As mortes de membros da ANAMOLA voltaram a colocar a violência política no centro do debate em Moçambique.

A formação liderada por Venâncio Mondlane denuncia uma campanha de perseguição contra os seus militantes e reclama investigações independentes, enquanto organizações da sociedade civil exigem respostas das autoridades e uma posição pública do Presidente da República, Daniel Chapo.

Entre os casos mais recentes está o de Araújo Tendence, mobilizador da ANAMOLA no distrito de Mopeia, na província da Zambézia. Segundo informações prestadas pelo partido e divulgadas pela agência Lusa, Tendence foi morto a tiro na sua residência, no Posto Campo, ao início da noite de 9 de outubro. As referências ao seu nome e ao homicídio de um militante em Mopeia nessa data dizem respeito ao mesmo caso.

A morte ocorreu menos de um mês depois do homicídio de Ilídio Facitela Gustavo, mobilizador do partido no distrito de Morrumbene, em Inhambane. Em setembro, a ANAMOLA denunciou o seu rapto e posterior morte, tendo pedido uma investigação independente. Mondlane afirmou que Gustavo integrava o grupo de testemunhas indicadas para o seu julgamento no Tribunal Supremo. Essa circunstância foi apresentada pelo dirigente, mas não demonstra, por si só, uma ligação entre o crime e o processo judicial.

Em setembro, o porta-voz Alberto Manhique anunciou que o partido contabilizava 57 membros mortos desde a sua criação, em agosto de 2025. Em outubro, Mondlane referiu um total próximo de 60. Trata-se de um levantamento partidário: as fontes consultadas não permitem confirmar de forma independente a totalidade dos casos, as circunstâncias de cada morte ou a existência de uma motivação política comum.

As denúncias abrangem também alegados raptos, torturas e atentados. No caso de Cândido António, da KaTembe, em Maputo, a ANAMOLA acusa agentes policiais de o terem detido e submetido a agressões. Sobre outros episódios, o partido aponta suspeitas de envolvimento de elementos das forças de segurança. Estas acusações exigem apuramento independente e não equivalem a responsabilidades judicialmente estabelecidas. Não foi localizada, nas fontes consultadas, uma resposta específica da PRM a estes episódios recentes.

A pressão sobre a Presidência ganhou expressão numa entrevista à DW, publicada a 13 de outubro. André Mulungo, do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), considerou que a ausência de uma intervenção pública de Daniel Chapo poderia ser interpretada como um «silêncio cúmplice». A expressão traduz a avaliação do responsável da organização, não uma conclusão sobre a participação do chefe de Estado nos crimes. Mulungo defendeu investigações céleres e independentes e alertou para o efeito intimidatório destas mortes sobre a participação política.

A preocupação tem antecedentes documentados. Num relatório publicado em abril de 2025, a Human Rights Watch investigou dez homicídios de figuras da oposição, recorrendo a entrevistas com testemunhas, familiares, jornalistas e polícias. A organização identificou indícios de motivação política e criticou a falta de esclarecimentos sobre as investigações. O relatório antecede a criação formal da ANAMOLA e não deve ser confundido com a contagem posteriormente apresentada pelo partido.

Entre os crimes que continuam a marcar o país está o duplo homicídio do advogado Elvino Dias e de Paulo Guambe, representante do Podemos, ocorrido em Maputo em outubro de 2024. Dois anos depois, Mondlane renovou o pedido de uma investigação independente. Segundo informação da Lusa publicada em 19 de outubro de 2026, o procurador-geral anunciara em abril a detenção de duas pessoas no âmbito do processo, mas continuava sem ser conhecido um esclarecimento judicial conclusivo.

A exigência de responsabilização permanece, por isso, no centro das intervenções das organizações de direitos humanos. Identificar os executantes, apurar eventuais mandantes e tornar públicos os resultados das investigações são medidas que estas organizações consideram necessárias para proteger a participação política e contrariar a impunidade.