As escolas de Lisboa já podem inscrever as suas turmas na edição 2026/2027 dos “Heróis da Fruta”, um dos maiores programas portugueses de educação alimentar dirigido às crianças.

Promovida pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), a iniciativa destina-se ao pré-escolar e ao 1.º ciclo e está aberta a estabelecimentos públicos e privados de todo o território nacional, incluindo Madeira e Açores.

Segundo dados divulgados pela própria APCOI, no ano letivo de 2025/2026 inscreveram-se 41.128 alunos, distribuídos por 2.034 turmas e 1.170 escolas. Desde a criação do programa, em 2011, mais de um milhão de crianças terão já participado na iniciativa.

Mas a nova edição chega acompanhada de algo particularmente relevante: evidência científica publicada numa revista internacional com revisão por pares.

Quando brincar também ajuda a mudar comportamentos

Em 2026, a revista científica European Journal of Nutrition, da Springer Nature, publicou o estudo “Promoting and sustaining fruit intake among children aged 3–11 years: a before-and-after evaluation of a school-based intervention”, desenvolvido por investigadores ligados ao Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em colaboração com a APCOI.

O trabalho analisou a intervenção “Heróis da Fruta” aplicada a crianças dos 3 aos 11 anos.

E os resultados merecem atenção.

Entre as 1.016 crianças com dados válidos antes e depois da intervenção, o consumo médio passou de 2,09 para 2,44 porções de fruta por dia.

Mais significativo ainda: a percentagem de crianças que cumpria as recomendações portuguesas de consumo de fruta passou de 30,7% para 44,4%. Isto corresponde a um aumento relativo de aproximadamente 45% na proporção de crianças que atingia as recomendações.

Entre um subgrupo de 357 crianças que inicialmente consumia menos fruta do que o recomendado e que foi acompanhado diariamente durante as 12 semanas da intervenção estudada, 52,7% estabeleceu um padrão de consumo regular de fruta na escola até ao final do programa.

Os investigadores verificaram ainda que o aumento médio observado — 0,35 porções de fruta por dia — foi superior aos 0,24 encontrados anteriormente numa meta-análise de 21 intervenções escolares. Os próprios autores, contudo, aconselham prudência nesta comparação porque o estudo dos “Heróis da Fruta” não dispunha de um grupo de controlo.

Essa ressalva é importante.

O estudo fornece evidência consistente de que o programa está associado à melhoria do consumo de fruta, mas o seu desenho metodológico não permite afirmar que todas as alterações observadas foram exclusivamente provocadas pela intervenção.

Os investigadores assinalam precisamente esta limitação e indicam que está em curso uma avaliação através de um ensaio controlado aleatorizado por escolas, incluindo acompanhamento posterior.

Cinco minutos podem ser suficientes para começar uma conversa sobre alimentação

Uma das particularidades dos “Heróis da Fruta” está na forma como procura entrar no quotidiano escolar.

Em vez de criar uma disciplina adicional ou acrescentar conteúdos extensos ao currículo, o programa utiliza gamificação, storytelling, personagens, músicas, repetição e reforço positivo.

A versão atualmente proposta às escolas exige aproximadamente 5 a 15 minutos por dia durante cinco semanas letivas consecutivas.

A lógica é simples: transformar escolhas alimentares que muitas vezes são apresentadas às crianças como obrigação numa experiência de participação e recompensa.

É também uma abordagem particularmente interessante do ponto de vista comportamental.

O próprio estudo científico descreve o método através de três componentes — role modelling, repetição e reforço — procurando criar no contexto escolar condições para que um determinado comportamento seja repetido até começar a integrar a rotina da criança.

Os resultados obtidos ajudam a explicar por que razão a duração do programa acabou por ser reduzida das 12 semanas utilizadas na intervenção estudada para cinco semanas nas edições posteriores: ao fim das primeiras quatro semanas, 37,8% das crianças acompanhadas já tinha estabelecido um consumo regular de fruta que manteve até ao final das 12 semanas.

Um problema que continua longe de estar resolvido

A importância de programas de literacia alimentar torna-se mais evidente quando observamos os indicadores nacionais.

Os dados oficiais mais recentes disponibilizados pela Direção-Geral da Saúde através do sistema COSI Portugal mostram que, em 2022, 31,9% das crianças portuguesas entre os 6 e os 8 anos apresentavam excesso de peso, incluindo obesidade, e 13,5% apresentavam obesidade.

Depois de uma evolução favorável entre 2008 e 2019, Portugal registou novamente uma subida: entre 2019 e 2022, a prevalência de excesso de peso infantil aumentou de cerca de 29,7% para 31,9%, enquanto a obesidade subiu de 11,9% para 13,5%.

Não significa naturalmente que comer mais fruta, isoladamente, resolva a obesidade infantil.

A alimentação das crianças é determinada por múltiplos fatores: ambiente familiar, disponibilidade económica, publicidade, oferta alimentar, atividade física, sono, contexto social e hábitos adquiridos desde muito cedo.

É precisamente por isso que a escola pode assumir um papel relevante.

Os autores do estudo defendem, aliás, que mudanças sustentáveis exigem uma abordagem sistémica, envolvendo escola, família, ambiente social, pais e cuidadores.

Mais de um milhão de crianças — e agora uma nova geração

Mário Silva, presidente da APCOI, considera que ultrapassar a marca de um milhão de participantes representa uma etapa importante na história do programa, mas não o final da missão.

E talvez seja essa precisamente a dimensão mais interessante dos “Heróis da Fruta”.

Não se trata apenas de ensinar às crianças que uma maçã, uma pera ou uma laranja lhes fazem bem.

Trata-se de tentar construir uma relação diferente com os alimentos antes de os comportamentos estarem completamente cristalizados.

Em 2026/2027, as escolas de Lisboa têm novamente a oportunidade de participar.

Podem inscrever-se turmas do pré-escolar e do 1.º ciclo de escolas públicas e privadas, jardins de infância e diferentes estruturas educativas e de tempos livres. A participação é gratuita e, segundo a organização, todas as turmas que concluírem o desafio de cinco semanas terão prémios de participação garantidos.

As inscrições decorrem até 31 de outubro de 2026.

Inscrever uma turma nos “Heróis da Fruta” 2026/2027

Porque ensinar uma criança a escolher melhor aquilo que come pode parecer um gesto pequeno.

Mas quando esse gesto se repete todos os dias, entra na escola, chega a casa e envolve mais de um milhão de crianças, deixa de ser apenas uma escolha alimentar — passa a ser uma questão de saúde pública.