Segundo dados destacados pela Rede Europeia Anti-Pobreza, através do documento temático “Habitação e Pobreza”, se não existisse sobrecarga financeira com a casa haveria menos 376 mil pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza em Portugal. A instituição alerta que os custos habitacionais estão a anular o impacto protector dos salários e dos apoios públicos.
O problema é particularmente grave porque atinge pessoas que, formalmente, não estão fora do mercado de trabalho. De acordo com uma análise citada pelo ECO, cerca de 9% das pessoas empregadas em Portugal eram pobres em 2025, demonstrando que ter emprego já não garante, por si só, protecção contra a pobreza. O limiar de pobreza em Portugal foi indicado em 8.679 euros por ano, ou seja, cerca de 723 euros por mês.
A situação é ainda mais dura entre desempregados, famílias monoparentais e pessoas com baixos níveis de escolaridade. A pobreza entre pessoas desempregadas atingia 42,6%, enquanto nas famílias monoparentais chegava aos 35,1%, segundo a mesma análise.
A pressão habitacional também tem ligação directa ao aumento das situações de sem-abrigo. A RTP noticiou, no início de 2026, que mais de 14 mil pessoas vivem em situação de sem-abrigo em Portugal, de acordo com o último inquérito realizado no âmbito da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo.
O Governo já tinha aprovado uma nova Estratégia Nacional para os Sem-Abrigo 2025-2030, reconhecendo que o fenómeno tem vindo a agravar-se. Em 2024, o executivo referia cerca de 13 mil pessoas em situação de sem-abrigo no final de 2023 e assumia que o número tinha mais do que duplicado nos seis anos anteriores.
Esta é, por isso, uma notícia social de grande actualidade: a pobreza em Portugal está cada vez menos associada apenas à ausência de trabalho e cada vez mais ligada ao custo estrutural de viver. Trabalhar, receber salário e cumprir obrigações já não chega para garantir estabilidade quando a habitação absorve uma fatia crescente do rendimento familiar.
A tendência coloca pressão sobre políticas públicas em várias frentes: aumento da oferta de habitação acessível, regulação do mercado de arrendamento, apoio a famílias vulneráveis, combate à precariedade salarial e reforço das respostas de emergência para quem perde casa.
O desafio social é claro: enquanto a casa for tratada sobretudo como activo financeiro e não como direito essencial, Portugal continuará a ter trabalhadores pobres, jovens sem autonomia e famílias cada vez mais próximas da ruptura.