A realidade foi recentemente mostrada por Nas Daily, que visitou a Younited School e destacou também o trabalho desenvolvido pela rede Hand in Hand, duas experiências educativas que procuram fazer da convivência uma prática quotidiana e não apenas um princípio teórico.
A publicação foi acompanhada por uma frase que resume a mensagem do vídeo: se as crianças conseguem partilhar uma sala de aula, talvez um dia seja possível partilhar também uma terra.
A ideia pode parecer simples, sobretudo perante a dimensão política, territorial e humana do conflito. Mas é precisamente na simplicidade desta experiência que reside o seu interesse.
Na Younited School, instalada no campus de Givat Haviva, jovens judeus israelitas, árabes israelitas e estudantes internacionais partilham não apenas as salas de aula, mas também boa parte da vida escolar.
A escola funciona em regime de internato e recebe alunos de diferentes origens e nacionalidades. O modelo procura combinar formação académica com competências de diálogo, resolução de conflitos e convivência intercultural.
A diferença, neste caso, não é tratada como algo que deva desaparecer.
Os alunos chegam com identidades, religiões, histórias familiares e interpretações políticas diferentes. A proposta da escola passa precisamente por criar condições para que essas diferenças possam coexistir no mesmo espaço e ser discutidas.
A experiência da Hand in Hand segue uma lógica semelhante.
Criada em 1997, a organização desenvolveu uma rede de escolas bilingues onde alunos judeus e árabes estudam em conjunto. O hebraico e o árabe são utilizados no ensino e, em muitas situações, professores das duas comunidades trabalham lado a lado dentro da mesma sala.
O princípio é relativamente direto: crianças que crescem conhecendo a língua, a cultura e as tradições umas das outras terão menos probabilidades de construir a sua visão do outro exclusivamente através do medo, da distância ou do preconceito.
É também isso que torna estas escolas particularmente relevantes no atual contexto.
Depois dos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023 e da guerra que se seguiu em Gaza, as relações entre comunidades judaicas e árabes tornaram-se ainda mais difíceis. O conflito entrou inevitavelmente nas escolas, nas famílias e nas conversas entre os próprios alunos.
As divergências não desapareceram. Pelo contrário. Estudantes chegam às salas de aula trazendo consigo experiências familiares, perdas, receios e interpretações profundamente diferentes sobre a guerra. É precisamente neste ambiente que o modelo é posto à prova.
Estas escolas não procuram convencer os alunos de que pensam da mesma forma. Procuram criar condições para que consigam continuar a falar uns com os outros apesar de pensarem de forma diferente.
Não deixa de ser uma experiência limitada perante a dimensão do problema.
Uma escola não resolve a disputa territorial entre israelitas e palestinianos, não determina fronteiras, não decide o futuro de Gaza, não elimina o terrorismo, não resolve a questão dos colonatos nem responde às preocupações de segurança das populações envolvidas.Mas pode atuar num plano anterior à própria política.
Pode permitir que uma criança cresça conhecendo pessoalmente alguém que pertence à comunidade que, fora dos muros da escola, tantas vezes lhe é apresentada apenas através do conflito.
E isso altera alguma coisa.O judeu deixa de ser apenas “o judeu”. O árabe deixa de ser apenas “o árabe”. Passam a ser colegas, amigos, professores ou simplesmente pessoas com quem se partilham aulas, refeições e problemas do quotidiano.
Não significa que deixem de existir divergências.Significa apenas que essas divergências passam a ter um rosto humano do outro lado.
Num conflito onde gerações cresceram frequentemente separadas física, cultural e politicamente, estas experiências educativas não oferecem uma solução para a paz.
Mas mostram que a convivência continua a ser possível.
E talvez seja precisamente por isso que Nas Daily resumiu a visita daquela forma: se crianças de comunidades tão divididas conseguem sentar-se na mesma sala de aula, conversar e crescer juntas, então existe pelo menos uma pequena demonstração de que a separação absoluta não é inevitável.
A paz, naturalmente, exige decisões políticas muito maiores. Mas aprender a viver com o outro pode começar bastante antes. Até numa sala de aula.