Mandela completaria 108 anos em 2026. No entanto, entre as inúmeras histórias da sua vida, há uma menos conhecida que ajuda a compreender a sua extraordinária capacidade de resistir sem perder o sentido de humanidade: enquanto esteve preso, criou e cuidou de hortas.
Não se tratava apenas de uma forma de ocupar o tempo. Naquele espaço limitado, cultivar a terra tornou-se uma experiência de autonomia, disciplina e liberdade.
Quando foi transferido de Robben Island para a prisão de Pollsmoor, em 1982, Mandela encontrou um edifício dominado pelo betão. Observou, porém, que o telhado recebia sol durante grande parte do dia e pediu autorização para criar ali uma horta.
A administração prisional acabou por disponibilizar 16 bidões de petróleo com capacidade para 44 galões, aproximadamente 167 litros cada. Os recipientes foram cortados ao meio, enchidos com terra e transformados em 32 grandes vasos.
Mandela cultivou cebolas, couves, feijão, espinafres, cenouras, pepinos, brócolos, beterrabas, alfaces, tomates, pimentos, morangos e outros produtos. No auge, a horta terá chegado a aproximadamente 900 plantas, segundo o relato incluído na sua autobiografia, Long Walk to Freedom.
Todas as manhãs, colocava um chapéu de palha e luvas de trabalho e passava cerca de duas horas a cuidar da horta. Aos domingos, parte dos legumes era enviada para a cozinha da prisão, permitindo preparar uma refeição especial para os presos comuns.
Alguns levavam sacos para transportar os legumes que tinham sido cultivados pelo homem que estavam encarregados de vigiar.
A horta não apagava a violência do apartheid, nem anulava a injustiça da sua prisão. Contudo, introduzia uma pequena rutura na relação habitual entre prisioneiro e carcereiro. Mandela não oferecia submissão. Oferecia tomates, cebolas ou couves e, com esse gesto aparentemente banal, recordava a humanidade que o sistema procurava negar.
A Fundação Nelson Mandela regista, por exemplo, que em 18 de janeiro de 1984 Mandela plantou tomates na sua horta em Pollsmoor.
Mandela viria a associar o trabalho do líder ao trabalho do agricultor. Ambos plantam, acompanham o crescimento, protegem aquilo que cultivam e assumem responsabilidade pelos resultados.
A comparação ajuda a perceber uma dimensão menos visível da sua liderança. Mandela não surgiu subitamente como símbolo da reconciliação no dia em que saiu da prisão. Durante anos, treinou a paciência, o autocontrolo e a capacidade de trabalhar para um futuro que ainda não conseguia ver.
Uma semente colocada na terra exige precisamente isso: agir no presente sem possuir garantias sobre o resultado.
A horta fazia parte dessa mesma disciplina mental. O regime podia controlar a cela, os horários e as visitas, mas não conseguia determinar aquilo que Mandela escolheria cultivar dentro de si.
Mandela não podia escolher onde viver, com quem falar ou quando sair da cela. Mas podia escolher o que fazer com o pequeno espaço que lhe tinham permitido ocupar.
Essa escolha aparentemente insignificante revela uma dimensão essencial da liberdade humana: mesmo quando as circunstâncias nos retiram quase tudo, permanece alguma capacidade de decidir aquilo que alimentamos dentro de nós.
Mandela poderia ter cultivado apenas ressentimento. Tinha razões de sobra para isso. Em vez disso, procurou cultivar preparação, disciplina e uma ideia de futuro. Não porque tivesse esquecido a violência do regime, mas porque percebeu que a África do Sul não poderia construir uma democracia duradoura limitando-se a inverter os lugares entre opressores e oprimidos.
A reconciliação que viria a defender não representava uma absolvição automática dos responsáveis pelo apartheid. Era uma estratégia política e humana destinada a impedir que o país entrasse numa espiral de vingança e violência.
Foi uma escolha difícil. E continua a ser discutida.
Há quem considere que o processo de reconciliação sul-africano não resolveu as desigualdades económicas herdadas do apartheid. A própria África do Sul permanece marcada por profundas diferenças sociais, pobreza, desemprego e concentração da riqueza. Celebrar Mandela não obriga a ignorar estas contradições. Pelo contrário, exige reconhecê-las.
O Mandela Day não deve servir para transformar um homem complexo numa figura decorativa, reduzida a frases inspiradoras e fotografias sorridentes. Mandela foi advogado, militante político, dirigente de um movimento de libertação, prisioneiro, negociador e chefe de Estado. Tomou decisões difíceis, cometeu erros e enfrentou circunstâncias que não podem ser compreendidas através de slogans.
O seu legado ganha força quando é analisado na totalidade, não quando é convertido numa mensagem confortável.
O Mandela Day nasceu após as celebrações do 90.º aniversário de Mandela, realizadas em Londres, em 2008. Na ocasião, o antigo Presidente sul-africano apelou a que novas mãos assumissem a responsabilidade de enfrentar os problemas do mundo.
Em novembro de 2009, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou oficialmente o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela. A data foi celebrada oficialmente pela primeira vez em 2010.
