É precisamente essa a convicção que sustenta a Maratona de Cartas, a maior iniciativa mundial de defesa dos direitos humanos organizada pela Amnistia Internacional, que celebra este ano o seu 25.º aniversário.
A edição de 2026 arrancou a 19 de outubro e prolonga-se até 31 de dezembro, convidando cidadãos de todo o mundo a participar através da assinatura de petições, envio de cartas, organização de eventos, produção de vídeos, desenhos e divulgação de mensagens de solidariedade nas redes sociais.
Desde a sua criação, em 2001, a campanha contabiliza, segundo a organização, mais de 50 milhões de ações de solidariedade e contribuiu para melhorar a situação de mais de 100 pessoas que enfrentavam detenções arbitrárias, perseguição política e outras violações dos seus direitos fundamentais.
Este ano, três histórias particularmente inquietantes procuram sensibilizar a opinião pública para situações de repressão política, limitação das liberdades individuais e fragilidade das garantias judiciais.
Owen Chow estudou enfermagem, pratica budismo tibetano e, segundo os amigos, tem uma personalidade aventureira e filosófica. Sempre quis ter um cão e gosta particularmente de pastéis de nata.
Aos 23 anos, decidiu envolver-se diretamente na vida política de Hong Kong, participando nas eleições primárias não oficiais destinadas a selecionar candidatos para futuras eleições.
A iniciativa, considerada pelas autoridades uma ameaça à segurança nacional, levou à acusação de Owen e de outras 46 pessoas por alegada conspiração para cometer subversão.
Detido em 2021, acabou condenado, em 2024, a uma pena superior a 12 anos de prisão. Segundo a Amnistia Internacional, a sua libertação apenas está prevista para 2032.
O ativista já passou, de acordo com a organização, pelo menos três anos em regime de isolamento, uma situação que suscita preocupações quanto ao respeito pelos seus direitos fundamentais e pelas condições de detenção.
Um dos episódios mais insólitos ocorreu quando os guardas prisionais encontraram na sua cela restos de um pastel de nata que, segundo a informação divulgada pela campanha, tinha sido levado por um visitante. A descoberta terá motivado mais uma passagem pela solitária.
O detalhe, aparentemente insignificante, tornou-se um símbolo das condições a que o jovem está sujeito.
A Amnistia Internacional considera que Owen Chow foi condenado pelo exercício pacífico dos seus direitos políticos e exige a sua libertação imediata e incondicional.
Na Tunísia, o caso de Ayachi Hammami expõe outra dimensão da repressão política: a perseguição de quem dedica a vida à defesa dos direitos humanos.
Advogado, marido, pai e avô, Hammami construiu um percurso profissional marcado pela defesa de vítimas de injustiças e pela luta pela independência do poder judicial.
Os amigos descrevem-no como uma pessoa de espírito jovem, apaixonada por astronomia, música clássica e longas caminhadas com Arya, o seu cão.
Em abril de 2025, foi condenado a oito anos de prisão, num julgamento que, segundo a Amnistia Internacional, durou apenas alguns minutos e não respeitou as garantias de um processo judicial justo.
Em novembro do mesmo ano, um tribunal de recurso reduziu a pena para cinco anos. O advogado foi detido nos dias seguintes e iniciou uma greve de fome que se prolongou por 45 dias, em protesto contra a sua detenção.
Para a organização de defesa dos direitos humanos, o processo constitui uma forma de repressão contra o seu trabalho jurídico e ativismo pacífico.
A campanha internacional exige a sua libertação imediata e incondicional, defendendo que o exercício da advocacia e a defesa dos direitos fundamentais não podem constituir motivo de perseguição criminal.
A terceira história é a de Marwa Arafa, uma tradutora e ativista egípcia de 33 anos, mãe de uma criança e conhecida pelo seu trabalho de apoio às famílias de pessoas detidas por razões políticas.
Durante anos, Marwa dedicou-se a ajudar familiares de prisioneiros, incluindo crianças que enfrentavam as consequências da separação dos pais.
Em abril de 2020, as forças de segurança egípcias invadiram a residência de uma amiga onde se encontrava hospedada e levaram-na sob custódia. Segundo a Amnistia Internacional, permaneceu desaparecida durante duas semanas, sem que fosse conhecido o seu paradeiro.
Posteriormente, foi acusada de crimes relacionados com terrorismo, num processo que a organização considera infundado e contrário às garantias de um julgamento justo.
Detida há mais de seis anos, Marwa enfrenta agora a possibilidade de uma condenação a prisão perpétua.
A sua situação tornou-se especialmente preocupante devido à deterioração do estado de saúde. A organização denuncia a falta de acesso a cuidados médicos adequados durante a detenção.
A Amnistia Internacional exige a retirada das acusações e a libertação imediata da ativista, argumentando que a sua prisão está diretamente relacionada com o exercício pacífico dos direitos humanos.
Embora a campanha de 2026 esteja centrada nestes três casos na edição portuguesa, a história da Maratona de Cartas está marcada por situações em que a mobilização internacional contribuiu para mudanças efetivas.
