Tão necessária como ordenadora da vida em sociedade, salvaguardando direitos caros aos cidadãos, nossa incipiente democracia tem sobrevivido na corda-bamba, erguendo-se de ataques golpistas, como o impeachment sofrido pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, e esquivando-se de tentativas de golpe, como a liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal pela tentativa de golpe de Estado para impedir a posse do presidente Lula nas eleições de 2022.

Nós, da geração Millennial (nascidos entre 1981 e 1996), maior contingente eleitoral do país, segundo informações do TSE, que crescemos junto com a democracia, acompanhamos todas as suas fases, tomados, ora por esperança, ora por desolação. Talvez por isso essa geração seja, também, a que mais tem se ressentido com a conjuntura atual, cedendo aos discursos disruptivos na política.

De acordo com a pesquisa realizada pela AtlasIntel, os mais jovens, representados pelos Millennials e pela geração Z, declaram ter uma preferência política à direita. Entre os Millennials, 51% se dizem de direita e centro-direita, 31 % de esquerda, 5% de centro e 12% não seguem nenhuma posição política. Esse movimento, porém, não é homogêneo. Os dados apontam mudanças ideológicas de acordo com o gênero, revelando que os homens jovens se identificam com a direita, enquanto as mulheres jovens, mais com a esquerda.

O que esses dados apontam é que, se por décadas a juventude foi identificada aos movimentos progressistas, reivindicando pautas coletivas e enfrentando o conservadorismo, as novas demandas sociais e uma crescente crise de representação política fizeram essa realidade mudar. É nesse contexto marcado por mudanças de valores e pelo pessimismo com a “velha política”, que encontram terreno fértil os populismos autoritários, fenômeno presente em várias partes do mundo, mas que possui características específicas à realidade brasileira.

Em partes, esse movimento pode ser explicado por um sentimento nostálgico ligado às grandes mudanças econômicas e sociais acompanhadas por essa geração no início do governo do PT. Período de crescimento do poder aquisitivo, mudanças no padrão de consumo e redução do abismo social, o primeiro governo de Lula, que sucedeu um momento de instabilidade e desaceleração econômica vivido pelo país, foi marcado por transformações materiais e simbólicas importantes, sobretudo para a classe média. Mais de duas décadas depois, tendo suas vidas marcadas pela promessa de mobilidade social, os Millennials deparam-se com uma realidade diferente. Estudos recentes mostram que, embora a renda nominal tenha subido, o poder aquisitivo real dessa geração não se traduziu em um padrão de vida superior ao das gerações anteriores.

Demandas cada vez mais exigentes de consumo, acompanhadas por uma vertiginosa expansão tecnológica, pressão financeira, aumento do custo de vida, desvalorização dos diplomas e a precarização dos postos de trabalho - que se traduzem em uma grande frustração da geração que cresceu sonhando com a ascensão social - são algumas das explicações que levam ao entendimento de um descontentamento crescente com a política atual. Somados a tudo isso, o reforço de narrativas anticorrupção, a violência urbana e a insatisfação com  os partidos políticos criaram um terreno fértil para o fortalecimento da extrema-direita e o surgimento de líderes outsiders, antissistema e, por conseguinte, antidemocracia.

Às vésperas das eleições, discursos enviesados de defesa à democracia têm sido entremeados por acenos ao seu oposto. Das mentiras sustentadas por Flávio Bolsonaro -  que negou em rede nacional que o pai tenha sido uma ameaça às instituições democráticas - aos discursos falsamente neutros de Augusto Cury - que propõe a adoção do semipresidencialismo e defende a criação do cargo de primeiro-ministro a ser ocupado por Tarcísio de Freitas, político alinhado à extrema-direita - a ameaça à democracia volta à ordem do dia. Ambos, aparentemente diferentes, mas com muito em comum, vêm para disputar o eleitorado descontente, esse que cresceu com a democracia, mas que parece não se importar em vê-la enterrada.

 

 

Carolina Rodrigues

Historiadora e Psicanalista