Existe uma particularidade importante: o Mandela Day não foi concebido como um feriado dedicado à contemplação ou à exaltação de uma personalidade. Quando a Fundação Nelson Mandela apresentou a iniciativa, explicou que não pretendia criar mais uma celebração assente em cerimónias. O objetivo era estimular um movimento internacional de ação comunitária.
A iniciativa propõe que cada pessoa dedique pelo menos 67 minutos a uma atividade ao serviço da comunidade. O número representa simbolicamente os 67 anos que Mandela dedicou à vida pública, à justiça social e à defesa dos direitos humanos.
A proposta não exige grandes cerimónias. Pode passar por acompanhar uma pessoa idosa, ajudar alguém a preparar um currículo, ler para uma criança, recolher resíduos, apoiar uma instituição ou simplesmente disponibilizar tempo a quem precisa.
É pouco mais de uma hora. Tempo suficiente para realizar uma ação concreta, mas demasiado curto para servir de desculpa a quem afirma não ter disponibilidade.
Ainda assim, o significado do Mandela Day não pode ficar aprisionado nesses 67 minutos. A própria Fundação defende que o compromisso deve continuar durante o resto do ano. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a solidariedade numa atividade simbólica, fotografada para as redes sociais e esquecida no dia seguinte.
Durante 67 minutos, um formador pode oferecer uma pequena sessão a jovens à procura do primeiro emprego. Um empresário pode escutar trabalhadores que raramente são ouvidos. Uma escola pode promover uma conversa sobre racismo e desigualdade. Uma organização pode dedicar esse tempo a identificar uma necessidade real da comunidade e assumir um compromisso que dure mais do que um dia.
Mandela compreendeu que as grandes mudanças políticas dependem de decisões coletivas, mas também de comportamentos quotidianos. Nenhuma sociedade se torna verdadeiramente democrática apenas porque realiza eleições. A democracia constrói-se igualmente na forma como se tratam os mais vulneráveis, se distribuem as oportunidades e se reconhece a dignidade de quem pensa, vive ou acredita de maneira diferente.
O tema escolhido pelas Nações Unidas para o Mandela Day de 2026 é: “Continua nas nossas mãos combater a pobreza e a desigualdade.”
Na mensagem divulgada este ano, o secretário-geral da ONU, António Guterres, recorda que Mandela entendia o combate à pobreza não como um ato de caridade, mas como uma questão de justiça.
A comemoração inclui ações de voluntariado, distribuição de refeições a pessoas em situação de insegurança alimentar e apoio a idosos e pessoas vulneráveis. As Nações Unidas disponibilizaram também uma experiência digital interativa, na qual os participantes são confrontados com alguns dos momentos decisivos da vida de Mandela e convidados a escolher como reagiriam perante as mesmas pressões.
Em 2015, o nome do antigo Presidente sul-africano ficou ainda associado às regras mínimas das Nações Unidas para o tratamento de pessoas privadas de liberdade. As chamadas Regras Nelson Mandela defendem condições prisionais humanas e reconhecem que os reclusos continuam a fazer parte da sociedade.
Nelson Mandela pertence à história da África do Sul, mas o seu percurso ultrapassou as fronteiras do país. Tornou-se uma referência para sociedades que enfrentam divisões raciais, políticas, culturais ou religiosas.
Mandela demonstrou que uma liderança africana podia conquistar reconhecimento mundial sem renunciar à sua identidade, à sua história ou às responsabilidades perante o seu povo.
Mas seria injusto exigir que África apresentasse permanentemente novos Mandelas enquanto outras regiões do mundo convivem com as suas próprias desigualdades, discriminações e autoritarismos.
O Mandela Day é internacional precisamente porque a responsabilidade também é internacional. O racismo não terminou com o apartheid. A pobreza não desapareceu com a chegada da democracia à África do Sul. A dignidade humana continua ameaçada em prisões, conflitos, rotas migratórias, bairros marginalizados e locais de trabalho.
A pergunta colocada pelo legado de Mandela não se dirige apenas aos governos africanos. Dirige-se a todos.
Uma horta não cresce devido à força de um discurso. Precisa de cuidado continuado, condições adequadas e trabalho diário.
O mesmo acontece com a liberdade.
É possível conquistar direitos e, mais tarde, perdê-los. É possível construir instituições democráticas e permitir que sejam enfraquecidas. É possível defender publicamente a igualdade e continuar a reproduzir discriminações nas decisões quotidianas.
Tal como o agricultor não pode abandonar a terra depois de lançar as sementes, uma sociedade não pode abandonar a democracia depois de colocar um voto numa urna.
Passou 27 anos privado de liberdade e percebeu que algumas transformações não produzem resultados imediatos. Isso não significa esperar passivamente. Significa trabalhar hoje por algo que talvez só possa ser colhido mais tarde.
A pequena horta de Pollsmoor desapareceu. Os bidões, a terra e as plantas não eram destinados a durar para sempre. Mas a decisão de cultivar vida no interior de uma prisão continua a dizer-nos alguma coisa.
Não escolhemos todas as circunstâncias em que vivemos. Escolhemos, porém, dentro dos limites que possuímos, aquilo que ajudamos a crescer.
Neste Mandela Day, talvez a melhor homenagem não seja apenas recordar o homem que saiu da prisão e chegou à Presidência. É recordar o prisioneiro que, rodeado de betão, decidiu plantar sementes.
E esperar que crescessem.