Não preciso de ser católico para considerar inaceitável a humilhação de um símbolo religioso. Ser laico e republicano obriga-me a defender a liberdade de quem acredita, com a mesma convicção com que defendo o direito de não acreditar.
Nossa Senhora Aparecida merece esse respeito. Para milhões de brasileiros, a pequena imagem representa uma devoção transmitida entre gerações. Reduzi-la a um objeto de provocação ou a um instrumento de campanha é desprezar a relação que essas pessoas têm com a sua fé.
Segundo a história divulgada pelo Santuário Nacional, a origem dessa devoção remonta a 1717, quando três pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora da Conceição nas águas do rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, em São Paulo. O relato pertence à tradição religiosa que esteve na origem do culto de Aparecida.
A imagem foi solenemente coroada em 8 de setembro de 1904. Em julho de 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, seguindo-se uma grande cerimónia no Rio de Janeiro, em 31 de maio de 1931.
O reconhecimento civil do feriado chegou mais tarde. A Lei n.º 6.802, sancionada por João Figueiredo em 30 de junho de 1980, declarou feriado nacional o dia 12 de outubro. Convém distinguir a data da lei da data da celebração.
Esta história ajuda a perceber a gravidade do episódio que ficou conhecido como o «chute na santa». Em 12 de outubro de 1995, Sérgio Von Helder, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, pontapeou e deu socos numa imagem de Nossa Senhora Aparecida durante uma emissão televisiva da Record. A Folha de S.Paulo noticiou o caso no dia seguinte.
Mas a indignação também exige rigor. Esse episódio ocorreu em 1995. Não pode ser apresentado como um ato cometido por bolsonaristas sem provas que sustentem essa ligação. A crítica perde força quando troca a responsabilidade identificada por uma associação política conveniente.
A disputa atual oferece matéria suficiente para escrutínio. Em setembro, Flávio Bolsonaro acusou pessoas ligadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de ajudarem a divulgar a informação falsa de que pretendia retirar a Aparecida o título de padroeira. A CNBB negou participação na produção ou divulgação dessa desinformação.
A alegação sobre a retirada do título era, de facto, falsa. Confundi-la com uma proposta atual do candidato também não protege os católicos. Explora a sua devoção para provocar medo e obter vantagem eleitoral.
Um candidato pode contestar posições de bispos e instituições religiosas. Deve, porém, sustentar aquilo que afirma. Procurar o voto dos católicos e atacar os seus representantes quando estes incomodam é uma contradição que merece ser discutida.
O mesmo critério vale para comentadores e apoiantes políticos que invocam a sua identidade católica. A pertença religiosa não lhes confere superioridade moral nem os dispensa de avaliar os comportamentos daqueles que defendem.
Aparecida não precisa de ser transformada numa bandeira contra evangélicos, nem os evangélicos podem ser responsabilizados em conjunto pelo gesto de um dirigente. Essa generalização reproduziria a intolerância que se pretende condenar.
Uma República deve garantir que ninguém precisa de humilhar a fé alheia para exercer a sua. E quem leva a religião para o combate eleitoral deve aceitar uma exigência elementar: respeitar os crentes, respeitar os não crentes e dizer a verdade.
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