O evento, realizado no Club Homs, na Avenida Paulista, em São Paulo, expõe um distanciação  que os dados públicos confirmam.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da população brasileira se autodeclara preta ou mestiça — 56,1%, conforme o Censo mais recente.

No entanto, um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos(Inesc) mostra que, após as eleições de 2022, só 26,2% das cadeiras do Congresso Nacional foram ocupadas por parlamentares negros ou mestiços, patamar que tem vindo a subir demasiado lentamente desde os 20% registrados em 2014.

No Senado, o quadro é ainda mais desigual: apenas seis dos 27 homens eleitos em 2022 se declararam negros ou mestiços, e nenhuma das quatro mulheres eleitas era preta ou ou mestiça.

É essa distância — entre um eleitorado maioritariamente negro e um Legislativo que continua maioritariamente branco — que o Quilombo nos Parlamentos tenta reduzir, com uma característica que o diferencia de outras iniciativas do gênero: a abrangência nacional.

As 150 pré-candidaturas presentes no lançamento vieram de mais de 20 estados, entre eles Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e o Distrito Federal, segundo registrou o Brasil de Fato.

Essa capilaridade é o que dá à iniciativa uma força distinta de mobilizações locais: em vez de concentrar esforços em um único estado ou região, o Quilombo nos Parlamentos tenta construir uma bancada suprapartidária espalhada por todo o país, capaz de pressionar simultaneamente assembleias legislativas estaduais e o Congresso Nacional.

A iniciativa não nasceu agora. Criada nas eleições de 2022, ela já havia apoiado mais de 100 candidaturas, que somaram 4 milhões de votos e resultaram na eleição de 26 parlamentares negros para o Congresso Nacional e assembleias estaduais, segundo a Geledés.

Para 2026, a meta é superar esse número, com a Coalizão Negra por Direitos — que reúne mais de 300 organizações do movimento negro — mirando não apenas a eleição de mais nomes, mas o fortalecimento de uma agenda comum entre eles.

As 15 propostas do manifesto

O documento apresentado no lançamento traz recomendações dirigidas a candidatos, partidos, à Justiça Eleitoral e à sociedade civil.

Entre os pontos centrais estão a criação de comissões permanentes de heteroidentificação racial dentro dos partidos e da Justiça Eleitoral — mecanismo pensado para impedir que candidaturas sem pertencimento negro se apropriem de recursos das cotas raciais —, a garantia de repasse proporcional do fundo eleitoral e do tempo de propaganda para candidaturas negras, e a criação de canais de denúncia para casos de violência política racial e de gênero.

A candidatura ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), participou do lançamento e resumiu o problema de forma direta: “tem alguma coisa fora do lugar”, disse, ao comparar a composição do Congresso Nacional com a realidade demográfica do país.

Já a candidata ao Senado por São Paulo, Marina Silva (Rede), reforçou que a sub-representação atual “não faz jus” ao tamanho da população negra brasileira.

Também estiveram presentes no evento nomes como Benedita da Silva(PT-RJ), Paulo Paim (PT-RS), Anielle Franco (PT-RJ), Leci Brandão (PC do B-SP), Áurea Carolina (Psol-MG), Orlando Silva (PC do B-SP), Talíria Petrone (Psol-RJ) e Erika Hilton (Psol-SP), entre outras lideranças de diferentes legendas — reforçando o caráter suprapartidário que a organização reivindica para a iniciativa.

A força política do Quilombo nos Parlamentos no efeito de coordenação nacional que a iniciativa procura  produzir: ao articular pré-candidatos de mais de 20 estados em torno de um mesmo manifesto, a coalizão cria um bloco capaz de negociar coletivamente com partidos e de fiscalizar, de forma unificada, o cumprimento das regras de repasse de recursos das cotas raciais — obrigação que a própria Justiça Eleitoral já reconhece como historicamente descumprida por parte das legendas.

A persistência da distância entre os 56% da população negra e pouco mais de um quarto das cadeiras do Congresso mostra que a representação não avança automaticamente com o tempo: avança quando há organização política deliberada, como a que ficou visível na Avenida Paulista na quarta.