Moçambique importa anualmente cerca de 600 mil toneladas de arroz e 700 mil toneladas de trigo para responder às necessidades do mercado nacional.

Os números foram divulgados pelo Instituto de Cereais de Moçambique (ICM, IP) e confirmam a elevada dependência do país em relação ao abastecimento externo de dois produtos essenciais.

A informação foi apresentada pelo director-geral do ICM, Luís José Jobe Fazenda, durante a quarta edição do fórum internacional Afro World Agri Food 2026, realizada em Nairobi, no Quénia. Fazenda participou como convidado de honra na abertura do encontro, a 4 de agosto, e apresentou a experiência moçambicana na gestão das importações de cereais.

Segundo o responsável, o país adquire arroz e trigo em diferentes mercados europeus, americanos e asiáticos, incluindo a Índia, um dos principais fornecedores de arroz a Moçambique.

“Esperamos continuar a fazer parcerias para inverter este cenário”, afirmou Luís Fazenda, defendendo a mobilização de investimento privado para a produção e o agroprocessamento daqueles cereais.

O director-geral considera que os volumes importados demonstram a existência de um mercado interno suficientemente amplo para sustentar novos investimentos agrícolas. O convite dirigido aos empresários indianos abrange a produção de arroz e trigo, mas também a instalação de unidades de descasque, empacotamento e moagem.

A intenção é substituir progressivamente uma parte das importações, abastecer o mercado nacional e exportar quando existirem excedentes. O ICM procurou igualmente atrair investimentos para o fomento do feijão-bóer, gergelim, soja e castanha de caju, produtos com procura no mercado indiano e potencial para gerar divisas para Moçambique. 

A dimensão financeira da dependência é igualmente expressiva. Segundo dados do Banco de Moçambique citados pela Lusa, o país gastou 359,1 milhões de dólares na importação de arroz e 272,5 milhões na compra de trigo em 2025. No total, foram 631,6 milhões de dólares, correspondentes a aproximadamente 28% das importações nacionais de bens de consumo nesse ano.

Nos primeiros três meses de 2026, a factura conjunta já tinha atingido 144,6 milhões de dólares: 98,5 milhões em arroz e 46,1 milhões em trigo. 

A África do Sul e a China mantêm-se entre os principais fornecedores globais de bens e serviços a Moçambique. A Índia, os Emirados Árabes Unidos e outros parceiros assumem também posições relevantes, embora as respectivas quotas variem ao longo do ano. No quarto trimestre de 2025, o Instituto Nacional de Estatística identificava África do Sul, China, Emirados Árabes Unidos e Índia como os quatro maiores fornecedores do país. Estes dados referem-se ao conjunto das importações moçambicanas e não apenas ao arroz e ao trigo.

Desde 2026, o ICM passou a desempenhar um papel central na coordenação das importações destes dois cereais. O Diploma Ministerial n.º 132/2025, de 31 de dezembro, designou o instituto como agente do Estado para conduzir o processo, com aplicação a partir de 1 de fevereiro para o arroz e de 1 de maio para o trigo. 

O mecanismo operacional foi posteriormente regulamentado pelo Diploma Ministerial n.º 31/2026, de 24 de abril. Compete agora ao instituto registar os importadores, validar as encomendas, emitir certificados de autorização, acompanhar os embarques e contribuir para a constituição da reserva estratégica nacional. O Governo sustenta que o modelo permitirá melhorar a transparência, controlar a saída de divisas e reforçar a estabilidade do abastecimento.

O sector privado manifestou, contudo, preocupações quanto ao impacto do novo regime sobre os operadores, os postos de trabalho e os investimentos já realizados. O Executivo garantiu que os importadores habituais e as respectivas marcas não seriam afastados do mercado, ficando sujeitos aos procedimentos coordenados pelo ICM.

Entre a necessidade imediata de assegurar arroz e trigo para o consumo nacional e a ambição de reduzir as importações, Moçambique tem agora um mercado anual de cerca de 1,3 milhões de toneladas para apresentar aos investidores. O desafio será transformar essa procura em produção nacional, capacidade de processamento e emprego dentro do país.