Em Vouzela, o maior incêndio registado até ao momento nesta época, as chamas consumiram mais de 13 mil hectares de floresta e mato entre os distritos de Viseu e Aveiro, atingindo também a serra do Caramulo. Apesar de já não haver frentes activas, cerca de 1.200 operacionais permanecem no terreno para consolidar o rescaldo e prevenir reacendimentos.
Em Santo Tirso, o incêndio que lavrava desde sábado na zona de Carreira e Refojos de Riba de Ave chegou a mobilizar mais de uma centena de operacionais e meios aéreos, tendo sido dominado durante a manhã deste domingo. Uma bombeira ficou ferida após uma queda, mas, segundo informações divulgadas pelos bombeiros locais, encontra-se estável e já teve alta.
O Governo decretou a situação de alerta em todo o território continental entre as 00h00 de sexta-feira, 3 de Julho, e as 23h59 de segunda-feira, 6 de Julho, devido às altas temperaturas e ao agravamento do risco de incêndio rural. A medida implica restrições excepcionais, incluindo a proibição de acesso, circulação e permanência em determinados espaços florestais, a interdição de queimadas e a proibição de uso de fogo-de-artifício ou outros artefactos pirotécnicos.
No entanto, a situação poderá não ficar por aqui. O ministro da Administração Interna, Luís Neves, admitiu que a situação de alerta poderá manter-se durante a próxima semana, sublinhando que os próximos dias continuarão a ser de “grande pressão” para o dispositivo de protecção civil. A decisão dependerá da evolução das condições meteorológicas e do perigo de incêndio rural.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera mantém avisos de tempo quente em vários distritos. Este domingo, 5 de Julho, havia distritos sob aviso vermelho, o nível mais elevado, devido à persistência de temperaturas extremamente elevadas, tanto máximas como mínimas. Beja, Bragança, Castelo Branco, Évora, Guarda, Lisboa, Portalegre, Santarém e Setúbal encontravam-se entre os distritos sinalizados com aviso vermelho, enquanto outros permaneciam sob aviso laranja.
Perante a gravidade da situação, Portugal activou o Mecanismo Europeu de Protecção Civil e acordos bilaterais com Espanha e Marrocos para reforçar a capacidade de resposta. A ajuda internacional incluiu meios de Espanha e Itália, com aviões Canadair e equipas terrestres, concentrados sobretudo no combate e consolidação do incêndio de Vouzela.
A vaga de calor também está a afectar a mobilidade. A CP — Comboios de Portugal — anunciou medidas extraordinárias para reduzir o impacto das temperaturas extremas na operação ferroviária, incluindo a gestão da ocupação de alguns comboios de Longo Curso, o bloqueio temporário da venda de lugares em horários mais críticos, o reforço da informação aos passageiros, a disponibilização de água em estações e a monitorização dos equipamentos de climatização.
O quadro português insere-se numa tendência mais vasta no Sul da Europa. França, Espanha, Itália, Grécia e os Balcãs têm enfrentado temperaturas extremas, incêndios florestais e evacuações preventivas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a actual vaga de calor na Europa bateu vários recordes e teve impacto na saúde humana, nos ecossistemas, na agricultura, nas infra-estruturas e na produtividade.
Os dados do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, através do sistema EFFIS, mostram que, até 1 de Julho de 2026, já tinham ardido 118.737 hectares na União Europeia desde o início do ano. Embora abaixo do valor registado no mesmo período de 2025, considerado o pior ano em registo, este número está acima da média dos últimos 20 anos.
Mais do que uma sucessão de ocorrências isoladas, os incêndios desta semana expõem uma realidade estrutural: o território está mais vulnerável, os verões começam mais cedo, os episódios de calor extremo são mais intensos e a margem de erro humano é cada vez menor.
Dominar um fogo é apenas o primeiro passo. O verdadeiro combate começa antes da ignição: na prevenção, no ordenamento do território, na gestão da floresta, na fiscalização, na literacia do risco e na responsabilidade colectiva.
Portugal conseguiu, por agora, travar as chamas mais preocupantes. Mas o país continua perante uma semana decisiva. E quando a terra está quente, seca e exausta, basta uma negligência para transformar paisagem em cinza.
Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil; Governo de Portugal; Instituto Português do Mar e da Atmosfera; RTP; Reuters; CP - Comboios de Portugal; Organização Meteorológica Mundial; Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia / EFFIS.