Segundo a agenda de Mumbai os BRICS começam a avançar na construção de uma arquitetura financeira mais multipolar.
Em vez da criação imediata de uma moeda comum, hipótese que dominou boa parte do debate internacional nos últimos anos, ganha força uma estratégia mais concreta: ampliar gradualmente o uso de rúpias, yuans, reais e outras moedas nacionais nas transações, nos financiamentos e na captação de recursos.
O objetivo é reduzir custos, riscos cambiais e a vulnerabilidade das economias emergentes diante de choques externos, ao mesmo tempo em que se fortalecem os mercados financeiros dos próprios países do bloco.
É nesse processo que o banco presidido por Dilma Rousseff assume importância crescente pois o NDB pretende deixar de atuar apenas como financiador direto de grandes projetos para funcionar também como catalisador de volumes muito maiores de recursos.
A estratégia passa por oferecer garantias, compartilhar riscos, estruturar projetos, realizar cofinanciamentos e utilizar seu balanço para atrair investidores privados para infraestrutura, transição energética, transformação digital e desenvolvimento sustentável.
Para o seu próximo ciclo estratégico, de 2027 a 2031, o NDB pretende elevar para algo entre 40% e 50% a participação dos financiamentos realizados em moedas locais.
As operações não soberanas deverão representar 35% dos financiamentos, enquanto 45% serão direcionados ao financiamento climático.
O banco também pretende cofinanciar entre 20% e 30% de seus projetos com outras instituições de desenvolvimento, multiplicando sua capacidade de mobilização de recursos.
Na Índia, essa estratégia já começa a assumir uma forma concreta.
O NDB prepara um programa de emissão de aproximadamente 250 biliões de rúpias, equivalentes a cerca de US$ 2,5 biliões, ao longo de cinco anos. Somados aos aproximadamente US$ 5 biliões previstos em empréstimos soberanos no país durante o mesmo período, os investimentos projetados pelo banco na Índia chegam a US$ 7,5 biliões.
O NDB já aprovou cerca de US$ 10,5 biliões para 35 projetos indianos.
Segundo Dilma esta estrategia deverá alcançar o real brasileiro num princípio importante captar recursos na moeda do país para financiar projetos nessa mesma moeda diminui a exposição ao câmbio e permite que economias emergentes financiem sua infraestrutura sem assumir riscos associados ao dólar ou a outras moedas internacionais.
Não se trata, portanto, simplesmente de uma ofensiva contra o dólar.
Está-se a fazer nascer uma arquitetura na qual os países do Sul Global tenham mais moedas, mais instituições financeiras, mais fontes de financiamento e, maior autonomia para decidir como financiar seu próprio desenvolvimento.
Dilma Rousseff está pois a assumir um papel cada vez mais central na arquitetura financeira do mundo multipolar. E há uma extraordinária reparação histórica nesse processo.
Tudo está a acontecer exatamente dez anos depois do golpe de Estado parlamentar que a afastou da Presidência do Brasil.
Em 2016, os seus adversários conseguiram retirá-la do Palácio do Planalto.
Uma década depois, Dilma preside uma instituição criada pelos BRICS que ganha importância justamente quando o sistema financeiro internacional atravessa uma de suas maiores transformações desde o fim da Guerra Fria.