Uma empresa portuguesa surge no centro de uma investigação estadunidense a uma alegada rede internacional criada para comprar helicópteros e componentes aeronáuticos destinados ao Irão, contornando as sanções impostas pelos Estados Unidos.

Diz o Público, que o caso envolve o Federal Bureau of Investigation (FBI) a partir da tentativa de compra de um motor avaliado em cerca de 210 mil dólares, e envolve intermediários e empresas não só em Portugal, mas também Uruguai, Alemanha, Suécia, Turquia, China e Estados Unidos.

A sociedade portuguesa é a Business United Unipessoal, Lda., propriedade do empresário português António Filipe Fortio Mira, de 33 anos.

A investigação estará integrada num processo civil de perda apresentado pelo Departamento de Justiça dos EUA, no qual o alvo formal é o bem que as autoridades pretendem confiscar e não uma pessoa, explica o Público.

A investigação tem como uma das figuras centrais Mehdi Shirazi Shayesteh, diretor executivo da Pasargad Helicopter Company (PHC), uma empresa iraniana dedicada ao comércio e manutenção de helicópteros.

O Departamento de Justiça sustenta que a PHC ajudava a adquirir aeronaves e peças para a Iran Helicopter Support and Renewal Company (PANHA), empresa estatal associada à manutenção da frota militar iraniana e sujeita a sanções estadunidenses  desde 2018.

Outro nome apontado pelo FBI é Amirhossein Salimi, cidadão iraniano com autorização de residência em Portugal através de um visto gold.

Controlava a uruguaia Perfect Day Co. SA e terá participado com Shayesteh na criação de uma estrutura europeia para comprar helicópteros e componentes em mercados ocidentais.

Um projeto de joint venture feito em maio de 2021 previa, segundo o jornal, a utilização da Business United como veículo para essas operações.

A PHC identificaria as necessidades e clientes no Irão e financiaria os negócios, enquanto a Perfect Day asseguraria a gestão da empresa portuguesa e prepararia a transferência de 51% da sua participação para a companhia iraniana.

A prime foi a compra de um helicóptero estadunidense através da Business United.

A aeronave terá depois passado para a Perfect Day e acabado nas mãos da PHC.

Ouvido pelo FBI em março de 2024, António Mira disse que Salimi lhe pedira ajuda, em 2021, para comprar o helicóptero através da empresa portuguesa.

Disse ter recebido dez mil euros pelo negócio e garantiu que deixou depois de controlar a sociedade.

Os registos comerciais consultados em Portugal não esclarecerão em que circunstâncias terá ocorrido esse afastamento.

O FBI terá encontrado referências à Business United noutras transações.

Em março de 2022, a PHC recebeu um email acompanhado por uma carta com o cabeçalho da empresa portuguesa, confirmando o pagamento de 37 mil

euros por uma válvula utilizada em motores aeronáuticos.

A mensagem terá sido enviada de um endereço IP localizado no Irão.

António Mira negou ter usado o endereço de email em causa ou ser o autor das mensagens e a investigação não conseguiu identificar quem controlava a

conta.

Nesse mesmo ano, a Business United terá estado também envolvida na compra de uma caixa de transmissão do rotor de cauda e de uma mangueira

para um helicóptero Airbus, num negócio de 54.500 dólares.

As peças foram inicialmente enviadas para uma empresa sueca e, segundo a documentação recolhida pelo FBI, transportadas para o Irão.

Mas foi uma operação iniciada em junho de 2023 que acabou por levar o caso aos tribunais estadunidenses Shayesteh procurava um motor Arriel 2B1, fabricado pela francesa Safran Helicopter Engines, que inclui componentes estadunidenses , ficando por isso abrangido pelas regras de controlo de exportações dos EUA.

O motor seria formalmente comprado pela Business United. Um corretor indiano contactou para esse efeito a Cobra International, empresa de Nova Jérsia que fornece peças e serviços aeronáuticos.

Um responsável da Cobra declarou ao FBI que já tinha participado noutros sete negócios relacionados com a sociedade portuguesa.

O equipamento acabou por ser localizado na China, escreve o Público.

Segundo os investigadores, a Business United transferiu 209.900 dólares em dois pagamentos para financiar a compra.

A operação fracassou devido a problemas alfandegários e o motor ficou durante meses impedido de sair do país.

Os investigadores do FBI encontraram 153 contactos entre o corretor envolvido na operação e um número iraniano atribuído a Salimi.

O motor deveria ainda passar por uma empresa sueca já associada a anteriores remessas antes de chegar ao seu alegado destino final.

O Departamento de Justiça considerou existir causa provável para concluir que o equipamento fora comprado em benefício da PHC sem a licença necessária das autoridades estadunidenses q. Em dezembro de 2024, pediu judicialmente o seu confisco e o motor foi entregue às autoridades em janeiro de 2025.

A investigação teve novas consequências em outubro do ano passado, quando o Departamento do Tesouro incluiu a Business United e António Mira numa lista de sanções por alegado apoio a redes relacionadas com os programas militares iranianos. Os bens de ambos sob jurisdição dos Estados Unidos ficaram congelados e cidadãos e empresas norte-americanas passaram a estar proibidos de realizar transações com eles.

O ex-presidente do Conselho de Administração do Grupo TAP, Miguel Frasquilho estava ligafo à Business United,

O antigo presidente da AICEP e ex-chairman da TAP.

Frasquilho diz que nunca foi sócio da empresa e que iniciou apenas em 2023 uma colaboração informal, não executiva e não remunerada, baseada na amizade com António Mira.

E garantiu ao Público que não teve qualquer intervenção na compra ou venda de helicópteros ou componentes aeronáuticos.

O s documentos estadunidenses  analisados pelo jornal não o identificam como participante nas operações nem lhe atribuem responsabilidade pelos factos investigados.

Frasquilho terminou a colaboração com a empresa em setembro ou outubro de 2025, reconhecendo que a investigação estadunidense pesou nessa decisão.