Ora, se este Gil Vicente era o mesmo homem que escrevia para a Corte de D. Manuel I, a coincidência deixa de ser apenas curiosa e passa a ser extraordinária.
O dramaturgo conhecia a Corte por dentro e, ao mesmo tempo, trabalhava numa profissão directamente ligada ao ouro, à moeda e à autoridade régia. Mais do que isso, os seus textos revelam conhecimentos específicos do universo da ourivesaria, circunstância que já levou historiadores a defenderem que não estaremos perante dois homens homónimos, mas perante uma única personalidade artística e profissional.
E então surge a pergunta que a História ainda não conseguiu fechar definitivamente: teria o homem que satirizou Portugal nos palcos sido também aquele que transformou em ouro a ideologia de D. Manuel I?
A Custódia de Belém parece quase uma peça de teatro congelada em metal precioso. No centro estão os Apóstolos, acima deles o Espírito Santo e, no topo, Deus Pai, enquanto as esferas armilares de D. Manuel I atravessam a composição como uma declaração do poder português sobre um mundo que acabava de se abrir diante das caravelas.
É difícil não imaginar a ironia histórica de um homem capaz de desmontar a sociedade portuguesa através da palavra ser, simultaneamente, o artesão que ajudava a construir a sua representação através do ouro.
Talvez Gil Vicente não tenha sido apenas o dramaturgo que conhecemos dos manuais escolares.
Talvez tenha sido também o ourives da Coroa.
E se assim foi, uma das maiores figuras da cultura portuguesa do século XVI escreveu Portugal com duas matérias diferentes: a palavra e o ouro.
Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor