Mais de um em cada cinco jovens inquiridos num estudo europeu relatou quatro ou mais experiências adversas na infância. A investigação da OMS confronta a exaltação política da família com a necessidade de proteger as crianças dentro e fora de casa.

A família deve ser um lugar de proteção. Mas a sua defesa, tantas vezes proclamada em discursos políticos e religiosos, precisa de ser confrontada com aquilo que as crianças vivem. Celebrar uma instituição enquanto se ignora o sofrimento que pode existir no seu interior é uma forma bastante cómoda de fugir à responsabilidade.

Um relatório publicado em 6 de outubro de 2026 pelo Gabinete Regional para a Europa da Organização Mundial da Saúde reuniu respostas de 26.741 pessoas, entre os 18 e os 30 anos, na União Europeia, na Islândia e na Noruega. Intitula-se Adverse childhood experiences in the European Union, Iceland and Norway: characteristics, consequences and costs, ou, em português, «Experiências adversas na infância na União Europeia, Islândia e Noruega: características, consequências e custos». 

A investigação foi realizada pela OMS Europa em parceria com a Liverpool John Moores University, com financiamento da Comissão Europeia. Os dados foram recolhidos entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Mais de dois terços dos participantes relataram pelo menos uma experiência adversa na infância; mais de um em cada cinco referiu quatro ou mais. Neste último grupo, 76,3% disseram ter sentido necessidade de apoio profissional de saúde mental no ano anterior, contra 36,7% entre aqueles que não relataram essas experiências. 

Convém perceber o que está a ser contado. As experiências adversas incluem abusos físicos, emocionais e sexuais, negligência e situações familiares potencialmente traumáticas, como testemunhar violência doméstica. O conceito também abrange circunstâncias como a separação ou a morte dos pais. Portanto, seria incorreto transformar todos estes relatos em casos de abuso. 

A precisão não diminui a gravidade dos resultados. Uma maior exposição a estas adversidades surge associada a pior saúde, menores níveis de escolaridade e rendimento e menor confiança nos outros. Estamos perante associações estatísticas, não perante uma sentença sobre o futuro de cada jovem. O próprio relatório destaca o efeito protetor das relações com adultos que oferecem apoio. 

É perante esta realidade que merece ser interrogada a tão proclamada «família cristã ocidental». O estudo não demonstra que o cristianismo provoque estas situações, nem permite atribuí-las a famílias de determinada religião. A crítica dirige-se à utilização desse ideal como certificado automático de superioridade moral. Nenhuma identidade religiosa garante, por si só, que uma criança seja respeitada.

Também não basta chamar «educação» à humilhação ou confundir autoridade com o direito de provocar medo. Uma criança não perde a sua dignidade por depender de adultos. E a privacidade familiar não pode servir de desculpa para fechar os olhos à violência.

A OMS pede prevenção, apoio às famílias e serviços públicos capazes de reconhecer os efeitos das adversidades. Identifica a pobreza, a exclusão social e a violência nas comunidades como condições que exigem intervenção. 

Isso obriga a discutir escolhas políticas concretas. Uma família precisa de condições para cuidar. Uma escola precisa de conseguir responder quando deteta sofrimento. Quem procura ajuda não pode encontrar apenas uma lista de espera ou uma sucessão de serviços que passam a responsabilidade uns aos outros.

Defender a família exige aceitar que ela pode falhar e que, nesses casos, a proteção da criança deve prevalecer. A pergunta incómoda permanece: quanto vale um discurso sobre valores familiares quando não se traduz em segurança para quem ainda não tem meios para se defender?