Dez previsões de Jiang Xueqin, e o que delas se pode reter

As grandes transformações costumam começar antes de alguém as reconhecer. As instituições continuam a funcionar, os mercados a negociar, os governantes a garantir que está tudo sob controlo. Por baixo disso vão-se acumulando tensões capazes de alterar equilíbrios políticos, económicos e militares.

É dessas tensões que fala Jiang Xueqin, professor e comentador de geopolítica ligado ao projeto Predictive History, cujas análises têm ganho audiência nas plataformas digitais. Combina história, economia política, estratégia militar e teoria dos jogos para antecipar decisões dos Estados e apontar vulnerabilidades. Numa compilação recente das suas intervenções surgem dez previsões, que vão do investimento em inteligência artificial ao futuro da NATO, passando pelas criptomoedas, pela segurança no Médio Oriente e pelo peso crescente da América Latina.

O interesse está menos na hipótese de acertarem ao pormenor do que nos fatores que identificam. E convém ter presente, desde já, que uma previsão bem argumentada continua a ser uma previsão, não um facto demonstrado.

A bolha da inteligência artificial

A primeira previsão aponta ao setor que mais capital tecnológico atraiu nos últimos anos. Jiang considera que a corrida aos centros de dados, aos processadores especializados e a modelos cada vez maiores pode estar a abrir um fosso entre o dinheiro investido e o retorno económico real. O problema, na sua leitura, não é a utilidade da tecnologia, mas a velocidade a que os mercados já descontaram os seus benefícios.

Nvidia e OpenAI são os protagonistas desse ciclo, sustentado pela expectativa de que a IA transforme quase todos os setores. Jiang duvida de que a produtividade das empresas acompanhe a valorização.

Há alguma base empírica para a dúvida. Segundo um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) divulgado em fevereiro de 2026, com respostas de quase seis mil dirigentes empresariais nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Alemanha e na Austrália, cerca de 89% não detetaram qualquer efeito da IA na produtividade das suas organizações ao longo dos três anos anteriores. Isto não torna a tecnologia irrelevante. Mostra que adotá-la e colher ganhos de produtividade são coisas que não acontecem ao mesmo ritmo. A hipótese de Jiang é que uma revisão brusca de expectativas provoque uma correção forte nas avaliações das tecnológicas, com consequências que ultrapassariam o próprio setor.

Wall Street e o risco de contágio

A segunda previsão decorre da primeira. Os mercados bolsistas norte-americanos estão muito concentrados num número reduzido de grandes empresas tecnológicas, o que amplificaria o efeito de uma queda das suas cotações. O S&P 500 entra na composição de fundos de investimento, produtos de poupança e carteiras de pensões, pelo que uma correção acentuada chegaria a investidores bem fora dos Estados Unidos.

Jiang acrescenta que o modelo de valorização que favoreceu Wall Street durante décadas pode estar a esbarrar em limites estruturais: custos de financiamento, dependência de capitais externos, expectativas de crescimento tecnológico muito elevadas. O cenário que desenha é de contágio, com a desvalorização de ativos a condicionar o investimento, a pressionar instituições financeiras e a reduzir o crédito a empresas e famílias.

Não há, ainda assim, uma ligação automática entre uma correção bolsista e o colapso do sistema financeiro. A gravidade de qualquer crise dependeria da exposição dos investidores, da conjuntura económica e da resposta das autoridades monetárias.

Bitcoin: uma hipótese sem provas

Uma das teses mais controversas atribuídas a Jiang diz respeito à origem da Bitcoin. Admite que a criptomoeda possa não ser obra exclusiva de um criador anónimo, o pseudónimo Satoshi Nakamoto, e que tenha ligação a interesses dos serviços de informações norte-americanos.

Os argumentos são a capacidade técnica exigida para construir o sistema, a possibilidade de rastrear transações numa rede pública e o facto de o algoritmo criptográfico SHA-256 ter sido desenvolvido pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. Nenhum deles demonstra envolvimento governamental. Usar uma tecnologia criptográfica criada por uma instituição pública não diz quem concebeu o sistema que a incorpora. A própria transcrição analisada reconhece que Jiang não apresenta provas documentais. É especulação, e deve ser lida como tal.

