O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá colocar a defesa da soberania nacional no centro do discurso que fará, em setembro, na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Será, se a agenda se confirmar, a quarta intervenção de Lula na ONU desde o início do atual mandato presidencial, em janeiro de 2023.

A expectativa é que o chefe de Estado brasileiro aborde a situação económica do país, a defesa das instituições democráticas, os riscos de interferência estrangeira nos processos eleitorais e as medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros.

A 81.ª sessão da Assembleia Geral será oficialmente aberta em 8 de setembro. O debate geral de alto nível decorrerá entre 22 e 26 de setembro, com uma sessão adicional no dia 28, segundo o calendário oficial das Nações Unidas.

Por tradição diplomática, mantida desde 1955, o Brasil é o primeiro país a discursar no debate geral, imediatamente antes dos Estados Unidos. Essa posição deverá dar a Lula uma das intervenções de maior visibilidade da semana diplomática

Soberania e democracia no centro do discurso

A intervenção está a ser preparada num contexto de tensão entre Brasília e Washington. Lula deverá rejeitar pressões externas sobre as instituições brasileiras e defender que decisões judiciais, políticas públicas e processos eleitorais do Brasil pertencem exclusivamente à esfera da soberania nacional.

Sem necessariamente transformar o discurso num confronto direto com Donald Trump, o presidente brasileiro deverá sustentar que as relações entre países precisam de assentar no respeito mútuo, no diálogo diplomático e na não ingerência nos assuntos internos.

A defesa da democracia deverá surgir associada à preocupação com o crescimento de movimentos autoritários, a desinformação eleitoral e a utilização de instrumentos económicos como forma de pressão política.

Tarifas deixaram marcas no comércio bilateral

As medidas tarifárias norte-americanas constituirão outro dos principais temas da intervenção. Em 2025, a administração Trump impôs uma tarifa adicional de 40% sobre diversos produtos brasileiros, embora tenha criado exceções e posteriormente retirado alguns produtos agrícolas do alcance da sobretaxa.

Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social concluiu que as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 21,3% entre agosto e dezembro de 2025, comparativamente ao mesmo período do ano anterior. A perda foi parcialmente compensada pela diversificação dos mercados de destino, sobretudo na Ásia. Segundo o BNDES, o aumento das vendas para outros países permitiu ao Brasil manter um resultado global positivo nas exportações.

Em julho de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou também que novas sobretaxas norte-americanas de 10% ou 12,5%, dependendo do enquadramento dos produtos, substituíram uma tarifa temporária aplicada desde fevereiro. O quadro tarifário permanece, portanto, complexo e sujeito a negociações e alterações.

Lula deverá apresentar a resistência da economia brasileira às barreiras comerciais como uma demonstração da capacidade do país para diversificar parceiros e preservar a sua autonomia económica.

Possível encontro entre Lula e Trump

O governo brasileiro trabalha ainda com a possibilidade de uma reunião entre Lula e Donald Trump durante a presença dos dois presidentes em Nova Iorque. Segundo as informações disponíveis, Lula manifestou, em 5 de agosto, a intenção de telefonar ao presidente norte-americano e propor um encontro à margem da Assembleia Geral.

Até ao momento, contudo, não existe confirmação oficial da reunião nem uma agenda bilateral divulgada pelas duas presidências. Convém, por isso, tratar a possibilidade como uma iniciativa diplomática em negociação, e não como um compromisso fechado.

Caso aconteça, o encontro poderá abrir espaço para discutir as tarifas, a relação comercial entre os dois países, a cooperação regional e as divergências em torno da política interna brasileira. A conversa terá também forte significado político, atendendo à proximidade das eleições presidenciais brasileiras de 2026.

A viagem de Lula deverá ser breve, mas politicamente intensa. Entre a tribuna da ONU e a possibilidade de um encontro direto com Trump, o presidente procurará projetar a imagem de um Brasil economicamente resiliente, comprometido com a democracia e indisponível para aceitar tutela estrangeira.