"O Adamastor de hoje não é o mesmo dos Lusíadas, de Camões. O Adamastor muda sempre de forma (...) nunca desaparece, mas tem sempre um nome diferente.

Hoje chama-se opacidade, chama-se caixa negra, chama-se algoritmo que decide sem explicar", afirmou hoje José Seguro, numa referência ao prémio "Vencer o Adamastor", que distingue trabalhos inovadores de jovens cientistas.

O Chefe de Estado, que encerrou a 4.ª edição deste prémio na Faculdade de Ciência da Universidade do Porto (FCUP), ressalvou não estar a fazer um discurso contra a tecnologia, mas sim sobre as exigências que a democracia deve fazer, num tempo em que "sistemas de inteligência artificial tomam decisões que afetam diretamente" a vida.

"A democracia exige uma coisa muito simples, mas ao mesmo tempo muito difícil: que as decisões que afetam as pessoas possam ser compreendidas, contestadas e corrigidas pelas pessoas. Decisões controladas pelos seres humanos", acrescentou.

Perante o trabalho de Sérgio Jesus, doutorando da FUCP que venceu o prémio com a tese "Avaliação Robusta da Equidade e Explicabilidade em Inteligência Artificial", Seguro alertou que quando um algoritmo decide sem explicar o critério "não há responsabilidade", uma das exigências para que haja democracia.

"O risco maior não é a IA que decide mal, é a IA que decide mal e parece que decide bem. (...) Há uma diferença entre transparência aparente e transparência efetiva. Recordo uma coisa muito simples, uma regra básica: quer nos regimes autocráticos, quer nos democráticos, decide-se. Só que nos regimes democráticos não se decide apenas, delibera-se. E a diferença é que antes da decisão houve-se opiniões de toda a gente, minoritárias, maioritárias", declarou o Presidente da República, para alertar que a democracia está "profundamente em risco" se a IA "seguir um caminho sem qualquer regra".