Para o PR Lula o aumento das taxas sao  um 'erro estratégico' pois diversos setores da indústria dos Estados Unidos dependem de insumos vindos do Brasil.

Com as importações mais caras, produtos como alimentos, calçados, autopeças e móveis devem sofrer um aumento de preço para o consumidor estadunidense , afetsndo negativamente a economia de ambos os países.

O presidente Lula lembrou  que o Brasil e a Turquia se tornaram os alvos preferenciais das tarifas de Trump, atrás apenas da China e que tal  acontece apesar de os Estados Unidos terem acumulado um lucro (superávit) de US$ 428 biliões no comércio com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos, o que tornaria as novas restrições injustas.

Lula negou os discursos  de Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, que declarou anteriormente que o Brasil não seria um país amigo dos EUA. No artigo intitulado 'Ninguém vai nos derrotar com mentiras', o PR Lula  enfaticamente declarou que tentativas de usar a parceria entre as nações para fins eleitorais ou ideológicos não terão sucesso e criticou a decisão de Trump de classificar facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras pois a solução não é a força militar, mas a união de forças em investimentos e tecnologia para enfrentar a fome e a desigualdade, que seriam as causas raízes dos problemas no continente.

Embora o artigo tenha sido publicado logo após o governo brasileiro negar a entrada de funcionários do Departamento de Estado dos EUA que queriam intrometer-se  nu models das urnas de boto eletrônicas Lula evitou citar o caso diretamente. Ele encerrou reforçando que o destino do Brasil deve ser decidido pelos brasileiros, sem submissão a outros países.

O artigo de Lula no The Washington Post de hoje é a manifestação firme de um grande estadista que sabe a hora de falar grosso.

Leiam a tradução:

 

"Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar através de mentiras’

 

(The Washington Post, 26.7.2026)

 

Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar —, explicitando a motivação política por trás da medida.

Nas minhas conversas com o Presidente Trump desde então, salientei que não precisamos partilhar a mesma visão do mundo para prosseguir numa relação mutuamente benéfica entre os nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.

Negociações entre nós, juntamente com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmantelaram a versão inicial das medidas tarifárias abrangentes. No entanto, este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre as nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao Presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.

Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são agora os dois países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isto apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.

Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores dos EUA.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e seu comércio com a China aumentou 15,9%.

A médio prazo, essas tarifas irão perturbar cadeias de abastecimento hoje profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão os fornecedores norte-americanas por parceiros de outros lugares.

Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que seguem em relação ao Hemisfério Ocidental.

A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Numa época em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países têm se apresentado como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.

Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimento, comércio e luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.

Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.

Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.

O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política de Boa Vizinhança, que procurava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu decisivamente para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o Presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cimeira inaugural do Grupo dos 20 líderes.

Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos utilizar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.

Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão aceitas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará através de mentiras.

As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger as nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas tecnológicos. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas dos EUA. e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.

Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de todas as relações entre as nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.

Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, como exige o relacionamento entre dois países como Brasil e Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência."