Lisboa receberá Michael Ignatieff no próximo dia 14 de outubro, na abertura do NECE Festival 2026, um encontro europeu de educação cívica que coloca a confiança no centro do debate democrático. Durante três dias, com atividades também em Sintra e Cascais, a organização prevê reunir mais de 200 participantes ligados à educação, investigação, política, cultura, comunicação social e intervenção comunitária.
A pergunta que orienta o festival é como reconstruir as condições que permitem viver e cooperar em democracia. O programa aborda a confiança no sistema democrático, o papel da sociedade civil e dos educadores, e as relações entre pessoas capazes de colaborar apesar das suas diferenças.
Sob o tema «TRUST», o encontro combina intervenções de especialistas com oficinas, masterclasses, visitas e espaços de apresentação de projetos. A educação cívica surge como uma prática que se desenvolve também nas escolas, nas associações e nos encontros quotidianos entre cidadãos.
A participação de Ignatieff é um dos destaques da abertura. Historiador, escritor, professor e antigo dirigente político canadiano, foi deputado entre 2006 e 2011, líder do Partido Liberal do Canadá e líder da oposição parlamentar. A sua intervenção será seguida de uma sessão de perguntas e respostas.
Entre 2016 e 2021, presidiu à Central European University, num período marcado pela saída da universidade de Budapeste e pelo seu estabelecimento em Viena. Essa experiência confere uma dimensão institucional concreta ao seu percurso de reflexão sobre a democracia e os direitos humanos: a defesa da liberdade académica foi também uma responsabilidade exercida perante pressões políticas.
Em 2024, recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Ciências Sociais. A fundação responsável pelo prémio destacou o seu contributo para a defesa dos direitos humanos e dos valores universais, bem como a reflexão sobre diferenças étnicas e religiosas, conflitos morais e nacionalismos violentos. Entre as suas obras encontram-se The Ordinary Virtues: Moral Order in a Divided World e Fire and Ashes: Success and Failure in Politics.
O Instituto Padre António Vieira (IPAV), coorganizador do festival, levará ao encontro a experiência da Academia de Líderes Ubuntu, programa de educação não formal inspirado na filosofia africana habitualmente expressa pela formulação «Eu sou porque tu és». A sua participação centra-se na construção de confiança através das relações e de experiências de aprendizagem partilhadas.
No dia 15 de outubro, a Fundação Calouste Gulbenkian acolherá a masterclass sobre construção de confiança através das relações e metodologia Ubuntu. O programa oficial prevê a sessão entre as 14h00 e as 16h00, com Sara Martins Silva e Maria Guerra. A proposta combina enquadramento conceptual, exemplos práticos e aplicação colaborativa, para ajudar educadores a criar condições relacionais favoráveis à confiança.
No dia seguinte, o IPAV participará no Project Market, também na Gulbenkian, com o Ubuntu Trust Challenge. Os participantes serão convidados a cumprir missões relacionadas com construção de pontes, ética do cuidado e liderança servidora, através de conversas, escuta e pequenos atos de serviço. A atividade inclui uma instalação coletiva e um espaço de registo de mensagens sobre a confiança.
Outras sessões alargam o debate à participação juvenil, à escuta profunda e à polarização. Em Sintra, uma masterclass abordará o modelo YouthBank, que atribui aos jovens responsabilidades sobre decisões de financiamento. Outra trabalhará formas de reconhecer dinâmicas de polarização e prevenir a sua escalada.
Promovido pelo THE CIVICS Innovation Hub no âmbito da rede NECE, o festival realiza-se em cooperação com o IPAV, Cascais Capital Europeia da Democracia, a Câmara Municipal de Sintra, a Organização de Estados Ibero-Americanos e a Dona Ajuda. Conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Embaixada do Canadá em Lisboa, além de cofinanciamento da União Europeia.
Ao reunir debate e experiências participativas, a organização pretende que os profissionais regressem aos seus contextos com práticas que possam testar. A confiança será, por isso, discutida também à escala de uma sala de aula, de uma associação ou de uma decisão partilhada: lugares onde a participação democrática pode ganhar continuidade para além do festival.