Em alguns casos, a pressão pública coincidiu com decisões judiciais favoráveis e libertações. Noutros, permitiu dar visibilidade a situações de perseguição que dificilmente teriam alcançado dimensão internacional.
Um dos exemplos é Germain Rukuki, defensor dos direitos humanos do Burundi, libertado em junho de 2021 depois de cumprir quatro anos de uma pena de 32 anos de prisão. Tinha sido condenado por acusações relacionadas com o seu trabalho de defesa dos direitos fundamentais.
A detenção impediu-o de acompanhar o nascimento do filho mais novo, que veio ao mundo poucas semanas depois de ter sido preso.
Na República Democrática do Congo, os jovens ativistas Yves Makwambala e Fred Bauma foram libertados em agosto de 2016, depois de uma campanha internacional que envolveu cerca de 170 mil ações de solidariedade.
Em 2015, outro caso mobilizou centenas de milhares de pessoas. Moses Akatugba, um jovem nigeriano detido aos 16 anos, tinha sido condenado à morte com base numa confissão obtida, segundo as denúncias, através de tortura.
Após uma década de prisão e cerca de 800 mil cartas enviadas no âmbito da Maratona de Cartas de 2014, recebeu um indulto em maio de 2015.
A história de Moses tornou-se um dos exemplos mais conhecidos da capacidade de mobilização da iniciativa.
Também a artista russa Aleksandra Skochilenko, conhecida como Sasha, beneficiou da pressão internacional. Presa por substituir etiquetas de preços num supermercado por mensagens contra a invasão russa da Ucrânia, foi condenada a sete anos de prisão em 2023.
Em 2024, acabou libertada no âmbito de uma troca internacional de prisioneiros, depois de ter sido um dos casos destacados pela Maratona de Cartas de 2022. Vive atualmente no exílio, na Alemanha.
Mais recentemente, em janeiro de 2026, o defensor dos direitos humanos Seán Binder e outras 23 pessoas ligadas a uma organização de busca e salvamento de refugiados foram absolvidos na Grécia, encerrando um processo judicial que se prolongara durante vários anos.
Binder tinha integrado a campanha de 2019, quando centenas de milhares de pessoas manifestaram apoio à sua causa.
Os resultados acumulados ao longo de 25 anos demonstram a relevância da mobilização pública, embora não seja possível atribuir exclusivamente às campanhas de solidariedade todas as decisões judiciais e políticas que permitiram alterar a situação das pessoas envolvidas.
A Maratona de Cartas tem também uma dimensão humana que ultrapassa os resultados judiciais.
Para pessoas privadas de liberdade, muitas vezes afastadas das famílias e sujeitas a condições de isolamento, receber mensagens de cidadãos desconhecidos pode representar uma importante demonstração de apoio.
Foi o que aconteceu com Rita Mahato, defensora dos direitos das mulheres no Nepal, ameaçada de morte, violação e rapto devido ao trabalho que desenvolvia junto de vítimas de violência.
Depois de o seu caso ter integrado a Maratona de Cartas de 2009, começou a receber mensagens de solidariedade provenientes de escolas, universidades e organizações de vários países. A divulgação internacional contribuiu para aumentar a atenção das autoridades locais à sua situação.
Outra história marcante é a de Magai Matiop Ngong, condenado à morte no Sudão do Sul por um crime cometido quando tinha apenas 15 anos, sem beneficiar de representação legal adequada.
Mais de 700 mil ações foram realizadas em sua defesa durante a campanha de 2019. Em março de 2022, o Supremo Tribunal reconheceu a relevância da sua idade à data dos acontecimentos, abrindo caminho à sua libertação.
Estes episódios mostram como a pressão pública internacional pode contribuir para dar visibilidade a injustiças, questionar decisões e reforçar a proteção de pessoas particularmente vulneráveis.
A edição de 2026 prolonga-se até 31 de dezembro, atravessando uma data especialmente simbólica: 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
A Amnistia Internacional desafia cidadãos, escolas, universidades, empresas e organizações da sociedade civil a participarem nas iniciativas de solidariedade.
Através de cartas, petições e ações públicas, a organização procura pressionar as autoridades de Hong Kong, Tunísia e Egito para que respeitem os direitos fundamentais das três pessoas destacadas nesta edição.
Aos 25 anos, a Maratona de Cartas continua a assentar numa ideia que tem atravessado gerações e geografias: perante situações de injustiça, a indiferença favorece o silêncio e a participação pública pode contribuir para alterar o rumo dos acontecimentos.
Para Owen Chow, Ayachi Hammami e Marwa Arafa, as mensagens enviadas de diferentes pontos do mundo poderão representar uma oportunidade para que os seus casos permaneçam sob escrutínio internacional.
E, num movimento que já mobilizou mais de 50 milhões de ações de solidariedade, até um pequeno gesto individual pode encontrar força na dimensão coletiva.
Recursos:
Página da Maratona de Cartas 2026: https://www.amnistia.pt/maratona/
Curso online gratuito sobre a Maratona de Cartas:
https://academia.amnistia.pt/login/index.php
Vídeo da Maratona de Cartas 2026: https://www.youtube.com/watch?v=5ZNtdWFUI2c