Braços no ar. Telemóveis levantados. Gritos. Coros espontâneos. Sorrisos. Dança. Uma multidão compacta que parecia ter decidido, coletivamente, que naquela noite ninguém iria economizar entusiasmo.
Se alguém chegou à Atalaia pensando que ia assistir a um respeitável encontro entre dois músicos consagrados, enganou-se.
Aquilo rapidamente se transformou numa celebração.
E das grandes.
Ney Matogrosso completou 85 anos no passado dia 1 de agosto.
Seria, por isso, perfeitamente compreensível que a sua presença no Avante! assumisse o formato clássico reservado às grandes figuras: homenagem, contemplação, memória, aplauso respeitoso e talvez alguma nostalgia.
Só que Ney parece ter um problema persistente com aquilo que é esperado dele.
Em vez de aparecer como monumento, apareceu como artista.
Em vez de pedir licença à idade, ocupou o palco.
E em vez de receber uma plateia respeitosamente emocionada, encontrou uma multidão que reagiu com uma intensidade quase desconcertante.
A idade estava no bilhete de identidade.
No palco, convenhamos, não apareceu.
O encontro não nasceu ontem.
A relação artística entre Pedro Jóia e Ney Matogrosso começou há mais de duas décadas e passou por discos, concertos e digressões.
Em 2003, Ney participou em Jacarandá, de Pedro Jóia. Mais tarde, o guitarrista português integrou a banda do cantor brasileiro, participando em projetos como Vagabundo e Canto em Qualquer Canto.
Ou seja, aquilo que se viu no palco da Festa do Avante! não foi uma colaboração inventada para preencher um cartaz.
Era uma relação musical amadurecida ao longo dos anos.
E isso percebeu-se.
Havia entendimento, espaço, respeito e aquela coisa impossível de escrever numa pauta musical: confiança.
Pedro Jóia tocava.
Ney interpretava.
O público completava o resto.
Portugal não é propriamente famoso pela exuberância coletiva.
Gostamos de bater palmas.
Às vezes até de pé.
Com moderação, claro.
Na Quinta da Atalaia, porém, alguma coisa correu mal ao tradicional sistema nacional de contenção emocional.
O público vibrou.
E vibrou mesmo.
Não apenas nas primeiras filas onde, por obrigação profissional ou juvenil, costuma existir mais movimento.
A energia atravessou a multidão.
As imagens mostram uma verdadeira parede humana, com milhares de braços erguidos, pessoas a cantar, fotografar, filmar e celebrar um homem que começou a desafiar convenções quando grande parte daquele público ainda nem tinha nascido.
Há ironias deliciosas.
Uma delas é ver um artista de 85 anos recordar a uma multidão de várias gerações como se ocupa um palco sem pedir desculpa.
Ney Matogrosso tornou-se conhecido no Brasil no início dos anos 1970 com os Secos & Molhados.
Num país governado por uma ditadura militar, apareceu de rosto pintado, corpo exposto, gestos provocadores, voz impossível de confundir e uma identidade artística que parecia ter sido criada especificamente para irritar qualquer manual de comportamento conservador.
Funcionou.
Mais de cinquenta anos depois, ainda funciona.
A diferença é que aquilo que antes escandalizava hoje é reconhecido como parte fundamental da história da música brasileira.
O artista que durante décadas desafiou fronteiras estéticas, sexuais, culturais e sociais acabou transformado numa instituição.
O que é, por si só, bastante divertido.
Porque Ney continua a comportar-se como se ninguém lhe tivesse contado.
Pedro Jóia já chamou Ney Matogrosso de “farol de liberdade”.
Talvez não exista definição mais adequada para explicar a escolha deste convidado num palco chamado, precisamente, 25 de Abril.
Era difícil não reparar no simbolismo.
Um artista brasileiro que atravessou os anos de chumbo da ditadura do seu país.
Um músico português.
Uma festa profundamente ligada à história política da democracia portuguesa.
E uma multidão a celebrar liberdade através da música.
Tudo isto sem necessidade de um PowerPoint explicativo.
Às vezes a cultura consegue fazer aquilo que os discursos políticos demoram horas a tentar explicar.
A Festa do Avante! celebra este ano a sua 50.ª edição.
Ney Matogrosso tem uma carreira profissional que atravessa praticamente todo esse período.
Num mesmo palco encontraram-se, portanto, duas histórias de resistência ao tempo.
Uma festa que nasceu em 1976.
Um artista cuja projeção começou ainda antes disso.
Seria tentador transformar a noite numa cerimónia histórica.
Mas o público recusou colaborar.
Porque ninguém parecia particularmente interessado em contemplar o passado.
Queriam música.
E receberam-na.
Existe uma obsessão contemporânea pela juventude.
Na música, na publicidade, nas redes sociais, na televisão.
Tudo tem de ser novo, rápido, imediato, viral.
Depois aparece Ney Matogrosso, aos 85 anos, num palco diante de uma multidão, e cria um pequeno problema conceptual.
Porque talvez vitalidade não seja exatamente aquilo que consta no cartão de cidadão.
Talvez presença não se compre com seguidores.
Talvez carisma não tenha algoritmo.
E talvez algumas das figuras mais modernas da cultura contemporânea tenham nascido antes de grande parte das pessoas que hoje usam a palavra “disruptivo”.
Ney não precisou de explicar nenhuma destas coisas.
Cantou.
Foi suficiente.
O concerto de Pedro Jóia com Ney Matogrosso foi também aquilo que tantas iniciativas oficiais tentam produzir com dezenas de reuniões, protocolos e discursos: uma verdadeira ponte entre Portugal e Brasil.
Uma guitarra portuguesa dialogando com uma das vozes mais singulares da música brasileira.
Duas histórias culturais diferentes.
Uma linguagem comum.
E nenhuma necessidade de tradução.
No palco, essa relação surgiu naturalmente.
Na plateia, a resposta foi ainda mais simples.
O público reconheceu-a.
E respondeu.
Quando se olha para as fotografias daquela noite, há uma pergunta inevitável.
Quem estava ali a dar energia a quem?
Era a multidão a alimentar Ney Matogrosso?
Ou era Ney a arrastar milhares de pessoas para dentro daquela intensidade?
Provavelmente as duas coisas.
É isso que distingue um grande espetáculo de uma simples atuação.
Chega um momento em que palco e plateia deixam de funcionar como territórios separados.
E foi isso que aconteceu na Atalaia.
Durante alguns minutos, ou algumas canções, ninguém parecia preocupar-se demasiado com idades, gerações ou classificações.
Havia apenas música.
E um público completamente entregue.
Talvez esta seja a conclusão mais inconveniente da noite.
Ney Matogrosso continua perigosamente vivo.
Perigosamente livre.
Perigosamente presente.
Num mundo onde artistas são frequentemente transformados em marcas cuidadosamente administradas, Ney continua a transmitir a impressão de que pertence apenas a si próprio.
Foi assim que construiu a carreira.
E foi assim que apareceu no Avante!.
O resultado estava à vista.
Uma multidão em delírio diante de um homem de 85 anos que, aparentemente, ainda não descobriu a idade adequada para deixar de provocar, emocionar e surpreender.
Talvez nunca descubra.
E, vendo a forma como o público vibrou na Quinta da Atalaia, ninguém parece ter grande pressa que descubra.