O Porto perdeu esta segunda-feira, 7 de setembro, uma das figuras que marcaram a transformação da cidade no final do século XX e início do novo milénio.

Nuno Cardoso, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, morreu aos 64 anos, no Hospital de Santo António, onde se encontrava internado devido a doença prolongada.

Nuno Magalhães da Silva Cardoso, nascido no Peso da Régua a 31 de outubro de 1961, era engenheiro civil de formação. A sua ligação à política autárquica portuense começou em 1990, quando assumiu funções como assessor do então presidente da Câmara, Fernando Gomes. Ficou desde cedo ligado às áreas do planeamento urbano e dos transportes, participando no desenvolvimento da estratégia de mobilidade da cidade e sendo associado à conceção da rede que viria a dar origem ao Metro do Porto.

Da mobilidade à presidência da Câmara

Em 1998, Nuno Cardoso tornou-se vice-presidente da autarquia, com responsabilidades na área do urbanismo. No ano seguinte, depois da saída de Fernando Gomes para o Governo de António Guterres, assumiu a presidência da Câmara Municipal do Porto, cargo que exerceu entre 1999 e o início de 2002.

Foi um período particularmente marcante para a cidade. Nuno Cardoso esteve associado a alguns dos grandes projetos que redefiniram o Porto no virar do século, entre os quais o desenvolvimento do Metro do Porto e a realização do Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura.

A mobilidade permaneceria, aliás, um dos temas centrais do seu pensamento sobre a cidade durante toda a sua vida política.

Voltou à política para disputar novamente o Porto

Depois de vários anos afastado da presidência da autarquia, Nuno Cardoso voltou a concorrer à Câmara em 2013, como independente, numa eleição que seria ganha por Rui Moreira. Em 2025 voltou novamente à corrida autárquica, encabeçando a candidatura “Porto Primeiro”.

Na última campanha, apresentou propostas especialmente ambiciosas para a habitação e mobilidade. Entre elas estava o objetivo de colocar 20 mil habitações no mercado de renda acessível e aumentar substancialmente a frequência dos transportes públicos, defendendo que os autocarros da STCP deveriam circular, nas principais linhas, com intervalos próximos dos cinco minutos.

Defendeu igualmente políticas destinadas a reforçar a segurança urbana, combater situações de sem-abrigo e responder aos desafios associados ao envelhecimento da população e à integração de imigrantes.

Um dos projetos mais marcantes apresentados nessa candidatura foi a proposta de criação de uma Zona Económica Especial do Parque de Ramalde, envolvendo uma intervenção de grande escala numa área de aproximadamente 100 hectares, com espaços verdes, novas habitações a custos controlados e alterações estruturais à Avenida AEP.

Da engenharia à Universidade

Paralelamente à política, Nuno Cardoso manteve uma carreira académica e profissional ligada à engenharia e ao planeamento. Era, à data da sua morte, professor auxiliar convidado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), no Departamento de Engenharia Informática.

Foi também presidente da Águas do Douro e Paiva, acrescentando à sua experiência autárquica responsabilidades na gestão de infraestruturas estratégicas da região Norte.

Porto presta homenagem ao antigo presidente

A morte do antigo autarca provocou numerosas manifestações de pesar. O atual presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, recordou o contributo de Nuno Cardoso para a cidade e salientou que, ainda este ano, teve oportunidade de lhe entregar a Medalha de Honra da Cidade do Porto, reconhecimento pelo seu percurso e serviço à comunidade.

A Câmara Municipal decidiu ainda decretar dois dias de luto municipal em homenagem ao antigo presidente.

Também Rui Moreira, que presidiu ao município entre 2013 e 2025, lamentou a perda de alguém que considerava amigo desde 2000. Já Rui Rio, sucessor de Nuno Cardoso na Câmara, afirmou que o antigo autarca “partiu cedo demais”. O FC Porto, clube de que Nuno Cardoso era adepto, recordou-o como uma figura marcante da vida política e cívica da cidade.

As homenagens ultrapassaram as fronteiras partidárias, revelando uma dimensão do percurso de Nuno Cardoso que vários antigos adversários políticos fizeram questão de recordar: a capacidade de distinguir o confronto político das relações pessoais e institucionais.

Última despedida entre o Porto e a Régua

De acordo com informação divulgada pela família, o corpo de Nuno Cardoso segue para a Igreja da Lapa, no Porto, onde ficará em câmara ardente. A missa de corpo presente realiza-se na terça-feira, seguindo depois o funeral para o Peso da Régua, sua terra natal, onde terá lugar a última despedida junto da família e amigos mais próximos.

Nuno Cardoso parte aos 64 anos, mas deixa o seu nome ligado a um momento decisivo da história contemporânea do Porto: a construção do Metro, a renovação urbana associada ao Porto 2001 e a discussão permanente sobre como tornar a cidade mais habitável, móvel e socialmente equilibrada.

Mesmo depois de ter deixado a presidência da Câmara, continuou a regressar ao debate sobre o futuro da cidade. A candidatura de 2025 acabou por ser uma última demonstração dessa ligação: quase um quarto de século depois de ter dirigido os destinos da Invicta, Nuno Cardoso continuava a querer pensar e discutir o Porto.

RIP Nuno Cardoso — 1961-2026.