoas. Não está em transformar, de novo, os portugueses em figurantes obedientes do pensamento de um homem providencial.
Portugal não sofreu um “desvio à esquerda” quando conquistou a democracia. Deixou de ter governados sem voz e passou a ter cidadãos com direitos. Qualquer projeto político que pretenda corrigir essa conquista merece crítica frontal, memória histórica e resistência democrática.