A erosão institucional nos Estados Unidos

A quarta previsão passa dos mercados para o funcionamento do Estado norte-americano. Para Jiang, valorizar a lealdade pessoal e política acima da competência técnica e da experiência pode comprometer a capacidade da administração pública. Substituir quadros especializados por pessoas escolhidas sobretudo pela proximidade ao poder poria em risco a continuidade das políticas e a previsibilidade da governação. Chega a usar uma expressão particularmente dura para descrever o risco de um Estado dominado por relações pessoais.

O argumento recupera uma preocupação antiga da ciência política: as instituições sólidas precisam de regras estáveis, profissionais qualificados e mecanismos de responsabilização que não dependam só da vontade de quem governa. Já a previsão de uma deterioração profunda até ao fim de 2026 é uma avaliação do próprio Jiang, não um desfecho confirmado.

Irão e o regresso do recrutamento obrigatório

O conflito com o Irão ocupa lugar central. Jiang admite que uma operação terrestre prolongada dos Estados Unidos em território iraniano pressionaria de forma extraordinária as forças armadas norte-americanas. A dimensão do país, a população, o relevo montanhoso e os custos humanos e logísticos seriam obstáculos sérios. Daí especular que Washington pudesse ter de voltar ao recrutamento obrigatório.

O ponto de partida é um problema estratégico real: guerras terrestres longas exigem muito mais efetivos do que operações aéreas ou intervenções limitadas. Mas repor o serviço militar obrigatório dependeria de decisões políticas e legais específicas, e não decorre automaticamente de qualquer envolvimento militar. A transcrição inclui ainda hipóteses mais extremas sobre incentivos à participação de imigrantes nas forças armadas, sem evidência que as sustente. Ficam no domínio da conjetura.

A NATO pode enfraquecer sem desaparecer

Para os europeus, esta é talvez a previsão mais pesada. Jiang não aposta na dissolução formal da aliança. Sustenta que ela pode manter as estruturas e perder eficácia estratégica, e compara com o Pacto de Varsóvia, cuja influência política e militar se foi esvaziando à medida que mudava o equilíbrio de poder na Europa de Leste.

Se Washington concentrar as prioridades no Médio Oriente e no Indo-Pacífico, a segurança europeia pesaria menos nas suas contas, e os países europeus seriam empurrados para uma autonomia militar e financeira que ainda não têm. O desfecho dependerá também dos compromissos dos Estados-membros, do investimento em defesa, da evolução da guerra na Ucrânia e da capacidade de manter uma estratégia comum. A tese deixa uma pergunta mais útil do que o anúncio do fim da aliança: está a Europa preparada para garantir a sua segurança se o apoio norte-americano se tornar menos previsível?

China e Japão

Embora o confronto entre Washington e Pequim domine o debate, Jiang vê outro eixo perigoso na relação entre a China e o Japão. Taiwan, a segurança das rotas marítimas e a soberania das ilhas Senkaku, que a China chama Diaoyu, continuam a alimentar a tensão.

Na transcrição, dá especial peso às declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, segundo as quais um bloqueio chinês a Taiwan poderia ameaçar a própria sobrevivência do Japão. Quanto mais explícita for a ligação entre a segurança japonesa e o destino de Taiwan, mais poderá mudar o cálculo estratégico de Pequim. O Mar da China Oriental é uma zona crucial para o comércio internacional, para o abastecimento de energia e para a circulação de componentes industriais de que a economia mundial depende. Uma escalada entre os dois países teria por isso efeitos muito maiores do que as ilhas em disputa fariam supor.

A água como ponto fraco do Golfo

Das dez previsões, esta é uma das mais úteis para perceber a fragilidade das economias do Golfo Pérsico, porque lida com um recurso que raramente entra nos debates geopolíticos. Grande parte dos países da região depende da dessalinização para ter água potável. São infraestruturas muito especializadas, que exigem energia, manutenção constante e condições de segurança.

Jiang vê no facto de estarem concentradas e expostas um problema estratégico em caso de conflito. Um ataque a uma central de dessalinização podia cortar o abastecimento a populações urbanas inteiras e obrigar os governos a mobilizar meios extraordinários. A transcrição liga esta vulnerabilidade às tensões militares com o Irão e menciona ataques ocorridos em março de 2026. Mesmo que nem todos os episódios venham a ser confirmados individualmente, a questão de fundo mantém-se: países ricos continuam vulneráveis quando a sobrevivência quotidiana depende de poucas instalações. A água deixa de ser só um tema ambiental ou de desenvolvimento e entra nas contas da segurança nacional.

Estados Unidos e China: o sistema monetário

Outra previsão admite que Washington tente negociar com Pequim uma mudança profunda na relação cambial e comercial entre as duas potências. Jiang recorre ao Acordo do Plaza, de 1985, em que cinco grandes economias coordenaram medidas para corrigir desequilíbrios cambiais, com a desvalorização do dólar. Na sua leitura, a administração de Donald Trump poderia procurar um entendimento que desse mais competitividade à economia norte-americana e aliviasse parte da tensão comercial.

A analogia tem limites claros. A China de hoje não está face aos Estados Unidos na posição do Japão dos anos 1980. É uma potência económica, industrial e militar, com capacidade de resistência e interesses próprios, e qualquer tentativa de repetir a fórmula encontraria obstáculos sérios. Mais do que a hipótese de um acordo concreto, conta a questão que lhe está por baixo: a competição entre as duas maiores potências pode acelerar a reorganização dos circuitos financeiros e comerciais internacionais.

América Latina e os recursos estratégicos

A última previsão põe a América Latina no centro da rivalidade entre Washington e Pequim. A operação militar norte-americana na Venezuela, em janeiro de 2026, que levou à captura de Nicolás Maduro, é um facto documentado. Jiang propõe, porém, uma leitura mais ampla das motivações. Para ele, o interesse dos Estados Unidos na região vai além do petróleo venezuelano e das justificações oficiais ligadas ao narcotráfico, e o verdadeiro objetivo poderá ser limitar o acesso chinês a matérias-primas estratégicas sul-americanas.

Lítio, cobre e terras raras são cada vez mais necessários para baterias, eletrónica, sistemas de defesa e tecnologias de energia. Argentina, Bolívia e Chile estão no coração das reservas de lítio, e o Brasil tem jazidas importantes de minerais críticos e um peso económico decisivo no continente. Esta concentração de recursos dá à região um papel crescente na segurança económica das grandes potências.

Mas a existência de interesses minerais não prova que tenham sido a motivação principal da operação na Venezuela. Essa relação de causa e efeito continua a ser uma interpretação do professor, não uma conclusão comprovada. Para o Brasil, o problema estratégico já é suficientemente sério sem precisar de explicações especulativas: como manter autonomia diplomática e económica quando os dois maiores parceiros competem entre si?

O que as dez previsões têm em comum

Apesar de cobrirem áreas distintas, as análises convergem numa ideia: a ordem internacional construída nas últimas décadas está sob várias pressões em simultâneo. A globalização tornou os mercados interdependentes, o que traz ganhos comerciais e tecnológicos mas facilita também a propagação de crises entre países e setores. A competição tecnológica fez de empresas privadas atores estratégicos de primeira linha. A rivalidade entre grandes potências devolveu importância à segurança energética, às matérias-primas e às rotas comerciais, que pareciam ter perdido peso com o fim da Guerra Fria. E as instituições internacionais têm cada vez mais dificuldade em conciliar interesses nacionais divergentes.

Neste quadro, antecipar riscos vale muito, mas não equivale a prever o futuro. As teses de Jiang pedem distanciamento crítico, e convém separá-las em três grupos. Algumas descrevem vulnerabilidades estruturais identificáveis e merecem acompanhamento, como a dependência da dessalinização ou a concentração bolsista. Outras dependem de acontecimentos futuros incertos, como o recrutamento obrigatório ou o destino da NATO. E há hipóteses, como a origem governamental da Bitcoin, para as quais não existem provas. Misturar os três grupos seria confundir análise estratégica com profecia.

O que isto pode significar para Portugal e Cabo Verde

Para países de menor dimensão económica e geopolítica, estas transformações não são distantes. A evolução dos mercados financeiros, os custos da energia, as rotas marítimas, a segurança no Atlântico, a relação entre a Europa e os Estados Unidos e a reorganização das cadeias de abastecimento podem mexer diretamente com o investimento, o comércio, o turismo e o financiamento das economias.

Cabo Verde, arquipélago que depende muito das ligações internacionais, tem especial interesse na estabilidade das relações transatlânticas. A segurança marítima e energética, a diversificação da economia e a capacidade de construir parcerias com blocos diferentes exigem acompanhamento estratégico contínuo.

O contributo mais útil de Jiang Xueqin talvez seja esse: mostrar que acontecimentos aparentemente soltos podem fazer parte de movimentos estruturais mais fundos. Não obriga a acreditar em todas as previsões, só a perceber que riscos existem, a testar os pressupostos em que assentam e a preparar respostas.